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‘Soldados do tráfico’ impõem medo em bairro


Por MARCOS ARAÚJO

20/01/2016 às 07h00- Atualizada 20/01/2016 às 07h48

Obras ficaram paradas após construtora decretar falência (Olavo Prazeres/07-01-16)

Obras ficaram paradas após construtora decretar falência (Olavo Prazeres/07-01-16)

Grades apresentam sinais de vandalismo, e local é usado para consumo de drogas

Grades apresentam sinais de vandalismo, e local é usado para consumo de drogas

Deparar-se com um jovem sem camisa e com arma de fogo na cintura, em plena luz do dia, há muito tempo, deixou de ser uma cena rara para os moradores da Vila Olavo Costa e bairros adjacentes. Estes “soldados do tráfico” circulam pelas vias das comunidades e, apesar da banalidade alcançada pela situação, ainda deixam muitos residentes acuados e com medo de sair de casa. Na última segunda-feira, um jovem de 18 anos foi preso com tabletes de maconha e um revólver calibre 38, na Rua Jacinto Marcelino, após exibir a arma na via pública para um grupo. A situação foi denunciada por moradores. Os militares dirigiram-se até o local indicado e, durante a verificação, encontraram o jovem em atitude suspeita. Ao perceber a presença da viatura, ele tentou escapar, mas foi detido. Com ele, os policiais localizaram oito buchas de maconha, uma sacola contendo tabletes da mesma substância, a arma e três munições.

A insegurança na Zona Sudeste é potencializada pelo registro de homicídios consumados e casos de tiroteios. Em 2015, 29 mortes violentas marcaram a região, conforme levantamento da Tribuna, que leva em conta também os óbitos ocorridos posteriormente aos crimes. A região ocupa o segundo lugar em número de assassinatos, ficando atrás da Zona Norte, onde 40 casos foram registrados. Nos meses de novembro e dezembro, três homicídios ocorreram na Olavo Costa. O último foi registrado um dia depois do Natal, quando Thiago da Silva Fedócio, de 31 anos, que estaria com o benefício da saída temporária concedido a detentos, foi assassinado com sete tiros, na Rua Jacinto Marcelino. Ele foi socorrido com vida, mas não resistiu aos ferimentos.

Vencer a violência nesta área, conforme as pessoas que ali vivem, é um desafio, e o Poder Público, para driblá-la, não pode esmorecer. A comunidade aguarda, desde 2011, a finalização das obras para o início do funcionamento do complexo do programa Travessia, desenvolvido pelo Governo estadual em parceria com a Prefeitura, que previa investimentos da ordem de R$ 4,3 milhões com o objetivo de mudar a realidade da Vila Olavo Costa e região. O bairro juiz-forano seria, em todo o estado mineiro, o primeiro a receber o recurso. Todavia, atualmente, as obras estão paradas, já que a empresa Planesan, responsável pelo serviço, entrou em processo de falência. O local hoje sofre com ações de vandalismo e vem servindo para consumo de drogas.

Urgência de intervenções

Enquanto as benesses do projeto não chegam, para chamar a atenção das autoridades, moradores publicaram, nas redes sociais, que “está mais fácil pacificar o Alemão do que a Vila Olavo Costa”. A frase faz referência à comunidade do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, que recebeu uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em 2012. A atitude da comunidade deflagra a urgência de intervenções públicas para minimizar o cotidiano conflituoso. Em março de 2015, por exemplo, o bairro vivenciou um de seus piores episódios de violência, quando, em uma ação ousada, dois homens, de 20 e 26 anos, foram alvejados dentro de um salão de beleza, na Rua da Esperança. Um atirador entrou no local e disparou diversas vezes.

Banalidades

Presidente da ONG Delevigas, que atua no Furtado de Menezes desde 2009, Silvia Gomes, ressalta que a criminalidade permeia a realidade da Zona Sudeste e, na maioria das vezes, não está apenas associada ao tráfico de drogas. “As pessoas estão matando, às vezes, por causa de R$ 5, vinganças, briga entre casais e outros motivos banais. Para transformar isso, é necessário um trabalho grande governamental voltado ao social, priorizando os jovens. Pois hoje eles estão sem obrigação e não há nada que exija deles outro tipo de comportamento”, avalia Silvia, que, em 2014, num levantamento realizado pela ONG, apontou que, em cinco anos, 70 mães enterraram seus filhos depois de perdê-los para a violência na Vila Olavo Costa. A constatação levou o grupo a realizar a marcha das “Mães que choram”, que tinha a meta de sensibilizar o Poder Público. A representante da entidade, que por hora passa por uma reforma, elabora a atualização de sua pesquisa, a fim entregá-la ao comando da Polícia Militar, solicitando mais medidas de segurança.

‘Não dá nem para ficar no portão de casa’

Nascida e criada no Bairro Furtado de Menezes, uma agente de saúde, que prefere não ser identificada, relata que sua equipe não encontra dificuldades para percorrer as ruas do bairro, mas que esta facilidade é limitada por grupos ligados ao tráfico de drogas para quem vem de fora. “Às vezes, quando os agentes chegam a algum ponto, eles (jovens envolvidos no tráfico) mesmos nos avisam: vai embora porque agora está “assombrado”. Na língua deles, estar assombrado significa que estão de tocaia e armados para alguma briga, com chance de tiroteio”, relatou a profissional.

