Água de Chapéu D’Uvas chega até juiz-foranos

Na altura de Ewbank da Câmara, pescadores afirmam que seca está “brava” e que nunca viram barragem tão vazia

Na velha Dores do Paraibuna, em Santos Dumont, nível da água também está baixo
Com 39% da sua capacidade de armazenamento, a barragem de Chapéu D’Uvas começou a operar, definitivamente, ontem em Juiz de Fora. Segundo a Cesama, a água já está chegando, por meio da adutora, até a Estação de Tratamento de Água (ETA) Walfrido Machado Mendonça, no Bairro Distrito Industrial, Zona Norte, e, em breve, vai abastecer a casa dos juiz-foranos. Apesar do novo fôlego, inicia-se hoje, em todas as regiões da cidade, um rodízio de abastecimento de água, que deverá se estender por duas semanas. Diante do quadro de racionamento e escassez de todos as represas da região, situação não exclusiva, já que o Brasil inteiro sofre com a seca prolongada, a Tribuna foi ver de perto como está o maior manancial de abastecimento da cidade. As imagens, a princípio, causam certo espanto, inclusive para a população da região de Santos Dumont e Ewbank da Câmara, onde a equipe de reportagem esteve na última quarta-feira.
Em ambos os pontos onde a Tribuna esteve, é possível perceber que a água está, pelo menos, dez metros abaixo do nível normal. O aposentado Sebastião dos Santos, 78 anos, frequenta a barragem de Chapéu D’Uvas, na altura da antiga Dores do Paraibuna (localidade desapropriada para construção da represa), há 15 anos para pescar. Este ano, ele acredita que a água está muito abaixo. “O nível da represa costuma descer mesmo, mas sempre volta ao normal nesta época e inunda tudo que estamos vendo. Não dá nem para chegar aqui na cidade antiga, porque a estrada fica cheia de água.” Na mesma barragem, na altura de Ewbank da Câmara, os aposentados José Pinto, 66, e Edison de Castro, 78, também costumam pescar próximo à balsa da cidade. “Essa seca está muito brava, nem está tendo peixe direito. Nunca vimos a barragem tão vazia em anos em que frequentamos aqui”, garante José.
Morador de Dores do Paraibuna, Zona Rural de Santos Dumont, o comerciante César Alencar, 46, também está assustado. O comerciante diz que as nascentes da região do entorno de Chapéu D’Uvas estão praticamente secas, e a água que chega para a comunidade está vindo pela metade. “Os caminhões-pipa estão tendo que abastecer nossa região.” Afixado na porta do mercadinho de César, um aviso da Prefeitura de Santos Dumont aponta que, para melhor atender a comunidade de forma preventiva e evitando maiores transtornos, a bomba de fornecimento de água deverá ser ligada apenas em horários pré-determinados. “Nós já estamos em racionamento, as pessoas aqui da região estão sem água. Nunca vi isso antes, tanta seca e tanta queimada”, completa o comerciante.
Assista ao vídeo que mostra a situação crítica em que a barragem vem operando:
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Consequência da seca prolongada
Conforme o diretor de Desenvolvimento e Expansão da Cesama, Marcelo Mello do Amaral, a barragem de Chapéu D’Uvas equivale hoje a duas represas João Penido em época de cheia, sendo que o normal é ela ser 11 vezes maior. Contudo, ele garante que é comum o nível baixar na seca. “O manancial foi projetado para oscilar desta forma, devido a sua função de impedir o transbordo do Rio Paraibuna.” Contudo ele ressalta que, neste período, tipicamente chuvoso, a barragem já era para estar cheia.
Com o início das chuvas, a expectativa é de que Chapéu D’Uvas retorne ao seu nível normal. “A não ser que o verão tenha pouca chuva, que não é o que se espera, haverá uma compensação no balanço hídrico perdido. Desde 1994 (inauguração da barragem), nunca tivemos problemas de recuperação porque o lago é grande e menos suscetível a variações climáticas.” Já a João Penido, segundo Marcelo, deve ter mais dificuldade de se recuperar, dada a grande extensão do período de seca. “Mesmo tendo Chapéu D’Uvas, precisamos da chuva urgente para João Penido, porque Juiz de Fora não pode operar com apenas um manancial.”
Vazamento
Ontem, durante os testes finais que vêm sendo realizados na interligação da adutora que liga Chapéu D’Uvas à estação de tratamento, houve um problema em um dos elementos utilizados para controle, que causou um vazamento. Segundo a Cesama, foi necessário interromper o bombeamento, e o problema foi solucionado. “Nossa ideia é, a partir de amanhã (hoje), colocar o fluxo necessário para o sistema, de forma gradativa.”
Falta d’água
Nos últimos dias, a comunidade da Cidade Alta continua relatando a falta d’água na região. Segundo Marcelo, apesar da chegada de Chapéu D’Uvas, a região de São Pedro depende ainda da finalização das obras da subadutora do bairro, previstas para o ano que vem. Ele chama a atenção, novamente, para o fato de que as pessoas precisam se conscientizar quanto ao uso racional da água. “O rodízio funciona também com um caráter educativo.”
Durante a manhã de ontem, colaboradores do Centro Regional de Transferência de Tecnologia (Critt) da UFJF ficaram sem água. O problema afetou, ainda, as empresas incubadas na instituição, que também suspenderam suas atividades no dia. Em seu site, a UFJF lançou um alerta para que a comunidade acadêmica evite o desperdício. De acordo com o comunicado, alguns pontos da instituição, como o Restaurante Universitário, têm um reservatório no subsolo e, por conta disso, correm menos risco de ficar sem água.








