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Estiagem leva mananciais a nível crítico na cidade


Por NATHÁLIA CARVALHO E RENATA BRUM

14/10/2014 às 06h00- Atualizada 14/10/2014 às 10h04

Represa João Penido está irreconhecível em trecho na altura do Náutico

Represa João Penido está irreconhecível em trecho na altura do Náutico

Em trechos do Rio Paraibuna há mais pedras e terra do que água corrente

Em trechos do Rio Paraibuna há mais pedras e terra do que água corrente

A situação do abastecimento de água em Juiz de Fora chega a um ponto crítico com a estiagem prolongada e o forte calor dos últimos dias. Ontem a cidade registrou a maior temperatura do ano: 34,4 graus, e a umidade relativa do ar atingiu estado de alerta, com 19%. O baixo nível das represas de São Pedro, na Cidade Alta, e João Penido, na Zona Norte, está preocupante, e o rompimento de uma das células do reservatório no Santa Terezinha, região Nordeste, na última sexta-feira, colaborou para agravar o quadro, já que a rede abastece quase todas as regiões da cidade. Sem previsão real de chuva pelo menos até o dia 20 deste mês e com possibilidade de aumento do calor, a Cesama conta com a colaboração da população para evitar um possível racionamento. A expectativa está no início da operação de Chapéu D’Uvas, que permanece em estado de testes. A previsão era de que a água da barragem chegasse, de fato, à casa dos juiz-foranos ontem, mas o prazo foi transferido para amanhã.

A Cesama não possui dados que apontem se a seca atual é a maior da história, contudo, o diretor de Desenvolvimento e Expansão da Cesama, Marcelo Mello do Amaral, garante nunca ter visto um período de estiagem e de prejuízos aos mananciais tão grande. “À medida que esse período de seca se prolonga, a situação vai ficando cada vez pior. É mais um dia de alto consumo e de menos recuperação de água. Embora a situação imediata esteja contornada, é sempre uma questão crítica e preocupante porque precisamos pensar no futuro e na recuperação desses mananciais. Historicamente, o período chuvoso em Juiz de Fora começa na terceira semana de setembro. Estamos no meio de outubro, e nada até agora.”

Marcelo também diz que, desde sexta, quando houve o rompimento da rede em Santa Terezinha, o abastecimento está operando com uma dificuldade muito maior, e estão sendo realizadas manobras para contornar. “Estamos remanejando reservatórios e realizando operações que dão mais trabalho. O booster (construído ao lado do Parque de Exposições e inaugurado em maio) é um elemento que está nos dando uma ajuda muito grande, porque ele consegue agilizar a entrega da produção de água para a distribuição do sistema.”

João Penido nunca foi vista tão vazia

Segundo a Cesama, a Represa de João Penido está com sua capacidade de abastecimento cada vez mais reduzida, chegando agora ao patamar dos 28%. Ontem, a Tribuna esteve no local e constatou o estado crítico do manancial. Em grande parte, onde anteriormente existia uma grande lagoa, não há sequer poças de água. A seca revelou troncos antes submersos e provocou rachaduras no solo, consequências da falta de umidade. Para quem está acostumado a utilizar a João Penido como área de lazer, vê-la neste estado é algo que choca. “Eu sempre trabalhei e morei na região e nunca vi nada parecido. Meu irmão lembra de uma seca que atingiu a cidade há 45 anos, situação que deixou a João Penido bastante prejudicada”, relembra o caseiro do Clube Náutico, que fica ao lado da represa, Reinaldo Ferreira.

De acordo com o diretor de Desenvolvimento e Expansão da Cesama, Marcelo Mello do Amaral, caso não chova, a tendência é de que este índice continue caindo. “Embora a represa esteja com o nível de água muito baixo, estamos monitorando a queda e contamos com a inauguração de Chapéu D’Uvas para preservá-la.” Sobre esta barragem, ele explica que ontem estavam sendo realizados testes de pressão e que amanhã ela começaria a atuar definitivamente. Contudo, Marcelo ressalta que, independente deste novo fôlego, o grande problema está na estiagem. “Por isso vale lembrar do uso racional da água. Se todos consumirem muito ao mesmo tempo, não há sistema que aguente.”

Já a Represa de São Pedro está com o nível de abastecimento abaixo de 1%. A quantidade prejudica a parte alta da cidade, que já sofreu com o desabastecimento no final de setembro. Relatos de moradores dão conta que entre o fim de semana e ontem, houve novos registros de falta d’água. Na região, a companhia continua atuando com apoio de caminhões-pipa.

