Erudito som da periferia
Por 15 dias, o cenário da cidade se transforma. Aos ruídos de buzinas e pedestres, misturam-se novos sons, porém harmoniosos e mais vibrantes. Ruas, praças, igrejas e teatros passam a ser ocupados por representantes nacionais e internacionais da música erudita. Um gênero, que estava restrito às salas de concerto, ganha status de protagonista durante o 24º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, realizado de hoje até 28 de julho com apresentações gratuitas. Os acordes de inauguração da temporada são da Orquestra Sinfônica Heliópolis. Os 86 jovens instrumentistas apresentam-se neste domingo, às 20h30, no Cine-Theatro Central, com repertório dedicado aos 200 anos de nascimento de Richard Wagner e Giuseppe Verdi, além de obras de Antonín Dvorák. Os dois primeiros foram escolhidos por serem os principais representantes da música erudita, e também porque queríamos fazer uma homenagem a eles. Já o Dvorák é um dos mais executados, comenta o maestro Edilson Ventureli.
O espectador será recebido com Lohengrin: prelúdio, ato III, de Wagner, seguida de I 8, op.88, em sol maior e Allegro com brio, de Giuseppe Verdi. O encerramento será feito com a execução das peças Adagio, Allegretto grazioso – Molto vivace e Alegro ma no troppo, de Dvorák. O público pode esperar uma apresentação com uma energia muito grande, e a orquestra querendo mostrar boa música. Ficamos muito honrados por fazer a abertura, garante Ventureli, ressaltando que o município é referência no panorama mundial, já que o evento é precursor no resgate do segmento. Juiz de Fora é um exemplo no Brasil e no mundo por ser o único festival dedicado à música colonial. É um momento de vital importância para a formação de jovens profissionais.
O ano era 1996. Um incêndio na favela de Heliópolis, em São Paulo, deixou quatro pessoas mortas e desabrigou outras tantas. História que se repetiu no último dia 7 de julho, quando três pessoas morreram, 22 ficaram feridas e 860, sem teto, na região conhecida como Ilha. Triste, porém decisivo na vida de dezenas de jovens, o episódio fez surgir o Instituto Bacarelli, organização sem fins lucrativos que atende cerca de 1.200 crianças e jovens em programas socioculturais. O objetivo é oferecer formação musical e artística para moradores da comunidade e de outras regiões do país.
Dezessete anos após a primeira tragédia, os adolescentes que lá estão, seja no Coral da Gente, na Orquestra do Amanhã ou na Orquestra Sinfônica Heliópolis, são modelos do poder transformador da música. De acordo com Ventureli, que também é vice-presidente e diretor executivo da instituição, diferentemente do que muitos podem pensar, não houve qualquer resistência dos integrantes ao projeto que trabalha um repertório que está longe de ser o comercial. Você tem que educar com amor. Usar um processo de sedução bastante forte e verdadeiro, mostrando a riqueza do gênero, mas sem querer provar que é a única opção correta. Não podemos obrigá-los a desprezar os demais estilos.
Criada para promover a prática orquestral e conhecimento de repertório sinfônico, a Orquestra Heliópolis acumula apresentações em grandes salas de concertos do Brasil e do exterior. Sua primeira turnê internacional ocorreu em 2010, durante a programação do Festival Beethoven, em Boon, berço do compositor alemão. Depois, passou por Gasteig (Alemanha) e Muziekgebouw (Holanda). Entre os grandes concertos, os destaques são a apresentação para o Papa Bento XVI, na Catedral da Sé, e o Rock in Rio, com Mike Patton. Franck Shipway, Thomas Dausgaard, Yutaka Sado e Zubin Mehta, patrono do grupo, são apenas alguns dos maestros internacionais que já regeram os instrumentistas.
Para mim existe uma coisa chamada música e pronto, sentenciou Edilson Ventureli, ao ser indagado sobre a controversa e polêmica distinção entre o erudito e o popular. A Orquestra Sinfônica Heliópolis não só dividiu palco com solistas de peças antigas, como Julian Rachlin, Erik Schumann, Leonard Elschenbroich, Shlomo Mintz, Arnaldo Cohen, Jean Louis Steuerman e Daniel Guedes, mas também com artistas populares do circuito nacional: João Bosco, Toquinho, Luiz Melodia, Paula Lima e Ivan Lins.
Segundo o maestro, se hoje esse tipo de composição ganhou ares de erudição, tornando-se restrita a pequenos grupos, em sua época era consumida pelo público em geral, o que comprova que a visão que se tem hoje foi construída, equivocadamente, ao longo dos séculos.Essa divisão surgiu tempos depois, e não tem sentido. As óperas eram criadas para serem tocadas em bailes. Existe, sim, música boa e que não é boa. O que a gente chama de canção popular, desde que orquestrada, escrita para o formato sinfônico, é maravilhoso de se fazer, afirma, para logo apontar uma justificativa para a pouca adesão à música antiga, embora, de acordo com ele, o cenário aponte para mudanças.
Acho que, no Brasil, existe um pouco de preconceito com relação a essa questão. Por que não podemos tocar bossa nova e samba, por exemplo? A Sinfônica não tem preconceito, transitamos do erudito ao popular com o mesmo empenho. Aqui a gente vê uma boa audiência nas salas de concerto, sendo a maioria de jovens, diferentemente do que acontece na Europa, onde o espectador é mais maduro. Acredito que isso se deve aos inúmeros projetos sociais existentes, e que usam a música como ferramenta de inclusão.
Amanhã, às 20h30, a Orquestra Barroca, sob regência do violinista Luís Otávio Santos, com participação do premiado Conjunto Calíope, do Rio de Janeiro, apresenta o réquiem de Mozart, no Cine-Theatro Central. Até o dia 28 de julho, serão realizados master class, palestras, 30 concertos vespertinos e noturnos gratuitos e 37 cursos de instrumentos antigos e modernos. Passarão por aqui nomes consagrados no Brasil e no exterior, como o travessista francês Marc Hantai, e os grupos Camerata Antiqua de Curitiba, Anima, Quaternaglia, Camerata Fukuda, Orquestra Sinfônica de Barra Mansa e Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. No dia 16, ocorre a abertura da exposição O que você vê é a música. A mostra ficará em cartaz na Galeria Renato de Almeida, do Pró-Música, reunindo trabalhos inéditos de alunos do Instituto de Artes e Design da UFJF.
ORQUESTRA SINFÔNICA HELIÓPOLIS
Hoje, às 20h30
Cine-Theatro Central
Entrada gratuita, retirar ingressos neste domingo, a partir das 8h, no Teatro Pró-Música (Av. Rio Branco 2.329)









