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UFJF reconstitui faces com método pioneiro


Por LILIANE TUROLLA

12/10/2014 às 06h00- Atualizada 13/10/2014 às 12h06

Professora apresenta resultados em paciente que perdeu olho e parte do crânio em acidente
Professora apresenta resultados em paciente que perdeu olho e parte do crânio em acidente

Atropelado por um caminhão, enquanto andava de bicicleta na BR-040, Rodrigo dos Santos Correia, 30 anos, perdeu o olho direito e partes do crânio na região da testa, em novembro do ano passado. As sequelas estampadas no rosto fizeram com que o jovem se isolasse pela vergonha de encarar a sociedade. “As pessoas me olhavam de um jeito estranho por causa do tampão na vista, passei a não sair mais de casa”, conta.

O “retorno à vida” aconteceu em maio, quando o cirurgião que realizou suas primeiras cirurgias no Hospital de Pronto Socorro (HPS) o apresentou ao projeto “Reabilitação protética de perdas faciais e bucais”, desenvolvido e coordenado pela cirurgiã-dentista Elizabeth Rodrigues Alfenas, professora do Departamento de Odontologia Restauradora da UFJF. A partir de um método pioneiro no Brasil, que utiliza uma impressora 3D, a professora confecciona próteses para reconstituir partes da face e da boca perdidas ou danificadas por acidentes, anomalias genéticas ou doenças, como o câncer. “Quem não convive com uma deformação facial severa, não sabe a dor que é. Eu vejo essas pessoas, e quero ajudá-las. Eu posso ajudá-las.”

O resultado é um sucesso. As próteses, invisíveis aos olhos dos leigos, devolvem aos pacientes a autoestima e o convívio social. Há um mês e meio, Rodrigo concluiu a primeira etapa da restauração facial com a recomposição ocular. “Isso mudou minha vida, me deu autoconfiança de novo. Hoje saio normalmente”, afirma o paciente.

Elizabeth pontua que a comunidade não lida bem com pessoas que têm mutilações no rosto. “A população geralmente tem medo, fica constrangida ou assustada com uma deformação, principalmente na face. Essa repulsa abala o psicológico das vítimas, que acabam se fechando. As cirurgias iniciais curam o corpo, mas só a prótese garante reabilitação estética e psicológica.” A professora ressalta que a reconstrução melhora também as capacidades de fala e alimentação, muitas vezes comprometidas ou perdidas.

Transferida da UFMG, a professora trouxe a técnica para a UFJF em dezembro do ano passado. O projeto de extensão para confecção das próteses foi aprovado por aqui e está em fase de montagem de laboratório. No entanto, a docente conta que, desde que chegou, já fez o atendimento de dez pacientes, reconstituindo face, olho, nariz e orelha, entre outros.

 

O método

A partir do exame de tomografia computadorizada, o crânio, ou parte dele, é recriado tridimensionalmente por programas de computador, o que possibilita o planejamento virtual da cirurgia de recomposição. Após esse processo, é feita a impressão 3D em gesso, que mostra exatamente a extensão do dano e o volume ósseo da área. Esses parâmetros servem como guias cirúrgicos.

“É um método menos invasivo, o cirurgião já entra sabendo como serão os implantes das barras metálicas que sustentarão a prótese facial, moldada em silicone ou resina acrílica. Temos a segurança de que o cérebro não será lesado, pois sabemos as medidas dos ossos”, explica a professora. Segundo ela, todas as universidades federais podem fazer esse trabalho gratuito com o apoio do Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, de Campinas, que possui a impressora 3D e doa os biomodelos.

 

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‘SUS poderia oferecer serviço’

A gratuidade do tratamento para reabilitação protética de perdas faciais e bucais depende que alguns profissionais da saúde doem seu trabalho aos pacientes do projeto, a maioria deles carentes, conforme a professora do Departamento de Odontologia Restauradora da UFJF, Elizabeth Rodrigues Alfenas. “Pedimos aos hospitais para realizarem as cirurgias pelo SUS, mas os implantes e os materiais para confecção da prótese não são cobertos.” No entanto, a docente defende que a realização do procedimento completo já poderia acontecer no sistema público. “Falta um responsável para organizar as demandas e a equipe de trabalho, que engloba várias áreas e especialidades da saúde. Mas, se houver vontade, é possível”, enfatiza.

O Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, responsável pela impressão 3D da estrutura óssea dos pacientes, já se disponibilizou a transferir a tecnologia da biomodelagem para o SUS. Por meio do projeto “Prototipagem virtual 3D e rápida para medicina” (Promed), ele já forneceu mais de 1.300 biomodelos (protótipos do crânio ou de estruturas ósseas do paciente ) para hospitais das redes pública e privada.

Na universidade, a professora conta com a colaboração de um grupo de estudantes de odontologia (Nayara Leite Paiva, Ludimila Brandi, Gabriela Gatti, Mayara Bonin, Roberta Figueiredo e Tatiane Domingos) e com o apoio das faculdades de Medicina, Psicologia, Fonoaudiologia, Fisioterapia e Engenharia de Produção.

O cadastro para participar do programa pode ser feito na Faculdade de Odontologia da UFJF, no Campus Universitário. Os interessados são avaliados e encaminhados para o exame de tomografia computadorizada, também realizado na instituição.