‘Não termina a missão’, afirma dom Gil sobre sucessão na Arquidiocese

Em entrevista à Rede Tribuna de Comunicação, arcebispo comenta pedido aceito pelo pontífice e transição no governo eclesial


Por Mariana Souza*

12/01/2026 às 18h22

Dom Gil Divulgacao
Dom Gil Antônio Moreira, que teve a renúncia aceita pelo papa Leão XIV, permanecerá à frente da Arquidiocese de Juiz de Fora como administrador apostólico até a posse de dom Marco Aurélio Gubiotti, em 7 de março (Foto: Reprodução)

“Termina o governo, termina a função, mas não termina a missão.” A frase, ita durante entrevista à Rede Tribuna de Comunicação, ecoa como despedida e promessa na voz de dom Gil Moreira, desde que o papa Leão XIV aceitou seu pedido de renúncia na última quinta-feira (8). Com o sucessor já nomeado, ele permanece à frente da Arquidiocese de Juiz de Fora como administrador apostólico – com os mesmos direitos e deveres do arcebispo metropolitano – até que o novo tempo se inaugure na posse de dom Marco Aurélio Gubiotti, marcada para 7 de março.

À frente da Igreja juiz-forana há 17 anos, o arcebispo – que completou 75 anos em outubro – explica que a decisão segue o rito previsto na legislação da Igreja Católica, que faz dessa idade um marco para a apresentação do pedido de renúncia. A orientação busca, com a cadência do tempo, renovar o quadro hierárquico, abrindo caminho para novos bispos e para outras maneiras de enfrentar os desafios da fé. “Eu vejo com os olhos da fé, porque, na verdade, todo mundo tem um limite de trabalho. E, quando a Igreja propõe o limite dos 75 anos, ela é sábia”, analisa.

Com a renúncia entregue ao papa Leão XIV, dom Gil revive o instante em que o encontrou, em julho, no Vaticano: o que seria um encontro breve, de 15 minutos, se alongou por 30, como se o tempo também entendesse a gravidade da missão. Naquela mesma viagem, ele se aproximou de quem o sucederia e decidiu incluir seu nome na lista de indicados – um gesto de confiança, oferecido ao discernimento do pontífice.

“Ele sorriu, e conversamos um pouco sobre quando seria. Então me pediu: ‘Fique mais ou menos uns seis meses, até que eu encontre o seu sucessor.’ Essa foi a palavra dele.”

Dom Gil afirma que a sucessão episcopal é, antes de tudo, um caminho espiritual ligado à própria vocação, já que o bispo sabe que há um tempo para conduzir e, quando chega a hora, é sucedido por decisão do papa. Ele explica que o processo inclui consultas reservadas a bispos e arcebispos, a formação de uma lista na Nunciatura, a avaliação em Roma e, por fim, a escolha do pontífice, sempre acompanhada de oração. Para ele, embora a nomeação seja assinada pelo papa, a decisão última se dá no horizonte da fé: “o papa nomeia, mas quem escolhe é Deus.”

Centrado em Cristo

Dom Gil entrega carta de renuncia Divulgacao
(Foto: Divulgação)

Dom Gil diz que, no encontro, viu no papa um pastor centrado e seguro da própria missão – impressão que, segundo ele, se confirma em documentos, sermões e discursos que o pontífice tem feito. Na leitura do arcebispo, há um eixo claro: a intenção de recentrar tudo em Cristo. Por isso, diz, o papa não inicia reflexões – seja sobre um problema social, seja sobre qualquer outro tema – sem antes ancorá-las em Cristo.

“Encontrei um homem muito sereno, seguro da própria função e daquilo que está fazendo. Ele tem um pensamento reto e coerente, além de uma simplicidade na vida espiritual, que considero um grande valor. É um homem de oração, com piedade interior.”

Além disso, o (ainda) arcebispo avalia que o papa Leão XIV está profundamente centrado nessa perspectiva e tem a consciência de que, a partir de Cristo, a Igreja cumpre um papel iluminador. Para dom Gil, esse ponto é decisivo. Ele explica que, diante de um problema social, é possível começar pela questão em si, a partir de uma análise social, ou partir de Cristo. Na visão dele, mesmo quando se faz primeiro a análise e só depois se busca a referência cristã, o caminho não é o mais adequado. Dom Gil diz que foi essa a mentalidade que percebeu – e tem percebido – no papa: Cristo vem antes.

O ofício que se aprende no caminho

Questionado sobre o próprio ministério e os aprendizados do caminho, dom Gil reflete que o verdadeiro sentido do chamado e do desígnio de Deus só se revela plenamente quando se assume o posto. Ainda assim, ele recorda com afeto a trajetória que o preparou para ser pastor em Juiz de Fora, marcada por experiências formativas, pelo convívio próximo com bispos e pelo aprendizado silencioso, antes mesmo de imaginar que um dia seria bispo. Ao longo dos anos, diz ter descoberto na comunhão com padres, diáconos e leigos o coração da missão, entre desafios naturais e a beleza de tantas vidas dedicadas à fé. Para ele, essa convivência cotidiana é o que faz a Igreja seguir adiante “nos caminhos de Deus”.

Com o posto, dom Gil diz que chegam também a autoridade e o peso da responsabilidade. Ele avalia que é preciso estar próximo, escutar, refletir diante de Deus sobre as decisões e só então agir, quando houver a certeza de que a medida serve ao bem das pessoas e da Igreja. Para ele, é nessa costura entre proximidade e autoridade que a missão ganha forma e sentido.

