‘Não tivemos tempo de ter luto’, diz moradora do Bairro Santa Rita que perdeu pai e casa

Chuvas causaram deslizamento na Rua Dr. Geraldo Paleta, e Defesa Civil ainda não deu laudo ou instruções para famílias


Por Elisabetta Mazocoli

12/03/2026 às 18h05- Atualizada 12/03/2026 às 19h06

santa rita
No Bairro Santa Rita, deslizamento atingiu casa entre segunda e terça-feira (Foto: Leonardo Costa)

“A gente estava dormindo. Acordei com minha irmã ligando, e atendi meio grogue de sono. Ela falou: ‘a gente foi soterrado’. Pedi pra ela repetir, não estava entendendo. Comecei a tremer. Ela falou pra gente ir pra lá, pediu ajuda, que meu pai não estava respirando”, conta Gislaine Silveira, 33. Foi assim que, na noite de segunda (23) para terça-feira (24) de fevereiro, ela soube do deslizamento que atingiu a casa da família, no Bairro Santa Rita, Região Leste de Juiz de Fora. O pai, Willian Cordeiro, foi a vítima fatal na Rua Dr. Geraldo Paleta, a mãe e a irmã foram resgatadas com vida pelos vizinhos, que conseguiram abrir o portão e ajudá-las. A família ainda segue com muitas feridas. Reabrir a porta da casa, semanas depois do ocorrido, é praticamente impossível. Além da mãe, Ana Lúcia Silveira, 65, que tem diabetes, continuar internada com uma grande ferida na perna e no pé, a incerteza sobre o futuro paira sobre aquela rua: a Defesa Civil ainda não atestou em laudo a situação da casa e tampouco deu instruções para as famílias que moram ali e fizeram, sozinhas, as interdições, tapando os buracos com lona. 

Gislaine morou com os pais na casa que desabou até 2019, quando se mudou para outro local. Na casa, ainda morava sua irmã do meio, Gislene, que foi quem fez a ligação. Ela viu o pai desfalecer na sua frente, pedindo para que o resgate priorizasse ele e a mãe. Quando a irmã conseguiu pegar no telefone e fazer contato, Gislene acordou o marido e a filha, ainda criança, para irem do Bairro Marilândia até o local tentarem ajudar a família. Mas ainda chovia muito em Juiz de Fora, e não conseguiram chegar a tempo. “Fui pro HPS esperar e pareceu uma eternidade”, relembra. Até que veio a notícia de que tinha chegado no hospital um homem, do Bairro Santa Rita, que não tinha sobrevivido. “Enterramos ele na terça. Não tivemos tempo de ter luto, porque é preocupação o tempo inteiro”, diz. 

A mãe da família sobreviveu após ter sido arremessada pela janela durante o deslizamento, e se encontra em choque pelos acontecimentos. “Ela ainda fica preocupada em pegar a escova que está no banheiro, as plantas dos fundos que perdeu. A gente só conseguiu entrar, com ajuda dos vizinhos, para pegar roupa de cama e roupa”, conta Gislaine. A principal preocupação, no momento, é com ela, que se encontra internada no HPS devido aos ferimentos que teve. Além disso, eles e outros moradores do bairro que também foram atingidos ainda não receberam suporte da Defesa Civil para determinar os próximos passos. 

Na última semana, um profissional fez o mapeamento com drone, mas as casas da rua não foram checadas individualmente. Com isso, a família ainda está na dúvida se irá receber um laudo ou novas instruções, já que boa parte dos pertences deles ainda estão dentro da casa atingida. “Meu pai era o arrimo de tudo. Queremos saber como seguir agora”, diz Gislaine. A esperança, agora, é saber se a irmã e a mãe irão conseguir moradia em um local seguro. 

Até o momento, ela destaca que “os moradores que fizeram tudo”, desde o salvamento da família até a interdição da rua e o tapamento dos buracos. Mas muitas pessoas seguem desrespeitando o risco que a rua apresenta, e motos e até carros continuam circulando bem próximos ao local.

‘Cenário de risco identificado’

Procurada pela Tribuna, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) informou, em nota, que “a Defesa Civil já realizou vistorias em imóveis da via, e que o restante está em andamento” e reforçou que “a orientação de evacuação permanece para o trecho da Rua Dr. Geraldo Paleta após o nº 400, em razão do cenário de risco identificado para a área”.

O texto afirma, ainda, que “as ações da Defesa Civil seguem sendo executadas conforme critérios técnicos de prioridade, de acordo com a gravidade de cada ocorrência e o volume de atendimentos em toda a cidade. O monitoramento das áreas afetadas continua sendo realizado permanentemente”.

Por fim, destaca que, “em situações de risco, a orientação é não realizar intervenções por conta própria e acionar imediatamente a Defesa Civil pelo 199”.