Motoristas doentes, passageiros em risco

Encravado em barranco, banheiro usado por motoristas no São Mateus fica em meio ao mato (LEONARDO COSTA/01-06-15)
A gente sai de casa para ganhar o pão de cada dia e volta um assassino.” Com esta frase, o motorista de ônibus L., 54 anos, resume o drama que enfrenta desde fevereiro de 2013, quando ele atropelou e matou uma dona de casa de 61 anos que atravessou a Avenida Rio Branco com o sinal aberto. Apesar de ser inocentado pela família da vítima, L. não conseguiu lidar com a tragédia. Mesmo traumatizado pela gravidade do acidente, ocorrido às 14h35, ele diz ter continuado a dirigir o ônibus urbano até meia-noite. A mulher foi levada com vida para o HPS, falecendo no hospital. De lá para cá, nunca mais foi o mesmo. Mudou o comportamento, tornou-se agressivo com os passageiros até perder o emprego no final do ano passado. Considerada uma das três categorias mais adoecidas do país, segundo o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador de Juiz de Fora (Cerest), os motoristas do transporte coletivo de Juiz de Fora enfrentam condições tão adversas que muitos acabam se afastando do volante. “Essa realidade se confirma no município. Os adoecimentos mentais são mais significativos nesse grupo”, ressalta a diretora administrativa do Cerest, Ivone Garcia da Silva.
Só em uma das seis viações da cidade, dos 800 empregados pelo menos cem estão de licença médica. Dos 3.500 motoristas e cobradores contratados na cidade, estima-se que pelo menos 10% estejam licenciados. Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Coletivo (Sinttro), Adilson Antônio Rezende, o percentual dobra se for considerado os cerca de cinco mil trabalhadores do setor. Por medo de perder o emprego ou vergonha da doença, muitos motoristas continuam atrás do volante, uma ameaça para os quase nove milhões de passageiros que todos os meses utilizam o transporte coletivo na cidade.
Estresse da profissão
Os relatos de quem precisa recorrer a ajuda médica para lidar com o estresse da profissão impressionam. Apesar de terem por obrigação contratual a responsabilidade de dirigir por sete horas e 20 minutos, prorrogáveis por mais duas horas, os motoristas, em sua maioria, não contam com banheiros próprios nos trajetos das viagens. Poucas linhas entre uma frota de 589 carros encontram suporte nesse sentido. Em uma linha do Bairro Retiro, foi o próprio morador da Rua Amim Nagle quem cedeu parte do seu terreno para a construção de um banheiro destinado à categoria. Cansado de ver os condutores urinarem na rua, por falta de um local adequado, o servente de pedreiro Roberto de Abreu, 34 anos, não só cedeu o espaço, como sua mão de obra. Foi ele quem construiu, com o material doado pela empresa de ônibus, o banheiro público. “Eles estavam fazendo suas necessidades na rua. Via aquilo e considerava muito chata essa situação. Aí resolvi ajudar”, afirmou Roberto. Já na Rua Henrique Dielle, no Bairro São Mateus, há uma espécie de banheiro químico para os motoristas, mas a empresa disse que não sabe quem o construiu, apenas que paga a água e esgoto da cabine em nome da Associação Imobiliária São Mateus. Segundo funcionários do setor, motoristas e cobradores são obrigados a contar com a boa vontade de comerciantes para usarem o banheiro. “No período noturno, a maioria dos bares está fechada, e não temos onde ir. Também há casos em que nos proíbem de usar o banheiro. Já tive diarreia e me vi obrigado a ir no mato. Isso é muito humilhante”, revelou um motorista que prefere ter sua identidade preservada por medo de retaliação.
O presidente da Astransp, Fernando Goretti, considera a questão dos banheiros um problema do passado. De acordo com ele, as empresas firmaram parcerias com comerciantes nos pontos finais de cada linha com o intuito de atender a categoria. Em troca, os empresários reformam os sanitários, compram vasos novos, azulejam o cômodo ou abastecem com material de limpeza e papéis. “Realmente, a questão dos banheiros era problema no país inteiro, mas hoje, com essas parcerias, não enxergo mais essa questão como precária.” O presidente do Sinttro, no entanto, diz que apenas 30% das linhas tiveram a situação resolvida. “Em 70% dos casos, motoristas e cobradores dependem, sim, da boa vontade de comerciantes.”
