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Mais de 65 mil trotes mobilizam forças de segurança em Minas Gerais

Comunicações falsas foram registradas no primeiro semestre deste ano por polícias Civil e Militar, Corpo de Bombeiros e canal unificado de emergência


Por Pâmela Costa

12/07/2026 às 06h00

A história convence. Do outro lado da linha, uma voz aflita relata um assalto. Conta onde aconteceu, descreve a fuga, informa o que foi levado. A narrativa é detalhada o suficiente para mobilizar uma viatura da Polícia Militar. A equipe vai ao endereço indicado, procura testemunhas e analisa imagens de câmeras de segurança em busca dos suspeitos. Horas depois, a ocorrência que mobilizou recursos públicos se dissolve. O assalto nunca aconteceu. Os documentos haviam sido perdidos, e a falsa comunicação servia apenas para justificar a emissão gratuita da segunda via.

O episódio, relatado à Tribuna de Minas por um policial militar de Juiz de Fora que pediu para não ser identificado, está longe de ser um caso isolado. Definido por ele como “corriqueiro”, integra as 20.775 denúncias falsas recebidas pela corporação nos seis primeiros meses deste ano, no estado. Somados aos trotes registrados pelo Corpo de Bombeiros, pela Polícia Civil e pelo canal unificado de emergência, os falsos chamados às forças de segurança em Minas chegaram a 65.878 no primeiro semestre.

Embora seja a Polícia Militar o principal alvo de falsas denúncias, que repercutem ou não em deslocamento, o Corpo de Bombeiros não fica atrás: foram 6.695 registros no mesmo período. Conforme levantamento realizado pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) a pedido da Tribuna, o canal unificado também passou a receber mais trotes. As falsas ocorrências passaram de 1.729, em 2025, para 38.350 neste ano, o que representa um crescimento superior a 2.100%. 

Na Polícia Civil, o cenário é diferente. As denúncias falsas, embora continuem acontecendo, registraram uma queda expressiva: passaram de 12.720 no primeiro semestre do ano passado para 58 no mesmo período deste ano. Em nota,  a corporação  informou que os registros são de diferentes naturezas. Entre os mais frequentes estão crimes patrimoniais, supostos desaparecimentos, conflitos interpessoais, denúncias envolvendo violência doméstica, além de comunicações de crimes que, após apuração, demonstram não ter ocorrido da forma inicialmente relatada. Ainda assim, toda informação recebida é analisada e submetida à verificação.

Segundo o titular do Núcleo de Atendimento à Pessoa Idosa em Juiz de Fora, delegado Rodolfo Rolli, chegam até ele os casos em que familiares fazem denúncias uns contra os outros em disputas pelo controle da renda de idosos ou, ainda, acusações motivadas por desavenças entre vizinhos.  O resultado desses trotes, conforme ele, vai desde os recursos gastos até o constrangimento dos abordados injustamente.

Prejuízo financeiro e ao atendimento de casos reais

Nem toda falsa chamada resulta em deslocamento da equipe policial, mas quando isso acontece, uma situação real e que pode envolver risco tem que ficar à espera. De acordo com um sargento da Polícia Militar que atua no 27º Batalhão, em Juiz de Fora, algumas chamadas têm prioridade imediata de despacho, independentemente de a informação ser verdadeira ou não. É o caso das ocorrências relacionadas à violência doméstica.

“Tudo que for relacionado à violência doméstica, chegou lá, é a primeira que eles têm que despachar”, afirma. Conforme o militar, quando uma denúncia desse tipo chega ao Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), a viatura da área é acionada rapidamente para verificar a situação e fazer contato com a suposta vítima. No entanto, quando a informação é falsa, os policiais precisam confirmar, no local, se realmente não há vítima e se a equipe não está sendo dispensada indevidamente, o que poderia, em alguns casos, beneficiar um possível autor.

O sargento observa que, em muitas situações, a falsa comunicação não ocorre necessariamente porque a pessoa inventa toda a ocorrência, mas porque exagera a gravidade dos fatos para tentar acelerar a resposta policial. Segundo ele, há casos em que uma discussão entre vizinhos é informada como uma ameaça com arma de fogo. “Parece que a pessoa agrava mais a situação, talvez com a intenção da polícia chegar mais rápido”, relata. Quando a equipe chega ao endereço, no entanto, encontra apenas um desentendimento simples ou, em alguns casos, nenhuma ocorrência em andamento.