Segundo ela, a comunidade fica exposta a qualquer horário e dia da semana a adolescentes ocupando motocicletas, trafegando armados pelas ruas. No dia em que conversou com a Tribuna, a mulher contou que houve, durante a tarde, uma perseguição entre jovens com motocicletas pelas ruas, nas proximidades da quadra da Escola de Samba Juventude Imperial. “Outro dia, teve uma briga num bar, perto da minha casa, quando as crianças saíam do colégio. Fui chamar a atenção de um rapaz envolvido no tumulto e ele me mostrou a faca, ameaçando”.

Outra moradora, de 64 anos e que viveu a vida inteira no bairro, afirma que a rivalidade existente entre grupos interfere negativamente em todos os setores da comunidade. “Quem mora no Furtado não pode ir, por exemplo, num supermercado que fica no outro bairro”, afirma a moradora, acrescentando que o mais chocante nesta história é o envolvimento de garotos com 10 anos idade com armas de fogo. “As crianças estão, cada vez mais cedo, sendo levadas para o crime, e estão crescendo sem futuro, descendo e subindo morro de arma na mão”, entristece a moradora.

Presidente da Associação de Moradores do Furtado de Menezes, Juracy Alves de Souza, confirma o estado de violência e argumenta que falta investimento social para abrir uma janela de oportunidades às novas gerações, que poderão mudar o cenário atual. “Morei aqui a vida inteira. Podíamos brincar na rua até de noite. Hoje não contamos com essa liberdade. Não dá para ficar nem no portão de casa”, lamenta.

Construção abandonada vira problema

Em fevereiro de 2015, uma partida inaugurou o campo de futebol society na Vila Olavo Costa, integrante das obras do programa Travessia, cujo objetivo, como apontava a propaganda governamental da época de lançamento em 2011, era transformar a vila em um “bairro de verdade”. Na ocasião da abertura do campo, a Prefeitura anunciou que, nos dois meses vindouros, seria entregue à comunidade um prédio de dois pavimentos, que iria abrigar direção, secretaria, cozinha, salas de aulas, banheiros, pátio coberto, biblioteca, uma unidade do Centro de Referência da Assistência Social (Cras) e auditório, além de obras de acessibilidade.

Todavia, conforme apontaram os moradores, os trabalhos ainda não chegaram ao fim, impedindo que todas as ações projetadas para melhorar a qualidade de vida dos habitantes sejam iniciadas. No local onde as obras estão sendo realizadas, é possível constatar sujeira e sinais de vandalismo, com grades de ferros torcidas. “Há meses não vemos nenhuma movimentação de trabalhadores no local. Além disso, como não há um vigia, a construção está servindo de lugar para uso de drogas. Está tudo abandonado”, reclama um morador, que preferiu o sigilo do nome.

O secretário de Governo da Prefeitura, José Sóter de Figueirôa Neto, afirmou que, antes da falência de empresa Planesan, 95% das obras já haviam sido finalizadas. Segundo ele, a Administração Municipal já trabalha para que elas sejam retomadas pela Empav ou por outra empresa contratada por carta-convite. “Temos um cronograma e pretendemos cumprir. O complexo irá funcionar por meio de uma gestão compartilhada. Terá um conselho administrativo no qual metade será composto por representantes da comunidade e outra pela Prefeitura. Nossa pretensão era inaugurar em outubro passado, mas agora a estimativa é entregar a obra até março de 2016”, afirma o secretário, acrescentando: “Falta pouco para acabar. Temos que colocar os vidros, mas tememos haver depredação. Nossa meta é terminar e inaugurar para evitar esse tipo de situação”, afirma Figueirôa, garantindo que serão acionados setores competentes para a vigilância do local.

O prefeito Bruno Siqueira (PMDB) afirmou que o programa Travessia é importante para o município, pois levará esporte, cultura e lazer para os moradores da Vila Olavo Costa. “Acreditamos que isso vai ajudar muito na formação dos moradores. Sabemos que é uma região importante do município, e que estes investimentos sociais e culturais que estamos realizando, assim como investimentos na educação e lazer na Zona Norte e Bairro Dom Bosco, são muito importantes para a formação futura de crianças e jovens.”

 

Região monitorada

De acordo com o assessor de comunicação da 4ª Região da PM, major Marcellus de Castro Machado, a situação da Vila Olavo Costa e bairros vizinhos vem sendo monitorada pela companhia responsável pela região Sudeste. “A PM não admite que em determinados ambientes os habitantes sintam-se ameaçados, acuados e lesados em seu comércio, vivam com imposição de horários para ficar na rua. Em lugar nenhum do Brasil, a Polícia Militar admite uma situação dessa, e sempre daremos uma pronta resposta em relação a esse tipo de situação”.

O militar aponta que o monitoramento da região vem sendo feito por meio do Registro de Eventos de Defesa Social (Reds), do sistema Copom, dados da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) e pelos telefones 190 e 181. “A população precisa entrar em contato conosco, apresentar-nos sua demanda, para que tracemos estratégias, a fim de inibir este tipo de caso. Hoje nossos números são bem mais controlados do que em cidades do mesmo porte e até menores que Juiz de Fora. Não admitimos que se diga que existem dificuldade em pacificar determinadas áreas. Nossa intenção é sempre dar à população uma sensação de segurança.”