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Dengue grave: hemorragia é só um dos sintomas


Por EDUARDO MAIA

16/02/2016 às 07h00- Atualizada 16/02/2016 às 10h01

56c25acb58247A confirmação das duas mortes por dengue grave em Juiz de Fora deixa a cidade em alerta. Para esclarecer as diferenças entre a forma clássica da doença e a mais grave, antes tratada como dengue hemorrágica, a Tribuna ouviu o pesquisador do Grupo de Imunologia de Doenças Virais da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Minas), o doutor em virologia, Marco Antônio da Silva Campos. Ele fala ainda sobre sintomas e tratamento e explica sobre a evolução da doença, que pode desenvolver condições clínicas mais graves.

Tribuna – O que é a dengue grave? Por que a mudança da nomenclatura, já que antes era tratada por dengue hemorrágica?

Marco Antônio da Silva Campos – A Organização Mundial de Saúde (OMS) resolveu criar, para fins diagnósticos, mudanças na nomenclatura da dengue. O objetivo é facilitar, aos profissionais de saúde, a identificação dos vários sintomas, já que é uma doença complexa. A hemorragia é só um dos sintomas da dengue hemorrágica, daí o fato de se mudar os critérios de análise. Nesta nova nomenclatura, existe a dengue não grave e a dengue grave. Enquanto a maioria dos pacientes se recupera após um curso clínico não grave, uma pequena proporção progride para a doença grave, caracterizada principalmente por extravasamento de plasma com ou sem hemorragia.

– Quais os principais sintomas e a quais riscos o paciente está submetido quando a contrai?

– Na dengue grave, os pacientes apresentam extravasamento grave de plasma, hemorragia grave e comprometimento grave dos órgãos. O extravasamento do plasma pode levar ao choque e ao acúmulo de líquido com desconforto respiratório. Os órgãos acometidos pela dengue grave são o fígado, com aumento de transaminases (detectado por exame de sangue específico), o Sistema Nervoso Central (CNS), com consciência prejudicada, o coração e outros órgãos.

– Qual o tratamento para este caso?

– O tratamento indicado é a hidratação intravenosa, a qual pode reduzir a taxa de letalidade para menos de 1% dos casos graves. É complexo definir o grupo que progride da doença não grave para a doença grave, mas é muito importante, pois o tratamento apropriado pode prevenir que estes pacientes desenvolvam condições clínicas mais graves.

-Qual a diferença dos sintomas da dengue clássica? O quadro clínico pode se agravar rapidamente?

– O quadro clínico, quando se diagnostica dengue, deve ser definido pelos sintomas, como dito anteriormente e pelos exames laboratoriais, caso se suspeite pelos sintomas de dengue grave. Pode haver agravamento dos sintomas bem rápido, razão pela qual os sintomas são muito importantes de serem detectados. Os sinais de alarme são: sensibilidade ou dores abdominais, vômitos persistentes, acúmulo de fluidos, sangramento das mucosas, letargia ou agitação, alargamento do fígado, e exame laboratorial com aumento no hematócrito (parte dos glóbulos vermelhos do sangue) concomitante com rápido decréscimo na contagem de plaquetas. Na dengue grave, os pacientes apresentam extravasamento grave de plasma, hemorragia grave e comprometimento grave dos órgãos.

– Uma pessoa que teve a dengue pela primeira vez, numa reincidência pode evoluir para um quadro de dengue grave? Qual a probabilidade para que isso aconteça?

– O vírus da dengue (DENV) possui quatro sorotipos distintos (DENV1, DENV2, DENV3 e DENV4), cada um com vários genótipos. Os sorotipos diferem um do outro de 25% a 40% no nível de aminoácidos e os genótipos variam em aproximadamente 3%. Quando uma pessoa teve dengue causada por um sorotipo e volta a ser infectado por dengue de outro sorotipo, pode acontecer um fenômeno chamado de ADE (do inglês, aumento de infecção dependente de anticorpos). Neste fenômeno, o sistema imunológico do doente reconhece só parcialmente o vírus, não produzindo uma resposta eficiente e, pior ainda, os anticorpos gerados pelo doente ajudam o novo vírus, de sorotipo diferente do da infecção anterior, a entrar com mais facilidade e mais velozmente nas células infectadas, causando uma doença mais grave.

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