Outra situação apontada pelo militar envolve registros de furto ou roubo de celular. Ele afirma que há casos em que pessoas procuram a polícia dias depois do suposto fato para registrar boletim de ocorrência, muitas vezes em razão de seguros vinculados aos aparelhos ou para justificar alguma situação pessoal. Em um caso recente citado pelo sargento, um homem procurou a PM alegando ter sido roubado nas proximidades do Hospital Monte Sinai. Ele informou data, horário e os objetos que teriam sido levados.

A versão, porém, levantou suspeitas entre os policiais, principalmente pelo intervalo de cerca de 15 dias entre o suposto crime e o acionamento da PM. Após a verificação de câmeras na região e nova conversa com o homem, ele admitiu que a história havia sido inventada. Segundo o sargento, o objetivo era justificar uma falta no trabalho. “Olha só a gravidade que a pessoa inventa para poder justificar uma falta no serviço”, comenta.

Nesses casos, conforme o policial, a pessoa pode ser conduzida por falsa comunicação de crime e responder posteriormente na esfera criminal. Para o sargento, além de mobilizar equipes indevidamente, esse tipo de prática prejudica o atendimento de ocorrências reais e compromete o uso dos recursos de segurança pública.

O impacto financeiro das falsas chamadas não é mensurado pela Sejusp ou pela Polícia Civil. Segundo as instituições, o custo varia conforme as características de cada atendimento, como o número de policiais ou bombeiros mobilizados, o efetivo empregado, a distância dos locais e os recursos utilizados na operação. No caso da PC, também entra na conta a complexidade da verificação, a necessidade de diligências, oitivas, análises documentais e demais procedimentos investigativos – que custam tempo e dinheiro. 

Identificação de contatos ajuda a enfrentar o problema

Neste cenário que aponta para gastos desnecessários dos recursos destinados à segurança pública, aparece também uma perspectiva de enfrentamento já em curso pela pasta. As mais de 60 mil ligações com denúncias falsas neste semestre representam redução de 44% em comparação com o mesmo período de 2025,  que, quando houve  117.234 falsos registros.

Conforme a Sejusp, a queda é resultado da identificação de parte dos contatos que passam trote para as forças de segurança e o consequente bloqueio dos números. A pasta também informou que vem realizando, periodicamente, ações educativas e orientações à população sobre a utilização correta dos canais de emergência e denúncia. 

Trotes e comunicações falsas de crimes não apenas comprometem a eficiência do sistema de segurança pública, como também podem gerar responsabilização legal. É importante, porém, distinguir as denúncias feitas de boa-fé – ainda que, posteriormente, não sejam confirmadas – daquelas realizadas de forma deliberadamente falsa, com o objetivo de provocar a atuação indevida das autoridades. Neste último caso, o autor pode responder por crimes previstos na legislação, além de estar sujeito a sanções administrativas e, conforme a situação, ao pagamento de multa. 

Denúncias responsáveis fortalecem a segurança pública 

A análise dos dados também revela aumento da participação da população em denúncias às forças de segurança. Em comparação com o mesmo período do ano passado, Minas Gerais recebeu cerca de 45 mil ligações a mais. Ao todo, foram registradas, em média, 11.549 denúncias por dia no primeiro semestre de 2026.

O aumento das denúncias precisa ser acompanhado, também, da orientação de como usar esses canais com informações verdadeiras e mais precisas possível. Quem explica a importância desse cuidado é o professor de Direito Penal e advogado criminalista Gabriel Lanna. Segundo ele, é importante observar se há indícios concretos da prática de um crime ou de alguma irregularidade – além de manter um olhar atento para evitar ser guiado por  preconceitos ou estereótipos. 

O especialista ressalta que essa orientação não tem o objetivo de desestimular a população a comunicar suspeitas às autoridades, mas de incentivar uma reflexão prévia para que as denúncias sejam feitas apenas quando houver elementos que indiquem, de fato, a ocorrência de um crime.  A fim de evitar o que ele qualifica como um “desafio recorrente para o sistema de Justiça”. 

O especialista alerta que alguns tipos de violência seguem historicamente subnotificados, como os casos de violência doméstica contra a mulher. Ao abordar esse cenário,  Lanna destaca que um dos principais desafios é justamente o fato de muitas vítimas deixarem de denunciar por medo de represálias. Por isso, ele ressalta que o debate sobre denúncias falsas não pode servir para desencorajar mulheres a recorrer às autoridades quando sofrem violência. Da mesma forma, acrescenta, o atendimento às denunciantes deve ser conduzido com cuidado para evitar a revitimização.