Em cada dez lares de JF, quatro têm carros

Itamar Franco é um dos principais corredores do município
O número de famílias que têm automóvel para uso particular em Juiz de Fora aumentou quase 50% em dez anos. Isso quer dizer que, enquanto 49.250 domicílios tinham pelo menos um carro no ano 2000, em 2010, o quantitativo saltou para 73.582. Como a cidade tem cerca de 170 mil residências, isso significa que, em cada dez casas, quatro têm automóvel. Os dados foram obtidos a partir da comparação dos resultados da amostra dos últimos dois censos demográficos do IBGE e representam uma das razões para o acréscimo de veículos nas ruas. Se for levado em conta o total de carros pessoais e a quantidade de veículos usada para prestação de serviços, os números tornam-se mais preocupantes. Segundo levantamento atualizado este ano pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), o município tem frota de 194.368 veículos, sendo mais de 130 mil carros.
Com quase metade das casas contando com automóvel, o que mudou também em dez anos foi o perfil do juiz-forano. A população não só tem mais carros, como usa mais os particulares. Sem opção de transporte público de qualidade e baixo custo que atenda a toda a cidade, e com a necessidade de embarcar em mais de um ônibus para cruzar algumas regiões, as famílias das classes média e alta também têm optado por ter mais de um carro. O resultado são as retenções frequentes, a falta de vagas de estacionamento e o aumento da busca por garagens. Problemas de difícil solução, conforme especialistas.
Segundo o subsecretário de Mobilidade Urbana da Settra, Carlos Eduardo Meurer, por ser uma cidade que polariza serviços na região, Juiz de Fora ainda recebe cerca de 50 mil veículos de outros municípios por dia. "O crescimento do sistema viário é mais lento do que o da frota. A realidade é que a cidade não se preparou para esse aumento tanto em relação às vias públicas quanto nos estabelecimentos privados. Um exemplo são os edifícios que não possuem garagem."
Meurer acredita que, para reverter o quadro atual, evitar a piora do trânsito e melhorar a qualidade de vida da população, é preciso uma série de investimentos em mobilidade urbana. "Mas os municípios não conseguem mudar as coisas sozinhos, é preciso incentivo dos governos estadual e federal."
Política incorreta
No entanto, com a atual política que estimula a compra de automóveis, o professor do Departamento de Transportes da UFJF José Alberto Castañon acha difícil haver mudança de postura por parte da população. "A cultura do automóvel pode ser revertida, mas é preciso haver opção, que seria oferecer transporte público eficiente e de qualidade, passeios largos e seguros, além de ciclovias que liguem algumas regiões da cidade. Mas a política atual de financiamento de veículos vai contra o ideal de mobilidade urbana."
Meurer concorda, mas destaca que a iniciativa do Governo federal ao sancionar a lei de mobilidade urbana foi positiva. A nova lei, que entrou em vigor este ano, exige que os municípios com população acima de 20 mil habitantes elaborem planos de mobilidade urbana. As cidades têm prazo de três anos para concluí-los.
Os especialistas são unânimes em afirmar que o transporte coletivo e os modais não motorizados devem ser priorizados. No entanto, Meurer justifica que uma das dificuldades encontradas está na implementação do transporte troncalizado. "Com o projeto parado há anos no Tribunal de Contas do Estado (TCE), não podemos fazer os estudos necessários e modificar o sistema atual, que está ultrapassado."
Mas Castañon pondera que outras iniciativas já poderiam ter sido desenvolvidas enquanto isso não ocorre. "A cidade não tem nenhuma ciclovia que permita o deslocamento urbano com segurança." Meurer destaca que há projeto para implantação na Zona Norte, cuja licitação deve ser iniciada após o período eleitoral, e há possibilidade de estudo de viabilidade para que o mesmo ocorra na Cidade Alta.
Famílias com mais de um carro na garagem
Na casa da professora de educação física Juliana Miranda, 28 anos, vivem cinco pessoas, e existem três carros. "Minha mãe só não tem porque não dirige", adianta. Segundo ela, há mais de cinco anos a família conta com os três veículos. "Antes eram dois, e eu dividia o carro com meu irmão. Mas ficou difícil compartilhar e combinar os horários. Era uma confusão. Hoje em dia, cada um tendo o seu, é bem mais fácil." Segundo Juliana, a facilidade de comprar automóveis atualmente foi um dos fatores decisivos para a opção da família.
Na residência do farmacêutico e bioquímico Ronald Cataldi, 55, também existem três carros, mas para quatro pessoas. Apenas uma filha, que não possui habilitação, não tem automóvel. "Sabemos que o ideal seria ter menos veículos, sairmos e voltarmos juntos. Se todos fizessem isso, representaria redução do número de carros nas ruas e de despesa. No entanto, com todo mundo trabalhando, os filhos estudando em locais diferentes e distantes, fica difícil. Quando saio de casa à tarde para resolver alguma coisa no Centro, vou a pé, mas para trabalhar não dá. De onde moro até o trabalho, precisaria de dois ônibus, o que complica. A verdade é que não temos tanto tempo, e o carro acaba oferecendo mais conforto."
Como a cidade não está preparada para receber um incremento tão grande de veículos, a população acaba tendo que mudar hábitos e se planejar melhor para evitar as retenções diárias. "A gente procura sair mais cedo de casa e usar as vias alternativas, porque é nítido que hoje gastamos mais tempo no deslocamento do que há alguns anos. E o que vemos é muita gente sozinha dentro dos carros", reforça Ronald. De acordo com o professor do Departamento de Transportes da UFJF José Alberto Castañon, isso ocorre porque Juiz de Fora não oferece muitas alternativas de mobilidade.
"Não temos engarrafamentos como nos grandes centros, e sim retenções. O problema é que essas retenções já ocorrem em diversos pontos, e isso é algo que não estávamos acostumados", explica Castañon. Como o número de veículos só aumenta, em breve, o especialista acredita que "será preciso tomar providências drásticas, porque o problema não será resolvido com viadutos e trincheiras".
Rotas mais saturadas
Se há aproximadamente dez anos algumas vias serviam como alternativas, atualmente as rotas de fuga dos principais corredores de trânsito estão saturadas. As ruas Vicente Beghelli e Monsenhor Gustavo Freire, usadas como ligação entre os bairros São Mateus e Dom Bosco e a UFJF, para que os condutores escapem da Avenida Itamar Franco, já sofrem retenções em horários de pico.
As ruas Fernando Lobo e Redentor, utilizadas como opção para ligar a Rio Branco à Olegário, também funcionam acima do limite nos momentos de rush. Apesar de estreita e íngreme, a Rua Vitor Spagnollo, que permite o acesso da Dom Silvério, no Alto dos Passos, ao Estrela Sul, recebe cada vez mais veículos.
Inaugurada em 2008 para desafogar o tráfego na avenida Itamar Franco, a Conexão Sul, que liga os bairros Bom Pastor e Granbery ao Poço Rico, também tem momentos de saturação e, apesar das melhorias que representa, não provocou tanto impacto. As avenidas citadas, assim como a Francisco Bernardino e a Getúlio Vargas, que já tinham fluxo intenso, agora têm quantidade ainda maior de carros.







