Em primeira caminhada, Museu de Território Dom Bosco resgata a memória do bairro

Projeto de extensão da UFJF busca compartilhar e preservar a história do bairro, como também refletir sobre direito à cidade e justiça ambiental


Por Fernanda Castilho

14/06/2026 às 06h00

O Museu de Território Dom Bosco fez a primeira caminhada do projeto pelo bairro histórico da Região Leste de Juiz de Fora, na manhã da quarta-feira (10). A estreia nas ruas também rememorou a importância do Dia do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho e instituído para conscientização da preservação. Criado como um projeto de extensão da Faculdade de Turismo da UFJF, o projeto busca compartilhar e preservar a história do bairro, como também refletir sobre direito à cidade e justiça ambiental.

O museu de território não propõe um museu tradicional, não conta com um prédio, um acervo dentro de vitrines ou obras penduradas em uma parede. Com suas casas, ruas, nascentes, escadões, memórias e a vida da comunidade, o Dom Bosco transformou-se em acervo. Os moradores são os curadores e os mediadores, e o território é uma exposição permanente.

Como em uma visita mediada a um museu aberto, o trajeto parte do escadão que liga as proximidades da UFJF e do Hospital Monte Sinai para chegar à Rua João Beghelli, uma das portas de entrada para o bairro. Em seguida, caminha pelo Conjunto Santo Agostinho, construído por um mutirão e considerado um marco de moradia coletiva e de apoio a mulheres, e pela fachada da Casa do Sr. Juca, que faz parte da memória do protagonismo negro na comunidade. 

Depois, segue para o beco que liga as ruas Kátia Falcone e José Claro Dias, onde é possível conhecer de perto as áreas de risco e os impactos do desastre ocorrido após as fortes chuvas de fevereiro deste ano, dos deslizamentos à interdição de casas. Neste trecho, o grupo discute como as transformações urbanas impactam a comunidade, abordando questões sociais como racismo ambiental, gentrificação, direito à cidade, importância das políticas públicas para a periferia e o impacto real da ausência do Estado no território. 

Por fim, mostrando a força e a esperança da comunidade, o percurso termina na Santinha, a escultura de Nossa Senhora das Graças, que é considerada um ponto de fé, memória e história mística do bairro.

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Foto: Felipe Couri

Retomar a história da comunidade

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Foto: Felipe Couri

Para Edwaldo Sérgio dos Anjos Júnior, professor do Curso de Turismo da UFJF e coordenador do Museu de Território, o Dom Bosco é um território historicamente importante para a dinâmica da cidade e possui rico patrimônio cultural. No entanto, o bairro de população majoritariamente negra também tem uma história marcada por violências que passam pelo empobrecimento, pela gentrificação e pela ausência do Estado. “Nós entendemos que o museu, com seu potencial social, político, educativo e também econômico, pode, de algum modo, retomar essa narrativa da história do Dom Bosco pelos próprios moradores.”

Por meio do compartilhamento das histórias do bairro, o projeto busca preservar essas memórias e torná-las patrimônio cultural imaterial. O resgate e o reconhecimento da própria história promove empoderamento e autonomia a toda comunidade. Para além da transformação social, ao desenvolver atividades turísticas, também tem potencialidade de geração de empregos e promoção de renda para os moradores, avalia Edwaldo. 

Antes de conseguirem tirar o projeto do papel e levá-lo às ruas, no entanto, estudantes e professores da UFJF enfrentaram uma certa resistência da comunidade nos primeiros contatos. Segundo o coordenador do Museu, o bairro foi usado como objeto de pesquisas e coleta de dados, sem que a comunidade recebesse um retorno ou uma proposta de transformação real, motivando a desconfiança inicial. 

“Nós nos colocamos de forma diferente, participamos, efetivamente, de atividades desenvolvidas aqui no Dom Bosco a partir da Associação dos Amigos (ABAN). Temos oficinas que, de certo modo, nos colocam presentes no território para além do museu por si só. Nossa ideia é valorizar a autonomia da comunidade e apresentar a Universidade de forma diferente por meio da extensão universitária. Não é uma extensão voltada a ofertar algo aos moradores, mas para fazer com os moradores. Toda construção é coletiva.”

Todo o processo de desenvolvimento e elaboração do inventário tem, pelo menos, um morador presente. Todas as iniciativas e as agendas do projeto também são decididas junto com os moradores. “A ideia é que eles assumam, portanto, a história de si próprios.”

‘Contamos o que vivemos’

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Foto: Felipe Couri

Nascida e criada no Dom Bosco, Jade Dias, 57 anos, é líder comunitária do bairro, onde atua em várias frentes, das igrejas à Associação dos Amigos (ABAN). Agora, como conta, abraça também a causa do Museu de Território. “A gente tem o que falar, e é muito melhor ouvir da comunidade. Não falamos somente o que pensamos, contamos o que vivemos, o que foi passado dos pais para filhos, a nossa cultura.”

A preservação da história do bairro, para ela, tem grande importância diante dos riscos de um apagamento, também considerado uma violência simbólica contra a comunidade. “É uma maneira de ficar registrado, para nossos descendentes terem orgulho de saber de onde vieram, para terem a sua identidade reconhecida. Eles vão saber que vieram de uma geração de famílias quilombolas. Vamos preservar nossas culturas e a nossa luta de sair desse sufoco de enclausurados”, reflete.

Segundo Jade, o projeto já está trazendo mudanças para a comunidade, pois as pessoas estão enxergando o Dom Bosco com outros olhares. “Nossa comunidade pobre e aquilombada tem muito para oferecer, porque ela já contribuiu muito para a construção da cidade. Agora está contribuindo para o nosso reconhecimento e para a cultura da comunidade, que não pode ser apagada, tem que ser resgatada. O projeto vai contribuir para todo mundo, não só para nossa comunidade.”

Reconhecer os problemas vividos para solucionar

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Foto: Felipe Couri

De acordo com a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFJF, Raquel Von Randow, há uma dificuldade em nomear corretamente e compreender os problemas vividos pela comunidade do Dom Bosco, que ocupou a área há mais de cem anos, antes mesmo da universidade e do Cascatinha. “A partir do momento em que reconhecemos que a área sofre com racismo ambiental, justamente a exposição das populações mais vulneráveis a áreas menos privilegiadas e a uma ocupação de risco, podemos pensar em soluções.”

No bairro, há abastecimento de água e coleta de esgoto, mas não há o mesmo tratamento como em outros lugares da cidade, aponta a professora. “Essa área, como é uma ilha em uma área nobre da cidade, sofre com o processo de gentrificação. Ao redor temos bairros valorizados, como São Mateus e Cascatinha, e a Universidade, que fazem uma pressão imobiliária enorme no próprio Dom Bosco, sem melhorias,”

Segundo Raquel, o projeto traz o protagonismo para o morador do bairro, no sentido da valorização do espaço e de trazer autoestima para a comunidade. “A cidade precisa reconhecer esse espaço, como um espaço vivo e de valor, onde pessoas moram, trabalham e também merecem o mesmo tratamento.”