Pacientes vivem sob a incerteza

Nágila Ventura depende de medicamentos e teme perder o rim transplantado há um ano
O problema crônico de falta de medicamentos e insumos da rede SUS tem causado insegurança em muitos pacientes que dependem dessas substâncias para ter uma vida normal e, até mesmo, sobreviver. A ausência de remédios atinge tanto a farmácia do Estado quanto a do Município, afetando também os pacientes que possuem mandado judicial. Segundo a ouvidora Regional de Saúde, Samantha Borchear, as queixas são diárias, principalmente de falta de medicamentos de responsabilidade do Estado. A situação da escassez de insumos foi uma das principais causas para a interdição do Centro Cirúrgico do Hospital de Pronto Socorro (HPS), na última sexta-feira. No local, faltavam itens básicos, como luvas cirúrgicas, agulhas para raquianestesia, seringas descartáveis e álcool etílico. “A informação é que a Prefeitura vem buscando regularizar a situação. Mas o problema está generalizado. Ainda não tivemos nenhuma comprovação documental de solução por parte da Prefeitura”, afirmou ontem o promotor de Defesa da Saúde, Rodrigo Barros.
O medicamento com maior número de reclamação é o Galantamina hidrobroneto 16mg, segundo a ouvidora. Bosentana 125mg, Hidroxiureia, Codein 30mg, Micofenolato sódico e Octreotida também estão em falta, todos de responsabilidade do Estado. “É importante destacar que são medicamentos de alto custo, para doenças graves, como anemia falciforme, doença renal e para transplantados”, explica Samantha.
Transplantados
No Dia Mundial do Rim, celebrado hoje, apesar de ter conseguido um doador compatível, Nágila Ventura, 48 anos, não tem muito o que comemorar. Com somente uma cartela do Micofenolato sódico, ela está com medo de perder seu rim, transplantado há apenas um ano. “Eu dependo desse medicamento para manter a minha nova condição, pois é ele que impede que haja rejeição ao órgão. A gente já sofre para conseguir um rim. Eu esperei dois anos por um doador.” A última cartela de Nágila possui apenas dez comprimidos. Ela consome quatro por dia. Se o remédio não chegar até amanhã, Nágila estará em situação de risco. “Eu vou lá (na farmácia do Estado) todos os dias, mas eles nunca têm previsão de quando o medicamento vai chegar.” Segundo Nágila, a falta das substâncias é constante. Em outubro do ano passado, a farmácia ficou um mês desabastecida do Tacrolino, que precisa ser administrado junto com o Micofenolato sódico.
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Maurício Amaral, 38, percorreu os 245 quilômetros entre Carangola e Juiz de Fora para ouvir que seu medicamento, o Micofenolato sódico, não havia chegado. Ele vem todo mês buscar os produtos e não é raro ir embora de mãos abanando. “Ninguém nos liga para avisar quando acaba.”
A enfermeira do ambulatório de transplantes do Centro de Tratamento de Doenças Renais (CTDR) Kamille Vidon explica que a falta do Micofenolato pode acarretar na rejeição do rim pelo organismo do paciente. “Quando um transplantado perde o rim, ele tem que voltar para a hemodiálise, e as chances de aceitação do organismo para um segundo transplante são reduzidas.” Outro medicamento em falta, que atinge os pacientes com insuficiência renal crônica, é o Noripurum. “Esses pacientes possuem anemia, e o medicamento tenta equilibrar o organismo para evitar que ela se agrave. Sem ele, o tratamento fica comprometido”, conta o enfermeiro do setor de hemodiálise do CTDR, André Cerqueira.
A Tribuna entrou em contato com a Secretaria de Estado de Saúde, mas não obteve retorno.
Itens em falta nas unidades de saúde
Apesar do prazo estipulado até o dia 10 de fevereiro para que a Secretaria de Saúde encontrasse uma solução para a falta de medicamentos no município, as reclamações de desabastecimento continuam constantes. Segundo o promotor de Defesa da Saúde, Rodrigo Barros, em reunião realizada em janeiro, a Prefeitura havia alegado que o atraso da disponibilidade dos medicamentos nas unidades de atenção primária à saúde (Uaps) era em decorrência do atraso no pagamento dos fornecedores. “Naquele final de mês, a Prefeitura iria equacionar o pagamento com os fornecedores para regular a entrega dos medicamentos.” No entanto, a situação ainda não se regularizou.
Entre os itens não encontrados nas unidades estão Omeprazol, Sinvastatina, Clonazepan, Fenobarbital, Fluoxetina, Carbonato de lítio, Cabornato de Cálcio, Losartan e Carvedilol. Apesar do desabastecimento, a ouvidora Regional de Saúde, Samantha Borchear, conta que as reclamações relativas ao produtos de responsabilidade do município reduziram. “Chegamos, no mês passado, a receber três queixas ao dia. Mas, da última semana de fevereiro para cá, recebemos três a quatro por semana somente.”
A assessoria da Secretaria de Saúde informou que possui o Omeprazol, a Fluoxetina, o Carbonato de lítio, o Losartan e o Carvedilol. A pasta aguarda a Sinvastatina e o Clonazepan serem entregues. Já o Carbonato de Cálcio está em falta.
Mandados
Até mesmo quem conseguiu na Justiça o direito a medicamentos tem sofrido com o desabastecimento. O filho do funcionário público Fernando Rozini pega as insulinas Novorapid e Lantus há oito anos no setor de mandados judiciais. No entanto, a falta do remédio tem sido constante. “O último que peguei foi no início de fevereiro. Agora, estou tendo que comprar. O organismo do meu filho não aceita a insulina NPH, fornecida pelo SUS. Ele chegou a entrar em coma com essa insulina. Depois que trocou, passou a ter uma vida normal. Mas sem eles, sua saúde fica comprometida. Estão descumprindo uma ordem judicial. Eu vou lá sempre, e eles dizem que não tem previsão de quando vai chegar.” Fernando gasta com o Novorapid em torno de R$ 130 por mês. Já com o Lantus, ele gasta R$ 400.
A assessoria da Secretaria de Saúde disse que as insulinas mencionadas deveriam ter chegado há duas semanas, mas o fornecedor ainda não entregou.