Categoria sem hora de almoço
A impossibilidade de os motoristas almoçarem em local adequado é outro ponto que afeta a categoria. A cada jornada de sete horas e 20 minutos, passível de se estender por mais duas horas extras, os motoristas podem fazer apenas paradas fracionadas, que totalizam até 60 minutos. Como o tempo mínimo de viagem em Juiz de Fora é de 45 minutos e máximo de duas horas, em uma jornada de nove horas, o condutor tem, em média, nove minutos em cada viagem completa (de ida e volta) para ir ao banheiro, descansar ou se alimentar. Na prática, os condutores comem dentro do ônibus mesmo, com a marmita na mão, muitas vezes, fria. Para esquentar a própria comida, alguns utilizam irregularmente o radiador do veículo, onde a refeição é guardada por pelo menos duas viagens para ser aquecida. Há casos em que o almoço é perdido no meio do caminho. “Quando está muito calor, a comida costuma azedar”, revela outro condutor afastado há oito meses por problemas na coluna após 22 anos de trabalho. “Eu era o cara na empresa, estava sempre a frente de qualquer coisa, nunca dizia não. O dia que adoeci, deixei de ser. Nunca recebi um telefonema para saber como estou. Esse silêncio faz com que me sinta inválido”, desabafa.
De acordo com Fernando Goretti, o fracionamento do tempo de parada é uma determinação do Tribunal Superior do Trabalho (TST). “Na verdade, eles teriam direito a horário de almoço, mas a categoria não aceita, porque os funcionários teriam que parar mais tarde para cumprir esse horário. O fracionamento veio, justamente, para atender essa reclamação. Foi uma decisão judicial do TST”, explicou. Adilson Rezende, do Sinttro, confirma que 95% da categoria apoiam o fracionamento, porque a parada de uma hora os obrigaria a completar a jornada.
Violência também compromete rotina
A falta de estrutura não é o único problema enfrentado pela categoria. Diretamente afetados pela violência urbana, motoristas e cobradores estão cada vez mais expostos à insegurança social. G. diz ter sido assaltado 17 vezes durante os 13 anos de emprego. Passou a dirigir com um pau ao seu lado e ter crises de choro repetidas. “Em um dos assaltos, passaram o facão no meu pescoço. Na outra vez, o assaltante deu um tiro no vidro do ônibus, e os estilhaços me feriram. Pedi para trocar de linha, mas a empresa alegou que se fizesse isso daria moral aos vagabundos. De repente, eu me vi avançando o sinal e jogando o carro em cima das pessoas. Fiquei um ano na cama, chorando, com medo de tudo. Minha relação familiar ficou muito abalada, afetando, inclusive, o rendimento do meu filho na escola”, diz.
Além dos assaltos, G. foi obrigado a parar o ônibus durante uma briga de gangues na qual teve sua vida ameaçada. “Eles me mandaram parar, fui obrigado a atender. Refém deles, tive que esperar o final da briga. Eu adorava minha profissão, mas hoje, se pegar o ônibus de novo, tampo ele no rio ou em um poste”, revela o homem afastado do emprego há seis anos. O presidente da Astransp, Fernando Goretti, reconhece que a categoria está mais exposta do que as demais, em função do estresse contínuo do trânsito, da intolerância nas relações sociais e da própria violência, mas afirma que não tem conhecimento sobre este caso, alegando que nenhum motorista da cidade passou por mais de três assaltos. “Tenho a obrigação de defender a integridade física do funcionário, todos que foram assaltados, trocamos de horário e de linha quando houve interesse do funcionário”, afirmou. G. contesta: “Na hora em que mais precisamos, não temos amparo.”
Envolvido no acidente que matou um pedestre, o motorista L. diz que preferia ser alvo da violência a tornar-se autor dela, mesmo que involuntariamente. “Eu preferia ser assaltado inúmeras vezes do que ter um acidente com vítima. Aquele era o meu dia de folga, mas fui chamado para trabalhar, e o acidente aconteceu. Depois disso, a gente não encontra apoio. Até na hora de comer, penso nesta vida que eu tirei. Antes, tinha fascínio pelo ônibus, mas agora só sinto medo. A frota está envelhecendo, e eles colocam veículos novos no lugar. Mas e a gente? Os encarregados nos pedem para quebrar galhos e continuarmos dirigindo por mais uma, duas, três viagens, às vezes, varamos a madrugada ao volante, mas não somos valorizados. O ser humano, a ferramenta mais importante das empresas, é descartado”, chora.
Conflito
Outro ponto de conflito é a relação dos motoristas e cobradores com os usuários do transporte público. Submetidos aos estresse do horário, ao trânsito e também à pressão da população, muitas vezes, o condutor de ônibus urbano é hostilizado pelo passageiro ou trata mal quem utiliza o ônibus. “Sempre fui brincalhão, mas depois do acidente, me fechei. Um dia uma senhora me deu bom dia e eu acenei com a cabeça. Ela não aceitou, queria ouvir um bom dia. Eu a mandei para o inferno. Naquele momento, já estava em um nível altíssimo de estresse”, conta, L.
