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Medo vira rotina no Mergulhão


Por Michele Meireles e Marcos Araújo

14/01/2014 às 07h00

Abaixo-assinado feito pela comunidade do entorno pede base fixa da PM no local

Abaixo-assinado feito pela comunidade do entorno pede base fixa da PM no local

Depois de vários assaltos e furtos, alunos, comerciantes e pessoas que trabalham no entorno do Mergulhão resolveram fazer um abaixo-assinado, que recolheu mais de mil assinaturas, para reivindicar um posto fixo da Polícia Militar nas imediações. O documento foi entregue ao comandante geral da PM, coronel Márcio Martins Sant’Ana. Os constantes crimes mudaram hábitos de pessoas que precisam passar pelo trecho para chegar a instituição de ensino e empresas, já que a insegurança ronda a área de dia e à noite: alguns evitam levar celulares, outros deixam de sair para almoçar e alunos já desistiram de cursos por conta do medo de assaltantes. A rotina de medo, segundo pedestres, é um reflexo do movimento de usuários de drogas na Rua José Calil Ahouagi. Apesar de imóveis abandonados, que serviam como ponto de uso de drogas terem sido demolidos, o fluxo de viciados ainda é intenso. A denúncia é de que muitos "crackeiros" se deslocaram da Rua Benjamin Constant e continuam na Calil Ahouagi, além de estarem tomando o Mergulhão. "O uso de drogas por aqui se tornou uma cena comum. Os usuários não se intimidam com a presença de ninguém, nem mesmo de policiais. E para manterem este vício, acabam roubando", conta uma operadora de telemarketing que preferiu não se identificar.

De acordo com uma dona de casa, 46 anos, os casos de assaltos e tráfico de drogas no local são constantes. Ela afirmou que uma loja que funciona debaixo do prédio dela vai fechar as portas, pois os proprietários não aguentam mais a onda de criminalidade. "São casos de brigas, venda e consumo de drogas. Com a derrubada dos imóveis na Benjamin Constant, achamos que a situação ia melhorar, mas só está ficando pior", diz a moradora, acrescentando que as lâmpadas dos postes de iluminação pública da região estão sendo danificadas. "Está ficando uma escuridão, pois as lâmpadas, perto do local onde é feito a venda de drogas, estão sendo quebradas, numa tentativa de encobrir o tráfico."

Quem passa pela área teme casos como o registrado no último dia 19, quando um homem, 52, foi agredido e roubado, durante a madrugada, perto do local. A vítima foi agredida por três suspeitos, que desferiram socos e chutes e a jogaram no chão para roubar cerca de R$ 100 e cinco cartões de crédito. O homem foi socorrido e encaminhado ao Hospital de Pronto Socorro (HPS), com cortes na face e na orelha direita. Na época, ninguém foi preso. No mês de dezembro, um casal foi surpreendido por um ladrão em pleno trânsito e teve uma mochila roubada de dentro do carro, no dia 11, por volta das 19h30, no entroncamento entre as avenidas Francisco Bernardino e Rio Branco, próximo ao Mergulhão. O suspeito chegou a ser detido por populares, mas escapou e acabou preso por policiais militares.

 

Abaixo-assinado

A iniciativa de elaborar o abaixo-assinado solicitando um posto da PM para a área partiu da mãe de um jovem, 18 anos, que foi assaltado por dois homens, um deles armado de revólver, quando saía do Senai e caminhava próximo à passagem de nível do Mergulhão. "Ele ficou muito assustado, os bandidos foram violentos. Eles pegaram um celular e exigiram mais pertences, mas meu filho não tinha mais nada. A sorte foi que no momento do roubo passaram duas senhoras, e os ladrões se assustaram, fugindo apenas com o celular", conta Therezinha Rodrigues.

 

 

Desestímulo à passagem na área

De acordo com o supervisor técnico do Centro de Formação do Senai que fica nas proximidades, Marcelo Afonso, alguns alunos desistiram de cursos ou pediram transferência para a unidade que funciona na Barreira do Triunfo, Zona Norte. "A realidade é que há muita insegurança nesta região. Esta reclamação é recorrente entre estudantes e funcionários. Muitos não têm outro caminho para passar e acabam sendo vítimas de ações criminosas", afirma. Outro aluno que teve seus pertences roubados foi Gabriel Mattos, 17. Ele contou que foi abordado por dois homens armados de faca, por volta de 21h, quando saía da escola. "Estava atravessando a linha férrea, em cima do Mergulhão. Os bandidos foram violentos e levaram meu celular. Depois disso, alertei os colegas de sala e não trago mais celular."

