Acesso Norte em situação precária

Trecho de nove quilômetros que liga Bairro Industrial à região de Benfica tem sinalização vertical deficitária (FERNANDO PRIAMO/13-04-15)
Criado para ser uma alternativa à sobrecarregada Avenida JK, o Acesso Norte tem hoje trechos subutilizados e mal sinalizados, enquanto há outros com fluxo intenso de caminhões. A situação precária do trajeto, que envolve ainda as más condições do asfalto, desestimula o uso por muitos condutores, que acabam preferindo a JK, avenida campeã de mortes no trânsito do município nos anos de 2013 e 2014, com nove casos.
A Tribuna esteve no local na semana passada e constatou problemas a partir da denúncia de moradores. Além da falta de placas de orientação de destino aos motoristas, são verificados pontos críticos nos quais se registram acidentes, carros e caminhões em alta velocidade, manobras proibidas e espaços subaproveitados que poderiam ser destinados à prática de lazer e esportes. Apesar de ter sido idealizado para promover a ligação com o Centro e uma alternativa para quem entrasse em Juiz de Fora pela BR-040, hoje o trecho de nove quilômetros, que margeia o Rio Paraibuna, desde o Bairro Industrial até a região de Benfica, é considerado pela Settra uma via local, de ligação entre bairros.
Apesar de intervenções em relação à sinalização de velocidade, a via ainda é deficitária na identificação de bairros e placas de orientação de destino aos motoristas. De acordo com o presidente da Associação dos Moradores do Bairro Barbosa Lage, Joaquim Fonseca Filho, a implantação de placas com os nomes de bairros seria um facilitador. “Hoje os motoristas param e ficam perguntando as pessoas na rua. A sinalização é importante porque alguns nem sabem onde estão”, questiona. Para os condutores que se direcionam no sentido Barreira do Triunfo-Centro, por exemplo, na rotatória de acesso ao Bairro Araújo, não há placa que indique a direção dos bairros ou o Centro.

No trecho do Bairro Araújo, condutores não encontram indicações da direção para onde seguir (FERNANDO PRIAMO/13-04-15)
Regras do Contran
O subsecretário operacional de Transporte e Trânsito, Eduardo Fácio, explica que a sinalização da via respeita as regras do Conselho Nacional de Trânsito (Contran). “Projetamos a sinalização de acordo com o que o Contran manda fazer. Não é necessário indicar a todo o tempo se a sinalização já é feita no início da via. Se existe a sensação de falta de sinalização de algum lugar, a demanda não chegou até a secretaria. É uma espécie de via local, não é a principal para os motoristas que vêm de fora. O acesso ao Centro deve ser feito pela JK. A gente nunca vai desviar o condutor para o Acesso Norte, portanto não é o caso de condutores apavorados”, reforça.
No entanto, quando a construção foi iniciada no fim da década de 1980, na gestão do ex-prefeito Tarcísio Delgado (então, no PMDB), a ideia era promover o acesso da Zona Norte ao Centro. “Ele poderia ser usado para desafogar a JK. Não tinha outro acesso”, lembra o ex-chefe do Executivo, ressaltando que moradores de vários bairros, principalmente Benfica, solicitavam um traçado que reduzisse o tráfego da JK.
Para o mestre em engenharia de transportes José Luiz Britto Bastos, uma via como o Acesso Norte merece maior atenção do Poder Público. “Quando se propõe fazer uma nova via, ainda que seja subutilizada, como está, há investimento de dinheiro público, e ela deve ser devidamente sinalizada. Se nas placas instaladas em local anterior à via, chama-se a atenção para que os motoristas usem a JK, para que foi feita aquela via? O Acesso Norte seria uma boa válvula de escape, incluindo sinalização adequada. Todos os motoristas que passarem por ali, sendo de Juiz de Fora ou não, têm que ser informados de que ela existe”, sugere.
Pontos críticos ao longo da via
Um ponto crítico denunciado pelos moradores é o cruzamento do Acesso Norte com a Rua Honório de Brito, no Bairro Barbosa Lage. O motorista que segue no sentido Centro-Benfica e deseja acessar a ponte que leva à Estrada Ribeirão das Rosas precisa fazer o retorno pela Rua Senhorinha Pires. Mas é comum observar a disputa de espaço por motoristas parados à direita da via, causando retenções para entrar na ponte estreita. “Aqui costuma dar essa confusão. Quando o pessoal vai para o Clube da ASE e para as granjas nos finais de semana, vira um tumulto. Há menos de um ano, perdi um colega que tentou atravessar e foi atropelado por carro que chegou a pegar fogo”, afirma o dono de um bar nas proximidades Benjamin Marques Neto, 50. Perto dali, a travessia de crianças para uma creche da Rua Geraldo Emídio de Souza preocupa os moradores. “Se o carro perde o controle, vai direto no prédio da creche. Precisa de um redutor de velocidade”, afirma o pedreiro Fábio da Silva Gomes, 45.
Em outubro do ano passado, a Settra chegou a realizar um estreitamento de pista e reforçar a sinalização vertical próximo ao cruzamento do Barbosa Lage, faltando ainda a instalação de tachões que proíbam aos motoristas invadir a sinalização. Segundo o subsecretário operacional de Transporte e Trânsito, Eduardo Fácio, a medida inibe o abuso da velocidade. “Por se tratar de uma via arterial, somos proibidos pelo Contran de instalar quebra-molas. Na falta de um radar, adotamos como alternativa o estreitamento da pista, que funciona muito bem quando há curvas. Não recebemos nenhuma ocorrência de acidente naquela região depois da redução do espaço da pista”, garante. Embora reconheça o efeito da nova medida, Joaquim Fonseca afirma que é preciso mais. “A situação melhorou, mas ainda não é o suficiente. Os motoristas continuam correndo. Essa sinalização foi pedida em 2009, só no fim do ano passado foi atendido. Não é só a faixa, um semáforo seria mais importante, já que, em certos horários, não é possível atravessar”, reforça o presidente da Associação de Moradores. Fácio afirma que é preciso analisar qual o melhor equipamento a ser aplicado para cada caso.
Apesar das reclamações da comunidade, dados da Polícia Militar apontam que, de janeiro a março de 2014, aconteceram 17 acidentes no acesso, enquanto, em igual período deste ano, os registros caíram para 11.
Asfalto apresenta rachaduras e remendos
Outra dificuldade constatada pela reportagem é em relação ao asfalto do Acesso Norte, que apresenta rachaduras e remendos ao longo de todo o trecho, além do desgaste na sinalização horizontal. A chefe do Departamento de Engenharia de Tráfego, Silvânia Oliveira, afirma que “a pintura da via pode durar de seis meses a um ano, dependendo do desgaste. Se tiver trânsito de veículos pesados, pode ocorrer um desgaste mais rápido. A avaliação é feita de forma constante”, diz. Já a Secretaria de Obras afirma que a PJF busca recursos para renovar o asfalto. No entanto, devido aos altos custos, é necessária a captação externa para a realização das obras.
Para os pedestres, a situação também não é ideal. Do trecho que compreende o Bairro Parque das Torres até o fim do Acesso Norte, próximo a Benfica, as margens laterais são caracterizadas por trilhas em meio ao mato. O mestre em engenharia de transportes José Luiz Britto sugere o melhor aproveitamento do espaço para a destinação à prática de esportes. “A via já possui a abertura necessária para se fazer calçadas, que podem ser aproveitadas para caminhadas e corridas.” De acordo com a Secretaria de Planejamento e Gestão, não existe projeto para captação de recursos para este fim.