 

Rio Paraibuna

Outro cenário que chama atenção é o nível do Rio Paraibuna. Segundo Marcelo, se não existisse a barragem de Chapéu D’Uvas, utilizada para regular o nível de água, o rio já estaria seco. “Normalmente nesta época, as comportas de Chapéu D’Uvas já estariam fechadas para evitar a cheia do rio. O fato de os córregos que deságuam no Paraibuna estarem quase secos também contribui para a situação.”

Rompimento expõe precariedade das redes

O rompimento no reservatório Henrique de Novaes, no Bairro Santa Terezinha, na última sexta-feira, ainda levanta outra questão: a precariedade das redes do sistema subterrâneo do município. Segundo a Cesama, a tubulação da rede é da década de 1930. Com a força dos jatos, um barranco cedeu, e um muro próximo à Escola Estadual Sebastião Patrus de Souza chegou a cair. Segundo a Cesama, um consultor de Belo Horizonte, especialista em recuperação de estruturas, esteve na cidade para realizar a sondagem da estrutura física do reservatório e do terreno. Diretores da Cesama também foram in loco verificar os danos, porém, segundo a companhia, não há data para a recuperação definitiva da célula danificada.

Os rompimentos de tubulação são recorrentes em Juiz de Fora. Em dezembro passado, uma rede que faz a distribuição de água entre a Estação de Tratamento Walfrido Machado Mendonça (ETA CDI) e o Centro estourou da mesma forma, sob o Córrego dos Alfineiros, próximo ao Nova Era, comprometendo o abastecimento de toda Zona Norte.

Em 2010, o rompimento da tubulação antiga de uma adutora que passa sob a Avenida Rio Branco, na altura do Mariano Procópio, parou o tráfego na área central da cidade. A água também jorrou na pista sentido Manoel Honório/Centro, comprometendo a circulação e afetando o abastecimento em boa parte da cidade.

Dia mais quente do ano

Juiz de Fora registrou ontem a maior temperatura do ano: 34,4 graus. O forte calor e a falta de chuvas deixaram a cidade em situação de alerta para a baixa na umidade relativa do ar. Conforme o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o patamar chegou a 19%, quando a média da cidade gira em torno de 80%. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), índices inferiores a 20% representam risco para a saúde humana.

Neste patamar, há uma piora na qualidade do ar, o que leva à intensificação de doenças respiratórias e maior ocorrência de incêndios. O Inmet recomenda evitar exercícios físicos ao ar livre, umidificar o ambiente por meio de vaporizadores e toalhas molhadas, consumir bastante líquido e, sempre que possível, permanecer em locais protegidos do sol e em áreas com vegetação.

A onda de calor continua, e a previsão para hoje é de que a temperatura chegue a 35 graus. A mínima deve ficar em torno dos 20 graus. De acordo com o meteorologista do 5º Distrito do Inmet, Claudemir de Azevedo, o tempo deve permanecer assim ao longo de toda a semana. “A temperatura tende a sofrer uma pequena baixa somente amanhã, quando há possibilidade reduzida de chuva. Mas a tendência é de calor forte, principalmente a partir de sexta-feira. Possibilidade real de pluviosidade na cidade existe só a partir do dia 20”, explica.

Focos de incêndio

O tempo seco dos últimos dias também tem dado trabalho ao Corpo de Bombeiros. Somente entre sábado e domingo, 33 focos de incêndio foram registrados na cidade, além de ocorrências em municípios próximos, como Matias Barbosa, Lima Duarte, Monte Verde e Ewbank da Câmara, sobrecarregando as equipes de combate que trabalharam elencando prioridades. Bairros como São Geraldo, Graminha e granjas próximas ao Alphaville e Expominas foram afetadas. Áreas de preservação também foram atingidas, como a reserva do Poço d’Anta e até uma casa, no Bairro Jardim Cachoeira, próximo ao Monte Castelo, na Zona Norte, que chegou a ficar destruída parcialmente por causa do fogo.

Segundo a assessoria do Corpo de Bombeiros, o dono do imóvel ateou fogo em um amontoado de folhas secas, mas as chamas fugiram ao controle e atingiram a varanda, o galinheiro e árvores no quintal da casa, além de um depósito de material reciclado. Duas viaturas, cinco militares e cerca de sete mil litros de água foram gastos somente nesta ocorrência.