Deslizamentos mudam rotina e deixam moradores em vigília no Santa Cecília
Interdições, medo de novos desabamentos e mudanças no transporte afetam a vida de moradores do bairro em Juiz de Fora
“Não mexe só com os bens materiais, mexe com o psicológico da gente também”, resume Maria Lúcia dos Santos, 59 anos, sobre a situação que vive. Ela mora na Rua João Francisco Monteiro, no Santa Cecília, Zona Sul de Juiz de Fora. A casa, onde mora com o gato, foi parcialmente interditada depois que um deslizamento engoliu parte do quintal: terra e árvores desceram morro abaixo até alcançar duas casas na rua ao lado, a Gabriel Rodrigues – onde os moradores tiveram que ser evacuados. Desde então, o espaço que antes era extensão da casa virou área proibida. A Defesa Civil orientou que ela não acesse os fundos. Mas, na frente da casa, o risco também se insinua. Pela janela, Maria Lúcia vê outro trecho de terra cedendo.

O drama enfrentado pela moradora também é sentido em outras partes da cidade. O medo de dormir, sair de casa durante à noite e ficar alerta quando a chuva começa. “Às vezes, vou dormir na casa da minha sobrinha, porque não consigo descansar aqui. Fico preocupada, olhando meu quintal que ainda tem aquele bambuzal”, acena. “Essas duas árvores que desceram, graças a Deus, não puxaram o restante. Mas a gente não sabe até quando. Eu fui olhar pela rua de baixo… virou um precipício ali nos fundos da minha casa, sabe?”
A vigília se dá desde a noite do dia 23 de fevereiro, quando o desastre atingiu Juiz de Fora e outras cidades da Zona da Mata. Sobre esse dia, ela lembra da escuridão e de não saber o que acontecia dentro dela. “A gente não sabia onde estava o perigo você escutava a terra descendo. Foi bem assim forte mesmo. Fui até a casa da vizinha do lado, sem saber que lá estava ainda pior que aqui, quando chegamos na janela, vimos a terra descendo.”
Segundo Maria Lúcia, os deslizamentos não atingiram apenas as casas – atravessaram também sua rotina e seu trabalho como caixa de uma rede de supermercados. Com problemas de mobilidade no joelho, ela não consegue mais chegar até o novo ponto do ônibus, que passou a operar mais distante depois das interdições pelas ruas do bairro.

Há cerca de três semanas, conta Maria Lúcia, as faltas no trabalho têm sido abonadas. “Eu não consigo subir esse morro todo dia”, diz. Sair de casa virou um cálculo: se vai, talvez não consiga voltar. O trajeto exige a subida íngreme até o ponto do ônibus. Mas, a partir de hoje, ela sente que isso vai ser, ao menos, minimizado.
A Prefeitura anunciou nesta quinta-feira (19) mudanças nos itinerários e desvios de linhas de ônibus que atendem o bairro. A linha 527 (Santa Cecília) recebeu ajustes para garantir que os ônibus circulem por uma área maior desta região. A alteração, de acordo com o Executivo, se dá como uma interlocução entre demandas dos moradores em consonâncias com vistorias técnicas realidades pela Defesa Civil e a Secretaria de Mobilidade Urbana (SMU).

Procurada pela reportagem da Tribuna, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) foi questionada sobre as intervenções já realizadas na Rua João Francisco Monteiro, no Bairro Santa Cecília, e sobre o número de áreas atualmente sob interdição total e parcial na região.
Também foi solicitada uma avaliação atual da Defesa Civil sobre a situação da Rua Pretestato Silva, onde, apesar da liberação da via após um deslizamento, moradores relatam risco na parte superior da encosta, com a presença de um bloco de concreto e uma residência que podem ceder.
A reportagem ainda questionou se há uma nova data prevista para vistorias em imóveis e terrenos com risco no bairro.
Em nota, a Prefeitura de Juiz de Fora informou que a região do bairro Santa Cecília é uma área de risco mapeada pela Defesa Civil. No bairro, foram registradas 24 interdições totais, duas parciais e uma temporária de imóvel comercial. A Rua João Francisco Monteiro passou por vistorias técnicas da Defesa Civil, e os imóveis em situação de risco foram interditados. A via também já recebeu serviços de limpeza e desobstrução.
Na Rua Pretestato Silva, alguns imóveis seguem interditados devido ao risco de deslizamento de terra. Para reduzir esse risco, a Defesa Civil avalia a necessidade de demolir imóveis localizados no topo da encosta. Tanto a Rua Pretestato Silva quanto a Rua João Francisco Monteiro estão incluídas no termo de compromisso do PAC para a execução de obras de contenção, e a empresa responsável pelo serviço já foi contratada.
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