Mais da metade das denúncias de violência contra idosos em Juiz de Fora apontam filho como suspeito

Dados do Disque 100 apontam que 79,1% das agressões acontecem diariamente; violações de abandono cresceram 44,2%


Por Mariana Souza

15/06/2026 às 17h12

Violência contra idosos em Juiz de Fora: filhos lideram denúncias, agressões diárias em 79,1% dos casos e abandono cresce 44,2%.
Em 79,1% das denúncias de violência contra idosos em Juiz de Fora, as agressões acontecem todos os dias, aponta o Disque 100 (Foto: Felipe Couri)

A violência contra idosos em Juiz de Fora, raramente, chega de fora. Na maior parte das vezes, atravessa a rotina, ocupa o espaço da casa, senta à mesma mesa e vem de quem chama a vítima de “mãe” ou “pai”. Entre janeiro e maio, os filhos apareceram como suspeitos em 51,7% das denúncias registradas no município pela Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH), a partir do Disque 100. O índice é 14,4% maior do que o observado no mesmo período do ano passado.

Neste 15 de junho, data que marca o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, a Tribuna de Minas mostra os dados da realidade local, como tem sido o trabalho de combate a esse tipo de violência e o que é necessário para garantir a proteção e a dignidade de idosos em uma cidade que está envelhecendo.

Nos cinco primeiros meses deste ano, Juiz de Fora contabilizou 354 denúncias de violência contra pessoas idosas e 2.802 violações de direitos. Por trás dos números, há situações que não se limitam a episódios isolados. Em 79,1% das denúncias, as agressões são diárias. Em quase um terço dos casos, a violência se arrasta há mais de um ano.

O lar, que deveria ser espaço de proteção, aparece como o principal cenário das violações. Em 92,4% das ocorrências, a violência acontece dentro de casa. Cerca de sete em cada dez vítimas são mulheres. A faixa etária com mais denúncias é a de 65 a 69 anos, mas os registros alcançam também os mais longevos: pessoas entre 85 e 89 anos e idosos com 90 anos ou mais aparecem em 46 denúncias cada grupo. 

Quando o cuidado vira violação 

A negligência lidera os registros em 2026, presente em 79,9% das denúncias. Em seguida, aparecem exposição a risco à saúde, tortura psíquica e maus-tratos. Os dados também revelam uma contradição: embora as denúncias de abandono ao Disque 100 tenham caído 9,2% em Juiz de Fora, o número de violações registradas como abandono cresceu 44,2% no último ano. 

Para o delegado Rodolfo Rolli, titular do Núcleo de Atendimento à Pessoa Idosa da Policia Civil (PCMG), os casos que chegam à delegacia mostram três formas recorrentes de violência: patrimonial, negligência associada a maus-tratos e agressão física.

A negligência também pode se esconder sob a aparência de cuidado. Deixar uma pessoa idosa vulnerável, sozinha, isolada em um cômodo, sem higiene, alimentação adequada, medicação ou acesso à saúde não é apenas descuido quando há obrigação de cuidado. O Estatuto da Pessoa Idosa proíbe negligência, discriminação, violência, crueldade e opressão, além de considerar crime expor a perigo a integridade e a saúde da pessoa idosa.

Para Rolli, essa é uma das violências mais difíceis de enfrentar porque nem sempre é reconhecida pela própria família. Há casos em que o parente afirma estar cuidando porque mantém o idoso dentro de casa, mas, na prática, a vítima permanece abandonada no próprio lar, e o cuidado existe apenas no discurso.

Violência silenciosa e subnotificada 

Violência contra idosos em Juiz de Fora: filhos lideram denúncias, agressões diárias em 79,1% dos casos e abandono cresce 44,2%.
Violações de abandono contra idosos cresceram 44,2% em Juiz de Fora, mesmo com queda de 9,2% nas denúncias feitas ao Disque 100 (Foto Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

Entre as violências mais silenciosas está a patrimonial. De acordo com Rolli, ela ocorre quando alguém se apropria, retém, desvia ou controla bens, dinheiro, cartões, aposentadoria, pensão ou benefícios da pessoa idosa. Na rotina, pode aparecer quando um filho, neto, companheiro ou outro parente passa a administrar a renda sem transparência, usa o benefício para despesas próprias ou impede que a vítima tenha acesso ao próprio dinheiro.

Muitas vezes, segundo o delegado, o idoso não chega à delegacia dizendo que foi vítima de um crime financeiro. Chega porque perdeu autonomia. Já não sabe como a aposentadoria é usada, não decide sobre as próprias despesas ou depende da autorização de outra pessoa para necessidades básicas.

