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Desperdício de alimentos de 22 mil toneladas/ano

Enquanto cerca de 45 mil pessoas passam fome – em maior ou menor grau – em Juiz de Fora, segundo o Conselho Municipal de Segurança Alimentar (Comsea), quase 22 mil toneladas de alimentos são desperdiçadas por ano na cidade e região, considerando apenas o volume comercializado na unidade local da Central de Abastecimento de Minas […]

Por Mariana Nicodemus

14/08/2011 às 07h00

Enquanto cerca de 45 mil pessoas passam fome – em maior ou menor grau – em Juiz de Fora, segundo o Conselho Municipal de Segurança Alimentar (Comsea), quase 22 mil toneladas de alimentos são desperdiçadas por ano na cidade e região, considerando apenas o volume comercializado na unidade local da Central de Abastecimento de Minas Gerais (CeasaMinas). De acordo com estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU), uma média de 30% do que é produzido no mundo se perde no caminho até a casa do consumidor. Pesquisa realizada pela CeasaMinas com três variedades de produtos hortícolas reforça os altos índices de perda ao longo da cadeia produtiva: no caso da banana nanica cultivada no norte do Estado, por exemplo, 39% da safra acabam no lixo. 

O vai e vem de carrinhos abarrotados com diferentes tipos de caixas empilhadas na Ceasa-JF denuncia a falta de cuidado com o manuseio e transporte de alimentos. Embora o percentual de perda no atacado seja mínimo, já que nada é retirado das embalagens no local, é possível observar que grande parte do que circula nos galpões não chegará em condições de venda aos mercados e quitandas, tendo como destino, muitas vezes, o lixo. Caixotes de madeira de diversos tamanhos, nos quais frutas e legumes são comprimidos e amassados, são colocados uns sobres os outros de forma aleatória. Cenas como uma caixa com 20kg de abacaxi repousada sobre uma de mamão – fruta mais sensível que será machucada por tanto peso – são comuns. "As perdas maiores acontecem nas pontas, isto é, na lavoura e na casa do consumidor. A Ceasa é só um local de passagem, mas, quando esse produto chegar no varejo, já poderá ser observado o tamanho da perda", explica o engenheiro agrônomo e chefe do Departamento de Operações da CeasaMinas, Gustavo de Almeida.

Comerciante de produtos hortícolas há 23 anos, Carlyle Lopes Barros conhece bem os prejuízos decorrentes do manuseio inadequado de gêneros alimentícios. Dos 250kg de legumes e verduras comercializados diariamente em sua loja no Mercado Municipal, cerca de 15kg não servem para a venda. "De uma caixa com 20kg de tomate, 4kg eu perco. Os produtos que ficam na parte de cima e no fundo chegam muito machucados, devido ao peso de uma caixa sobre a outra, que vai amassando tudo", conta. A solução é doar o que é dispensado pelos clientes a três instituições de caridade da cidade. Dono de uma quitanda na Avenida Getúlio Vargas, Carlos Augusto Frizeiro também destina, semanalmente, cerca de 150kg de alimentos sem valor comercial à Sociedade Beneficente Sopa dos Pobres. "Doamos o que tem utilidade e valor nutricional, mas que o cliente não pega na banca. Não tem porque jogar fora se ainda pode ser aproveitado." Os alimentos que deixam de ir para o lixo contribuem para a alimentação de cerca de 180 assistidos todos os dias pela Sopa dos Pobres.

 

Pré-seleção 

Ainda assim, o aproveitamento não é total. Segundo a nutricionista da entidade, Adriana Domingues, os alimentos recebidos passam por uma pré-seleção. O que estiver rachado ou cortado é descartado. "Quando tem possibilidade de contaminação, vai para a lavagem, e alguém leva para alimentar animais. O que pode ser consumido, é higienizado e aproveitado para a sopa ou doado para que os assistidos levem para casa. Mesmo o alimento machucado, com aparência desgastada, mantém as propriedades nutricionais", afirma.

 

Perdas começam na lavoura

 No campo, o destino dos alimentos que não podem ser aproveitados comercialmente nem sempre é a doação. A maior parte do que não chega a ser levado para as feiras acaba virando comida para porcos. Pesquisa da CeasaMinas aponta que o desperdício na lavoura ultrapassa os 10%, no caso da banana prata, por exemplo, e 7,5% para o tipo nanica. Produtor das duas diversidades da fruta, José de Paiva Guedes, de Piau, a 45 quilômetros de Juiz de Fora, estima que 300kg da banana por ele produzida mensalmente – 10% do total – ficam na lavoura. "Não perco muita coisa porque tenho cuidado no corte, no armazenamento e no transporte. Se não tiver essa atenção, perde tudo." Ainda assim, frutas mais miúdas e machucadas vão para o lixo ou engrossam a lavagem. "Tento aproveitar ao máximo para alguma criação, mas pouco vale."

