Pelo direito à opção

Mobilização dos voluntários foi feita praticamente toda pelas redes sociais (Divulgação)
A sabedoria popular prega que “a cavalo dado não se olha os dentes”, e, por esta lógica, quem recebe uma doação deve ser cegamente grato pela iniciativa. Entretanto, muitas vezes a filosofia do ditado não abarca questões mais sensíveis de quem passa por necessidades e precisa de donativos, como a dignidade, a autoestima e o poder de escolha. Tendo em vista estes aspectos, o evento “The street store”, voltado para a doação de roupas para pessoas em situação de rua, será realizado no próximo dia 26 (sábado), das 9h às 15h, na Praça da Estação. “Sempre me incomodou, no ato de doação, a sensação de que as pessoas doam restos, simplesmente aquilo que não gostam mais, e que ajudar, em si, parece ser algo secundário. A proposta do evento é que as pessoas possam escolher as peças tal qual ocorre em uma loja comum, e que esse processo ocorra da forma mais digna possível. Assim, elas podem aumentar sua autoestima, ser percebidas e também estarão mais aptas a perceberem como seres humanos plenamente capazes de reverter sua condição”, explica a professora universitária Mariana Maia, uma das idealizadores da edição juiz-forana da iniciativa, que já foi realizada em diversas cidades do Brasil e de todo o mundo.
Segundo Mariana, a mobilização dos voluntários foi feita praticamente toda pelas redes sociais, depois que a professora compartilhou um vídeo da ONG sul-africana que criou o evento. “Na postagem, perguntei quem toparia reproduzir em JF. Algumas pessoas toparam, depois desistiram, novas pessoas surgiram, amigos de amigos, completos desconhecidos, até que o grupo ficou enorme”, explica ela.
A estudante Lígia de Melo Lopes foi uma das voluntárias que arregaçou as mangas pela causa, integrando o time da organização do evento. “Na minha opinião, em todos os lugares há pessoas que se sensibilizam e aquelas que não. Em Juiz de Fora, acredito que há mais gente disposta a ajudar. Esperamos que, ao terem liberdade de escolha, as pessoas possam realmente se sentir parte da sociedade”, diz a estudante.
Doações em diversos pontos
Segundo Mariana, o evento segue a identidade visual sugerida pela ONG idealizadora, com cabides e suportes de papelão montados nos estandes e voluntários orientando o público. “As pessoas em condição de rua da cidade já terão sido mobilizadas pela Amac, pela Secretaria de Desenvolvimento Social e pelos integrantes do projeto ‘JF invisível’. É importante ressaltar também que qualquer pessoa que necessite de doações de roupa, ainda que não se encontre em situação de rua, poderá se beneficiar também”, explica a professora. Para ela, um dos grandes desafios do evento é fazer com que a população de rua se sinta acolhida pelo evento e os voluntários. “O grupo de voluntários é composto por gente das mais diversas áreas, mas ninguém trabalha com esse público diretamente. Sabemos que as pessoas nessa condição, em geral, já sofreram todo tipo de abuso na vida e podem ter receio de se abrirem facilmente. Esse será o nosso principal desafio e objetivo, fazer com que elas se sintam a vontade conosco.”
Os pontos de doação estão espalhados por diversos locais da cidade (ver quadro), facilitando a dinâmica de quem deseja contribuir com a causa. “Acredito que todo mundo deseja fazer algo de bom, mas a maioria simplesmente não sabe como. Eu mesma já procurei inúmeras vezes por oportunidades de participar de alguma ação social na cidade e não encontrei. Dessa vez é fácil contribuir. No início temia a falta de apoio, mas estamos nos surpreendendo”, afirma Mariana, destacando que, em um balanço inicial dos donativos, foi constatado que a maior demanda no momento é por roupas masculinas.
Para a organizadora, mais que roupas, a meta maior do evento é distribuir esperança, apoio e visibilidade. “Ouvi algumas críticas do tipo: “as pessoas estão nas ruas porque existe quem dê esmolas, quando isso parar de acontecer, vão ter que trabalhar”. Muitos dos que se encontram nessa condição possuem até formação superior e por algum motivo se perderam na vida. Isso pode acontecer com qualquer um de nós, é importante que se perceba isso.”