Outro motorista afastado relembra os xingamentos ouvidos dentro do veículo durante as viagens com ônibus cheio. “Os usuários reclamam, nos xingam e fazem piadas. Somos o alvo da insatisfação da população com o serviço. Em um dia de crise, cheguei a dirigir por quilômetros sem saber nem onde eu estava”, confessa. Segundo o presidente do Sinttro, Adilson Rezende, há casos em que condutores são agredidos pelo usuários. “Alguns chegam a ser atingidos com guarda-chuva e até com bolsas”. Para Fernando Goretti, presidente da Astransp, falta bom senso e tolerância de ambas as partes. “Sabemos que motoristas e cobradores estão expostos demais e que a população descarrega neles muitos problemas. No entanto, há casos em que o funcionário poderia passar por cima e evitar a situação de conflito.”
Grande parte não tem condição de voltar a trabalhar
Muitos motoristas adoecidos buscam no Departamento de Saúde do Trabalhador da Secretaria de Saúde, que é o centro de referência para a cidade e outros 106 municípios da região, o apoio para se reabilitarem. O local está há quatro anos sem psiquiatra, mas, com a ajuda de uma equipe multidisciplinar, faz o acolhimento psicossocial de profissionais afetados pelas condições de trabalho. Além de motoristas de ônibus, bancários e operadores de call centers são as categorias mais atingidas. “Há um esforço da equipe no sentido do resgate das condições de trabalho para o retorno ao mercado”, explica a diretora administrativa do Cerest, Ivone Garcia da Silva.
O presidente da Astransp, Fernando Goretti, reconhece que o adoecimento da categoria é uma realidade, mas diz que o alto índice de afastamento do trabalho sugere uma facilidade na obtenção do benefício. Ivone não vê desta forma. “Os funcionários do setor se afastam por não estarem em condições de dirigir um veículo. Eles, no entanto, querem a volta ao trabalho, porque o afastamento de longa permanência fortalece o adoecimento e cria situações favoráveis para outras doenças”, explica. O presidente do Sinttro diz que a situação é muito preocupante e que grande parte dos motoristas não tem condição de voltar ao trabalho e os que conseguem acabam executando outros serviços dentro da empresa.
Impressionado com a gravidade dos casos, o ex-psicólogo do serviço, Robson Procópio Rodrigues Valle, decidiu criar um grupo de apoio aos motoristas do transporte coletivo e bancários. Inicialmente, escolheu os 25 casos mais graves envolvendo transtornos de ansiedade, tentativa de suicídio e depressão. “Os motoristas e trocadores sofrem diretamente a violência da sociedade, o problema provocado pelo excesso de trânsito na rua, além da pressão empresarial e da comunidade. Uma das situações que mais me chamou a atenção foi o do motorista assaltado mais de dez vezes. Ele chegou aqui meio catatônico, à beira da loucura. Fiquei me perguntando como a empresa não mudou essa pessoa de linha?”
‘Peça quebrada’
Robson diz, ainda, que o adoecimento dos trabalhadores é tratado com descaso. “Quem adoece é considerado peça quebrada, sofre bullying dos colegas. Teve um motorista que teve um desmaio ao volante, mas foi acusado pela empresa de dormir. Outro teve que lidar com o drama de um cadeirante que, ao descer do ônibus, caiu embaixo da roda do veículo. Muitos tentam continuar no trabalho, mas o trauma evolui, havendo um alto percentual de pessoas que chegam a pensar em se matar. Geralmente, o motorista é alguém que ama a profissão e que tem combustível na veia. O afastamento dá a ele uma sensação de fracasso”, explica o psicólogo que marcou uma reunião com os donos das empresas de transporte público para discutir as condições de trabalho. “Queríamos mostrar para eles que não estamos contra os empresários, mas a favor do bem-estar e da qualificação das condições de trabalho, já que recursos humanos despreparados prejudicam o setor. Um motorista desequilibrado afeta o coração da cidade, pois é uma categoria muito presente no dia a dia da sociedade. Eles vivem em meio uma guerra, embora nem saibam por que estão nela. A pressão, às vezes, é insuportável.”
Com o fim do contrato de trabalho de Robson, o grupo foi assumido pela doutora em saúde mental, a psiquiatra da UFJF Andreia de Miranda Ramos. O trabalho faz parte de um projeto apoiado pela Pró-reitoria de Extensão da UFJF que estuda as questões do campo da saúde mental e trabalho. “O objetivo do projeto é ampliar a discussão sobre saúde mental e trabalho entre diferentes setores da sociedade e oferecer grupo de apoio para trabalhadores portadores de doença mental relacionada ao trabalho atendidos no Centro de Referência de Saúde do Trabalhador de Juiz de Fora.”
Segundo Andreia, o trabalho na sociedade tem uma função simbólica pelo seu aspecto cultural e valor econômico,sendo fundamental na constituição da subjetividade. No entanto, a exposição a complexas articulações de fatores relacionados à organização do trabalho pode resultar em adoecimento mental. “Muitos trabalhadores sofrem adoecimento grave, cujo processo de melhora pode ser lento.” Para a psiquiatra, a situação de adoecimento só será revertida quando a questão psíquica/mental for considerada nos ambientes de trabalho.