 Também de Piau, o produtor Domingos de Souza vê, a cada safra, seis toneladas de banana nanica desperdiçadas em suas terras. A quantidade, que representa 5% da produção total, às vezes contribui para a merenda de escolas públicas da cidade de 2.800 habitantes, mas, na maioria das vezes, é descartada. "Não tenho o que fazer com essa banana. O que dá para aproveitar, vai para a lavagem." Para o engenheiro agrônomo da CeasaMinas, Gustavo de Almeida, a solução para reduzir a perda seria a instalação de agroindústrias na zona de produção, capaz de transformar produtos sem valor mercadológico em doces, geleias, farinha e outros produtos derivados da fruta. "Em Nova União, onde a perda na produção de banana nanica é de 8%, a agroindústria transformou um prejuízo de R$ 45 milhões em um faturamento de R$ 15 milhões", exemplifica.

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Armazenamento adequado em casa evita estrago

 Na outra ponta da cadeia de produção, o desperdício é ainda maior e, na maioria das vezes, decorrente do excesso na hora da compra e do armazenamento inadequado. É na casa do consumidor que a perda de banana nanica, por exemplo, chega a 23%, conforme pesquisado pela CeasaMinas, em Nova União, Norte do Estado. Por ser um produto de amadurecimento mais rápido, a fruta, se comprada em excesso ou armazenada inadequadamente, estraga e vai para o lixo. Da mesma forma, outros produtos, quando comprados, manuseados e guardados de forma errada, também se perdem antes de serem consumidos. E, neste caso, a doação é ineficaz.

 O planejamento para evitar o desperdício feito na casa da psicóloga Cilene Bellei é um exemplo raro a ser seguido. "Divido as idas ao mercado e compro um pouco de cada vez", conta. O engenheiro agrônomo Gustavo de Almeida aprova e recomenda a dica. "O ideal é saber o dia em que os produtos chegam ao varejo, porque aí você vai levar para casa um alimento mais fresco e que vai durar mais." Respeitar as condições de armazenamento necessária a cada tipo de produto também ajuda a reduzir as perdas (ver quadro). "Não desperdiço nada. É muito raro ter que jogar algo fora. Quando vejo que vai estragar, faço bolo, gelatina, pudim", completa Cilene.

 Para a secretária do Conselho Municipal de Segurança Alimentar (Consea), Bettina Koyro, a dificuldade, neste caso, é estabelecer política pública que impeça que quantidade significativa de alimentos que poderiam contribuir para amenizar a fome da população em situação de insegurança alimentar acabe no lixo. "As pessoas jogam fora ‘restos’ que poderiam ser aproveitados. Deveríamos ter campanhas que propusessem menos gastos com alimentos em excesso", sugere.

  

Transporte em caixotes de madeira é o vilão

 Segundo o engenheiro agrônomo e chefe do Departamento de Operações da CeasaMinas, Gustavo de Almeida, as principais causas de desperdício de alimentos ao longo da cadeia produtiva são as técnicas inadequadas de colheita, armazenamento e refrigeração impróprios ou inexistentes, comercialização indevida – com exposição excessiva e manuseio incorreto -, e, especialmente, a inadequação das caixas nas quais os alimentos são transportados. Normas do Ministério da Agricultura, Anvisa e Inmetro, que regulamentam a embalagem de produtos hortícolas, preveem a reutilização apenas de caixas de plástico higienizadas. Caixotes de madeira e papelão deveriam ser descartáveis, porém, são reaproveitados diversas vezes, além de maioria nos galpões da Ceasa. 

"As embalagens de madeira são ásperas, não são padronizadas e não podem ser empilhadas adequadamente, sem que comprimam o alimento que está na de baixo. O produto ali colocado é batido a todo momento, então não chega ao consumidor com a qualidade que foi colhido, o que provoca o desperdício em casa", explica. Para amenizar o problema, um banco comum de caixas de plástico deve ser implantado nas unidades de Juiz de Fora e Barbacena em 2012. A medida foi adotada há um ano em Caratinga e Valadares – por onde circulam 70 mil caixas por dia – e começa a funcionar em Belo Horizonte no próximo dia 2.

 

‘Forma sustentável’ 

"A perda de 30% não é só do produto, mas também desperdício de custos de produção, que incluem terras, água, emissão de gás carbônico. A perda é inevitável, mas, se fosse reduzida para 10%, teríamos esses 20% restantes disponíveis para o consumo. Somos sete bilhões de pessoas no mundo, e a expectativa é que, até 2050, sejamos nove bilhões. A produção de alimentos precisará crescer. A redução das perdas é uma forma de aumentar disponibilidade de alimentos de forma sustentável, sem usar recursos naturais e criar mais resíduos, já que o chorume emite gases poluentes e contamina a água", comenta Gustavo, acrescentando que a capacitação de todos os envolvidos na cadeia, do produtor ao consumidor, também é essencial para a redução de desperdícios e está nos planos da CeasaMinas.

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