Racismo e intolerância na rotina do negro em JF
Fernando Custódio Valério tem 25 anos de idade. É negro e morador da Vila Olavo Costa, na Zona Sudeste, bairro estigmatizado pelos constantes crimes violentos e outros relacionados ao tráfico de drogas. Professor, graduado em pedagogia há dois anos, o jovem afirma ser alvo constante de preconceitos, muitas vezes, por conta da cor de sua pele. “Abordagens policiais são constantes, mesmo após um dia inteiro de trabalho. Quando estou no ponto de ônibus do Centro, a caminho de casa, preciso explicar o que estou fazendo e para onde vou. Em certos momentos, a vontade que tenho é ir buscar meu diploma para provar que não sou marginal”, lamenta, mostrando o anel de formatura que, com orgulho, deixa em seu dedo. O medo diário e persistente sentido por Fernando não é sem fundamento. Os negros e pardos em Juiz de Fora, assim como em todo o país, são os principais alvos da violência. Na cidade, em 2015, eles são 74% das vítimas de homicídios e tentativas de homicídio. Entre os autores, correspondem a 61%. Eles também ficam com as piores estatísticas quando o assunto é mercado de trabalho. Só para exemplificar, dos quase dois mil professores da UFJF, apenas cerca de 20 são negros, conforme um levantamento preliminar da instituição. Para entender como é “Ser negro em Juiz de Fora” e marcar o início da Semana da Consciência Negra, a Tribuna inicia hoje esta série.

A intolerância contra negros e pardos é histórica no país, apesar de a maioria da população ser formada por este grupo, de acordo com o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No Brasil, eles são 51% e, em Minas Gerais, 54%. Juiz de Fora é ponto fora da curva e representa 42% da sociedade. Apesar da minoria localizada, as lutas por direitos têm ganhado força no município. Há representações importantes em ação, como o Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial. A presidente do conselho, Zélia Lúcia Lima, lembra que ainda existem muitas dificuldades a serem superadas, tanto institucionais como ideológicas. “Em minha visão particular, Juiz de Fora ainda é uma cidade muito conservadora. É preconceituosa e racista. O principal fator, para estes números, é o medo que as pessoas têm de se declararem negras. E este medo vem de gerações, pois os sofrimentos dos porões dos navios ainda estão muito presentes em nossa alma”, diz ela ao comentar os dados do IBGE que diferem do restante do estado e do país.
Contra o preconceito
Fernando, da Vila Olavo Costa, que também é educador do Curumim da Vila Olavo Costa, é apenas um de centenas de milhares de negros e pardos juiz-foranos que convivem, diariamente, com o preconceito e a intolerância. Sobre o anel de formado que usa no dedo, explica: “Não evita a abordagem policial, mas facilita na explicação. Não que eu use por esta razão, pois tenho orgulho de ter conseguido estudar e me formar. Penso eu: preciso de um acessório ou documento para provar algo e evitar uma abordagem violenta e agressiva? Chego a sair de casa rezando: ‘Pelo amor de Deus, geral, hoje, não’.” Em outras situações, o uso do anel não facilita. “Se quero sair para uma boate e voltar de táxi para casa, o motorista sempre está em seu momento de descanso. Curioso que, minutos após, o mesmo profissional aceita a corrida de um branco. O mesmo ocorre em lojas, onde sou acompanhado de perto por seguranças. Isso dói.”
O jovem pedagogo diz que fez faculdade porque queria e gosta, mas completa:”Fiz também para provar que o negro da Vila não é só o estigma que a sociedade reconhece. E é cansativo ter sempre que provar algo a alguém. Quando vou dar alguma palestra, e me apresentam como pedagogo, as pessoas já me olham estranho. Será por que sou negro? Piora quando falo onde vivo, e eu faço questão de dizer. As pessoas sempre ficam com olhares impressionados. Você nunca pode ser sem estar provando. E isso passa por gerações, pois eu e todos nós somos fruto de uma construção histórica. Hoje eu tenho a oportunidade de desconstruir o preconceito por meio do Curumim.”
Em seu trabalho, no qual o convívio com crianças carentes negras e pardas é rotina, o assunto é constantemente abordado nas oficinas. Em sua opinião, a discriminação não é de brancos contra negros, mas sim da sociedade. “Eu sou uma pessoa consciente dos meus direitos e deveres, mas as crianças não. Têm meninos de 12 anos que passaram por geral, por serem negros e estarem nas ruas da Vila. E isso vai se repetir aos 15, aos 17 anos. Eles já nascem com este estigma. É um problema que vem de berço, pois, se a história afro-brasileira fosse estudada nas escolas como deveria, não teríamos esta postura. O que falta é respeito com a raça.”

DOS NAVIOS AINDA ESTÃO MUITO PRESENTES EM NOSSA ALMA”,
Zélia Lúcia Lima, presidente do Conselho de Promoção da Igualdade Racial (foto: Fernando Priamo)
‘Tentaram desumanizar e marginalizar o negro’
Denunciar o racismo é polêmico. Em maio, a Tribuna acompanhou a evolução de uma campanha de estudantes da UFJF que abordava o tema. Com cartazes espalhados pelo campus, os alunos mostraram, por meio de frases, casos reais de preconceito no ambiente acadêmico. A iniciativa, na época, dividiu opiniões e causou grande repercussão, inclusive com debates acalorados. Passados seis meses da iniciativa, a instituição, agora, prepara uma campanha de conscientização para abordar o tema.