No entanto, os registros oficiais ainda estão longe de representar a dimensão real do problema, avalia Rolli. Muitos casos não chegam à polícia, não viram processo e permanecem restritos ao ambiente familiar. “Os casos são muito maiores do que aqueles que são registrados”, afirma.

A violência contra idosos, explica o delegado, tem características próprias. Nem sempre aparece como uma agressão direta ou em uma ocorrência de fácil investigação. Muitas vezes, está diluída na rotina, naturalizada por familiares e atravessada por vínculos de dependência emocional, financeira ou de cuidado. “É uma violência silenciosa”, resume.

Mesmo quando a vítima rompe o silêncio, nem sempre quer ver um filho, uma filha ou outro parente respondendo criminalmente. Na maioria das vezes, busca primeiro fazer a violência parar. Para Rolli, isso exige acolher a vítima, reconhecer o crime e, ao mesmo tempo, compreender a angústia de quem sofre dentro da própria família. “O idoso narra um crime e quer uma solução para o crime, mas nem sempre quer um processo”, afirma o delegado.

Quando há violência física, lesão ou risco concreto à integridade da vítima, a resposta policial costuma ser mais imediata. Nesses casos, a prioridade é interromper a agressão e garantir proteção. Ainda assim, o contexto familiar continua pesando. Muitas vítimas não chegam à delegacia buscando punição. Querem, antes de tudo, parar de sofrer.

Escuta, confiança e denúncia

O atendimento a pessoas idosas exige uma escuta diferente daquela aplicada em outras situações policiais, afirma Rolli. Em muitos casos, a vítima procura o núcleo para pedir orientação, proteção e acolhimento, não para formalizar uma representação criminal contra alguém da família.

Esse vínculo de confiança ajuda a explicar um dado que chama atenção: as denúncias feitas pelas próprias vítimas cresceram 59,1% em relação a 2025. Foram 44 registros entre janeiro e maio do ano passado, contra 70 no mesmo período de 2026.

Para o delegado, a circulação de informação entre os idosos também contribui para esse aumento. Quando uma vítima é acolhida e orientada, tende a compartilhar a experiência com outras pessoas. “Um idoso fala para o outro: eu fui bem atendido lá. Isso vai criando uma relação de confiança”, diz.

Por isso, Rolli defende que o enfrentamento à violência contra a pessoa idosa passe pela responsabilização quando necessária, mas também por escuta, paciência e vínculo. “Não é uma violência que se resolve com arma de fogo ou com uma carteira de polícia no bolso”, afirma. “É uma violência que se tenta enfrentar com escuta, paciência e experiência.”

Rede municipal também recebe denúncias

Além dos canais nacionais e policiais, Juiz de Fora conta com a Ouvidoria Especial de Proteção à Pessoa Idosa, criada por lei em outubro de 2023 e lançada em maio de 2025. Segundo a Prefeitura, o órgão recebe denúncia, faz a tratativa administrativa e encaminha os casos aos setores competentes, como a Secretaria de Assistência Social (SAS), a Ouvidoria da Saúde, o Procon, o Núcleo de Atendimento à Pessoa Idosa (NAI) da Polícia Civil e o Ministério Público, quando cabível.

A ouvidora especial Maria Cristina Alves Pereira explica que o órgão não investiga nem substitui os serviços de atendimento inicial. Casos de abandono, negligência, violência e abuso financeiro são direcionados principalmente à SAS, para avaliação pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas). A Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), à qual a Ouvidoria é vinculada, também desenvolve ações de prevenção e valorização da pessoa idosa, como os projetos Memória Viva e Arteterapia Intergeracional.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Juiz de Fora destaca que também atua na pauta por meio de eventos e debates sobre os desafios do envelhecimento. A entidade informa, ainda, que oferece ações de orientação jurídica gratuita em áreas como direito do consumidor, família e previdenciário, além de manter iniciativas de valorização da advocacia idosa, com inclusão digital e participação de advogados e advogadas da terceira idade. 

Juiz de Fora envelhece

Violência contra idosos em Juiz de Fora: filhos lideram denúncias, agressões diárias em 79,1% dos casos e abandono cresce 44,2%.
População idosa de Juiz de Fora cresceu 56,1% em 12 anos e já representa 20,2% dos moradores do município, segundo o Censo 2022 (Foto: Leonardo Costa)

A violência contra idosos avança em uma cidade que envelhece rapidamente. Segundo o Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Juiz de Fora tinha 109.366 moradores com 60 anos ou mais, o equivalente a 20,2% da população. Em 2010, esse grupo somava 70.065 pessoas, ou 13,6% dos moradores. Em 12 anos, a população idosa cresceu 56,1%, enquanto a população geral avançou 4,7%.