Segundo a coordenadora pedagógica da unidade, Sandra dos Anjos Batista, a decisão de não levar mais aparelhos eletrônicos e dinheiro foi tomada por diversos estudantes. "Como falta policiamento, nos viramos como dá. Mas é difícil sair ileso. Os criminosos têm feito ações ousadas, como quebrar vidros de carro em frente à escola para furtar produtos. Também já entraram aqui, mesmo com segurança", desabafa.

Funcionários de empresas da região afirmam que se sentem inseguros. Além da área do Mergulhão, os pontos mais críticos estão nas ruas José Calil Ahouagi, Doutor Lafaiete Loures e Professor Oswaldo Veloso.

Patrícia Dabes é funcionária de uma empresa de telemarketing na Calil Ahouagi. Ela relata que é comum ver pessoas usando drogas em frente ao prédio onde trabalha em plena luz do dia. "Acredito que isto acaba motivando os assaltos, que são constantes aqui. Nós (os funcionários) temos saído para almoçar apenas em grupo e evitamos carregar coisas de valor."

A recepcionista de uma loja de aços Elizângela Carvalho também reclama de insegurança. "Não temos por onde passar. Não tem jeito, a maioria das pessoas que vem trabalhar de ônibus precisa passar pela Calil Ahoaugi e pelo Mergulhão. Os crimes aqui não têm hora para acontecer."

A insegurança no Mergulhão já foi tema de outras reportagens da Tribuna. Há dois anos, o jornal mostrou que o trecho, usado por quem atravessa a Avenida Rio Branco, principal via da cidade, e também para quem sai desta via e segue em direção à Avenida dos Andradas, era usado para consumo de drogas por muitos usuários. Além disso, a área servia de cenário para tumultos provocados gangues. Havia até relatos de um homem que permanecia naquelas imediações, mostrando o órgão genital para os transeuntes. A matéria ainda apontou que, naquela época, as mulheres e os estudantes eram os principais alvos das ações criminosas e que a faca aparecia como o instrumento de ameaça mais utilizado pelos ladrões. Ao que parece, até hoje, os estudantes continuam como vítimas preferenciais.

 

 

PM diz fazer rondas diárias no trecho

Em nota encaminhada à Tribuna, a assessoria de comunicação do 2º Batalhão de Polícia Militar (2º BPM) afirmou que tem lançado, diariamente, policiamento não só no Mergulhão e proximidades, mas em toda a região central e zonas Nordeste, Leste e Sudeste de Juiz de Fora, cuja responsabilidade territorial é do 2º BPM. Informou que, diuturnamente, existe uma constante rotatividade de viaturas pelo local (patrulha de prevenção ativa, patrulha de atendimento comunitário, motopatrulhas, bike patrulhas e policiamento a pé).

Ainda segundo a nota, órgãos públicos e a PM se mobilizaram, resultando em trabalhos de revitalização (limpeza, iluminação, podas de árvores, etc) nas praças públicas da área, inclusive o próprio Mergulhão, como forma de melhorar a urbanização nos referidos locais, refletindo positivamente na segurança pública. Com relação à instalação de posto fixo, a PM tem adotado outra modalidade de serviço, fazendo o lançamento da base comunitária móvel, que tem como estratégia a ampliação da ostensividade e a visibilidade do policiamento lançado, bem como das operações preventivas e repressivas realizadas, além de aumentar a capacidade individual dos policiais militares na produção de serviços de segurança pública.

Como missão geral, a base comunitária móvel busca realizar um policiamento geral personalizado, de acordo com a necessidade de cada comunidade, utilizando-se dos conhecimentos dos próprios militares e do auxílio da comunidade para identificar, analisar, responder e avaliar os problemas policiais contemporâneos de segurança pública, interferindo diretamente na qualidade de vida da comunidade. Apesar de ser missão da Polícia Militar o policiamento ostensivo e preventivo, a corporação considera bem-vinda a participação da comunidade repassando informações. Uma das formas de colaborar, caso o cidadão não queira se identificar, é utilizar o Disque Denúncia Unificado (181).