De acordo com a chefe da Diretoria de Ações Afirmativas da Universidade, Carolina Bezerra-Perez, um dos cartazes, na época, perguntava quantos professores negros havia na instituição. Segundo ela, em um levantamento preliminar feito, se considerar os concursados, este número não chega a 20, em um universo de aproximadamente dois mil, e este deve ser um dos temas tratados durante as ações, planejadas para começar nos próximos dias.
Carolina, que é doutora em educação pela Universidade de São Paulo (USP), e pesquisadora de temas, como inclusão racial, relações étnico-raciais e relações de gênero, disse que casos de preconceitos ainda chegam à diretoria da UFJF. Segundo ela, situações como estas ocorrem como consequência do processo de imigração do país. “Buscaram o branqueamento da sociedade brasileira e, ao mesmo tempo, tentaram desumanizar e marginalizar os negros para que continuassem no papel de subalternos. Ficaram sempre às margens de todo o processo de acesso ao trabalho, educação e saúde. Ao contrário, os brancos, em poucas gerações, puderam ingressar na universidade e obtiveram postos de prestígio na sociedade.”
Ainda conforme Carolina, o preconceito ocorre devido à construção feita contra o negro, desde a colonização. “Usaram muitas ferramentas, inclusive os meios de comunicação. Também por isso, temos hoje a questão do racismo institucional. A polícia é uma instituição que lida com o fato de ‘se é negro é o suspeito de um crime’. E, atualmente, 70% da juventude que morre no Brasil é negra”, pontuou.
Semana da consciência
Carolina informou também que a UFJF planeja uma série de ações, durante toda a próxima semana, para discutir a consciência negra. A programação ainda será divulgada.
Conselho cria selo de diversidade racial
Em setembro deste ano foi instituído na cidade o Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (Compir), órgão que visa à valorização das minorias, como os sírios, turcos, ciganos, índios e negros. Estes últimos são, atualmente, a maior demanda da organização, que ainda luta para garantir direitos desta parcela da população.
Para conhecer a população negra e como elas vivem, o conselho desenvolve um projeto experimental para criar o selo da diversidade racial e de gênero no mercado de trabalho. O objetivo é apontar quais empresas do município respeitam e valorizam os trabalhadores negros. A ideia já começou a ser desenvolvida na Prefeitura, onde nove órgãos públicos passam pelo levantamento, ouvindo as demandas dos colaboradores. Aquelas que forem aprovadas, receberão o selo, que terá validade de um ano. “Sabemos que existem secretarias preconceituosas e precisamos mudar isso. Hoje na cidade sabemos que os negros trabalhadores estão nas ruas, são os vigilantes, as faxineiras e os garis. Então queremos reconhecer esta realidade para mudá-la, pois isso é muito sério.”
Outra demanda que o conselho pretende atender é das necessidades específicas da população juiz-forana afro-brasileira. “Na questão da saúde, por exemplo, sabemos que há doenças que são próprias dos negros, então precisamos de um tratamento. Quando pegamos o quadro de doenças ocupacionais dos servidores da Prefeitura, descobrimos que o afastamento por problemas emocionais é grande na população negra. Mas por que será? Estas respostas precisam ser encontradas.”
‘Quanto mais escura a cor, maior a discriminação’
Negros e pardos são os maiores autores e vítimas de crimes violentos em Juiz de Fora, como os homicídios tentados e consumados. De acordo com estatística fornecida pela Polícia Militar, dos 164 autores destes crimes, identificados este ano, 101 são negros ou pardos, 42 são brancos e, em 21 casos, não houve preenchimento da cor da pele. Com relação às 244 vítimas, 181 são negras ou pardas e 52 são brancos. Nesta reportagem, a Tribuna associa negros e pardos em um mesmo grupo, assim como é feito pelo Governo federal ao direcionar políticas públicas para esta parcela da sociedade.
Na opinião da doutora em educação pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora de temas como inclusão racial, relações étnico-raciais e relações de gênero, Carolina Bezerra-Perez, os pardos também são vítimas históricas de preconceitos. “Tem certos grupos que não gostam deste conceito de pardo e se reconhecem como negros. Na verdade, o pardo foi forjado no Brasil como uma forma de amenizar as questões étnico-raciais e na tentativa de desmoralizar os negros nas lutas de direitos humanos e civis. O pardo também sofre preconceito, sendo que, quanto mais escura a cor da pele, maior a discriminação.”
No caso da PM, a declaração de raça pode ser feita de várias formas, desde a interpretação do próprio policial (no caso de homicídio consumado sem testemunhas), até a partir de entrevistas com os próprios envolvidos ou testemunhas do crime. A informação constará, posteriormente, no Registro de Eventos de Defesa Social (Reds), popularmente conhecido como boletim de ocorrência.
PM desmistifica preconceito
O major Marcellus Machado, assessor organizacional da 4ª Região da PM, é enfático ao afirmar que os policiais não fazem juízo de valores no atendimento de uma ocorrência ou averiguação de atitudes suspeitas. “O cidadão, independentemente do segmento, sexo e raça merece toda a atenção, da melhor forma possível, do policial militar. Não trabalhamos para achar que determinado cidadão é criminoso por causa de sua cútis ou endereço. Fazemos abordagens constantes visando a segurança de todos, independente destas características. O crime não escolhe idade, cor ou sexo.”