O índice de envelhecimento do município chegou a 127,36 em 2022. Isso significa que Juiz de Fora tem 127 idosos para cada 100 crianças de até 14 anos. Na prática, a população jovem já é minoria.

Para o gerontólogo José Anísio “Pitico” da Silva, esse cenário exige mudanças no planejamento urbano, na gestão pública e na forma como a sociedade se organiza. Executivo, Legislativo, Judiciário e população precisam compreender que o envelhecimento deixou de ser uma questão individual e passou a ser um desafio coletivo. “Uma cidade que não investe nas suas pessoas idosas não tem futuro, muito menos memória, é uma cidade amorfa, uma cidade que não tem alma, é uma cidade que, mecanicamente, está sobrevivendo.”

Pitico avalia que Juiz de Fora precisa se preparar para ser uma cidade amiga da pessoa idosa, com espaços de escuta, convivência, participação, prevenção e cuidado. A longevidade, segundo ele, já foi conquistada. O desafio agora é garantir qualidade de vida para quem envelhece.

Envelhecer com dignidade

Na avaliação do gerontólogo, o descaso com a pessoa idosa é histórico. Embora o envelhecimento da população seja uma das grandes transformações sociais em curso, as respostas do poder público ainda são insuficientes, especialmente diante da velocidade com que a população envelhece.

Essa ausência aparece na falta de políticas contínuas de prevenção, saúde, assistência social, moradia, segurança, cultura e lazer. Sem uma rede adequada, envelhecer pode significar ficar mais vulnerável à negligência, ao isolamento e a outras formas de violência.

Pitico também aponta que a pessoa idosa ainda é vista, muitas vezes, como peso, gasto ou fardo por uma sociedade marcada pela lógica da produtividade. Nesse contexto, quem já não é considerado produtivo tende a ser colocado à margem, apesar de toda a contribuição dada ao longo da vida.

Essa percepção, segundo ele, abre caminho para uma cultura etarista, que desvaloriza e invisibiliza o envelhecimento. A violência contra a pessoa idosa, portanto, não começa apenas na agressão física, no abandono ou na apropriação da aposentadoria. Ela também nasce na forma como a sociedade aprende a tratar o envelhecimento como problema.

Para Pitico, planejar a cidade para a pessoa idosa é também planejar uma cidade mais justa para todos. Isso exige reconhecer que não existe uma única forma de envelhecer. Há diferenças de gênero, renda, raça, território e condição de vida. Envelhecer na zona rural não é o mesmo que envelhecer em áreas centrais. Envelhecer em bairros com infraestrutura não é o mesmo que envelhecer em territórios empobrecidos e com pouco acesso a serviços.

O envelhecimento, defende ele, precisa deixar de ser tratado como demanda secundária e passar a ocupar lugar central nas decisões públicas. “A gente precisa construir uma nova forma de envelhecer. Se estamos vivendo mais, precisamos viver mais e melhor, com atenção, amor, dignidade, direito a ser feliz e a viver com plenitude.”

Como denunciar violência contra idosos em Juiz de Fora

Confira os canais para denunciar casos de violência e maus tratos contra idosos:

Disque 100
Canal nacional gratuito para denúncias de violações de direitos humanos. Funciona 24 horas por dia, todos os dias, inclusive fins de semana e feriados. A denúncia pode ser feita pela própria vítima ou por qualquer pessoa que tenha conhecimento da situação. Após o registro, o caso é analisado e encaminhado aos órgãos competentes.

Ouvidoria Especial de Proteção à Pessoa Idosa de Juiz de Fora
Recebe manifestações, denúncias e sugestões relacionados à pessoa idosa. Os registros podem ser feitos pelo sistema e-Ouve, por e-mail ([email protected]) ou presencialmente na Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), no prédio-sede da Prefeitura de Juiz de Fora, na Avenida Brasil 2001, 10º andar, Centro.

Núcleo de Atendimento à Pessoa Idosa da Polícia Civil
Atende casos que envolvem suspeita de crime contra pessoas idosas. Em Juiz de Fora, funciona no Santa Cruz Shopping, 3º piso, no Centro. Telefone: (32) 3250-2827.

*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli