Padroeira do Brasil é celebrada por católicos

Elizabeth Martins quer retribuir a graça alcançada, distribuindo doces para crianças de sua comunidade

Devota fervorosa, Marta Castro bebe a água benta armazenada em garrafa no formato da réplica de Nossa Senhora
“Ela é milagrosa. Quem pede com fé, recebe a graça.” É assim que Celeste Guedes Britto, 72 anos, descreve Nossa Senhora Aparecida, celebrada hoje pelos católicos. Consagrada como Padroeira do Brasil em 1930, a santa é uma das que mais reúne devotos no país. Sua generosidade é marcada no depoimento dos fiéis, que atribuem a ela muitas curas, conquistas e proteção. Em comemoração à data, a Arquidiocese de Juiz de Fora preparou uma programação especial com festividades durante todo o dia em vários bairros da cidade. Dentre as atividades, está a tradicional motociata, que está em sua 18ª edição.
“Nossa Senhora é mãe, somos todos seus filhos. Nela encontramos o colo, a ternura e o carinho materno. Uma mãe não discrimina e não tem preconceito, ela ama e quer o bem de todos, por isso ela é tão querida e tão generosa”, afirma o padre Luciano Atanázio, da Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, localizada no bairro homônimo. De acordo com ele, a comunidade, dedicada à santa há mais de 50 anos, espera cerca de 15 mil fiéis para a festa em homenagem à protetora. Entre as celebrações, o padre destaca a missa afro-brasileira, realizada hoje ao meio-dia, como a que mais “encanta” os visitantes.
Também no Dia da Padroeira, acontece a tradicional motociata. A expectativa é de que dois mil motociclistas participem. Eles iniciam a concentração a partir das 9h no Bairro Bom Pastor, de onde conduzirão a imagem de Nossa Senhora Aparecida em desfile pela cidade. A procissão segue pela Avenida Rio Branco até o Bairro Manoel Honório, passando pela Avenida Governador Valadares e pelas ruas Américo Luz e Américo Lobo, seguindo para a Catedral Metropolitana. Na chegada, programada para 11h30, haverá bênção dos motoristas.
A trajetória de fé e devoção no Brasil teve início há 297 anos, quando pescadores do Vale do Paraíba recolheram de um rio o corpo de uma imagem sacra quebrada na altura do pescoço. Ao jogar novamente a rede, pescaram a cabeça, constatando se tratar de Nossa Senhora da Conceição. Segundo a Igreja Católica, após a junção das partes, a pesca foi abundante, mesmo nas épocas de escassez. Por assim ter surgido, o povo a chamou de “Aparecida”. A região da aparição virou ponto de peregrinação de fiéis de várias partes do mundo, recebendo aproximadamente 11 milhões de turistas anualmente.
Romeiros falam de graças alcançadas
Há 37 anos, Celeste Guedes Britto organiza excursões rumo ao Santuário Nacional de Aparecida, localizado na cidade de Aparecida, em São Paulo. O local foi consagrado pelo Papa João Paulo II, em 1980, como o maior santuário do mundo dedicado à Nossa Senhora. Lá está abrigada a imagem retirada do rio em 1717. “É uma energia única, que contagia. Faço questão de ir todos os anos para agradecer e para pedir mais um pouquinho, ela sempre me atende. Tem gente do grupo que já deixa o assento do ônibus marcado para o próximo ano”, conta. Entre as graças que já recebeu, Celeste destaca uma que foi concedida ao irmão: “Um laudo médico sinalizava um tumor no cérebro dele, teria que operar. Rezei muito, pedi com toda minha fé para curá-lo, e ele teve a bênção. No segundo laudo, já não tinha mais nada, nem precisou de cirurgia. Em agradecimento, levei um retrato dele, os exames e uma cabeça de cera para deixar na sala dos milagres da Basílica.”
Devota “fervorosa”, Marta Castro, 50 anos, reza o terço todos os dias em honra à santa. Além das orações, ela e a família bebem pela manhã a água armazenada em uma garrafa no formato da réplica de Nossa Senhora. “Ela veio de Aparecida do Norte, a água é benta pelo padre Marcelo Rossi todos os dias. Dá uma sensação de proteção, não saio de casa antes de beber.” A crença foi passada pela mãe quando ela ainda era criança. “Eu precisava operar a garganta, e minha mãe estava com muito medo. Ela pediu que Nossa Senhora Aparecida mandasse um sinal se fosse para não fazer a cirurgia. Quando eu internei, comecei a tossir sem parar, e o médico cancelou o procedimento. Depois foi constatado um outro problema, que não precisava de operação.”
Grata à padroeira pela cura de um câncer, Elizabeth Martins Simas, 63 anos, distribuirá doce para crianças de sua comunidade, já que a data também é dedicada a elas. Durante as procissões do dia 12, Elizabeth sempre faz questão de segurar o andor com a estátua da santa. “Eu olho para a imagem dela como quem olha para um retrato de mãe, com amor, gratidão e bons pensamentos. Tenho muita intimidade com Nossa Senhora Aparecida, gosto tanto dela, que até sonho. E todo esse carinho é retribuído, já me foram concedidas várias graças.”
É também a gratidão que inspira Marco Aurélio Costa, 51, a seguir a pé de Juiz de Fora até a cidade de Aparecida. Em três anos de existência, a romaria organizada por ele já reuniu quase 500 homens para a caminhada de cerca de 300 quilômetros, vencidos em uma semana. “A viagem é surpreendente, superamos nossos limites e percebemos que podemos fazer muito mais do que imaginamos. Foi Nossa Senhora que me ajudou a ser menos materialista e menos dependente do dinheiro. Isso elimina muitos problemas da nossa vida.” Os peregrinos, acompanhados pela imagem da santa, fazem pausas para alimentação, descanso e orações. Sobre as dificuldades do caminho, Marco Aurélio é enfático: “É a fé que nos dá força para tudo. É a fé que sempre nos move.”