“O bispo, sem dúvida, é uma autoridade nomeada pelo papa para governar. Portanto, ele é o responsável pelo governo de uma arquidiocese. E eu tenho responsabilidades muito sérias com isso, previstas pela legislação da Igreja. Mas a gente também encontra problemas a serem resolvidos. São problemas para os quais a gente precisa dar encaminhamento como autoridade, mas, ao mesmo tempo, é preciso estar próximo e saber escutar.”

Para traduzir essa postura, dom Gil recorre a um antigo ditado latino que, segundo ele, expressa com clareza a forma como entende o exercício do ministério: fortiter et suaviter, agir com firmeza e suavidade. O princípio, explica, orienta a não se esquivar do que precisa ser feito – inclusive das cobranças necessárias -, mas a fazê-lo com segurança e força, sem perder a delicadeza de um pai e a proximidade de um irmão, preservando sempre a relação fraterna, paterna e eclesial.

Ao recordar os principais marcos do período em que esteve à frente da Arquidiocese, dom Gil aponta três momentos que, para ele, desenham o coração desses 17 anos. O primeiro é a realização de dois sínodos, entendidos como um convite para a Igreja “caminhar junto” com padres, diáconos, leigos e fiéis, em uma construção coletiva. O segundo sínodo, diz, ganhou um contorno inesperado com a pandemia, que obrigou a reconfigurar etapas e métodos e acabou revelando a força dos meios de comunicação para manter viva a participação do povo. Diante desse percurso, ele resume a experiência com fé: “Deus nos precede, Deus não dorme, Deus está sempre à frente.”

O terceiro destaque é o Congresso Eucarístico de 2023, que, segundo ele, reuniu uma adesão acima do esperado e se desdobrou em formações, celebrações, procissões e momentos de adoração. Para dom Gil, são acontecimentos que, no eixo da pastoral e da espiritualidade, ajudam a contar essa travessia.

A travessia da pandemia e as feridas sociais

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(Foto: Divulgação)

Além dos sínodos, dom Gil identifica a pandemia como um marco de sua trajetória à frente da Arquidiocese. Ele recorda esse período como um tempo completamente distinto de tudo o que havia vivido antes, marcado por profundas transformações sociais e por exigências inéditas para a Igreja. Foi uma experiência que atravessou não apenas a realidade local, mas o mundo inteiro, e que deixou marcas profundas nesses 17 anos de caminhada. Entre os aprendizados, ele destaca a dor de celebrar à distância, quando a presença física precisou ser substituída pela transmissão. Como ele próprio define, “doeu no coração”. E resume o impacto daquele tempo com a imagem que mais o marcou: “celebrar e ver os bancos vazios, sabendo que o povo estava do outro lado, unido, mas sem a presença física, foi impactante”.

Mesmo com a travessia dos últimos anos, dom Gil aponta que os desafios sociais continuam batendo à porta da Igreja, sobretudo a pobreza e a indigência que atingem tantas vidas. Ele lembra que, na Arquidiocese de Juiz de Fora, a atenção aos mais vulneráveis já vinha sendo construída por bispos anteriores, mas ganhou novo fôlego a partir de 2015, quando a Arquidiocese assumiu a gestão do Instituto Padre João Emílio, obra centenária antes conduzida pelas irmãs do Bom Pastor. Desde então, diz, o trabalho foi intensificado, com atendimento a cerca de 200 crianças no contraturno, em ações que vão além do reforço escolar e alcançam alimentação, educação, presença e solidariedade, envolvendo também as famílias.

Como exemplo do mesmo cuidado, ele cita a atuação dos Jovens Missionários Continentais, surgidos no pós-Jornada Mundial da Juventude, que hoje ampliam a missão tanto na espiritualidade quanto na assistência e na caridade. Para dom Gil, é ali, no chão da necessidade, que a fé se mede e se compromete: “a proximidade e a solidariedade com essas crianças e com as cerca de 200 famílias delas são um desafio”.

Entre polarização e ideologia: o perigo do extremismo

Dom Gil fala do extremismo como quem aponta um risco que se aproxima por mais de um caminho. Para ele, a ameaça tem dois sentidos, e o primeiro nasce no terreno social, quando a política se deixa tomar pelo fanatismo e a polarização vira regra. Nesse cenário, diz, a Igreja precisa se manter de pé no eixo do equilíbrio. “Com essa polarização, a Igreja precisa ter equilíbrio.” E, ao lembrar o lugar de onde se fala e se celebra, ele faz um alerta direto: “Os padres não podem transformar, por exemplo, o altar em palanque.” Porque, insiste, “o altar não pode ser palanque político” e, “por isso, o extremismo deve ser evitado completamente”.

O segundo risco, na leitura do arcebispo, mora no campo da ideologia, onde as certezas endurecem e a escuta se fecha. “Ideologia é um perigo: ela fanatiza, fecha os olhos, tranca a cabeça.” Por isso, ele defende vigilância constante para que esse tipo de pensamento não encontre espaço dentro da Igreja. “É preciso muito cuidado para evitar que ideologias penetrem na Igreja.” Dom Gil lembra que a Igreja não se organiza como uma bandeira, mas como um caminho. “A Igreja não é ideológica; ela tem princípios.” E, no centro de tudo, ele reafirma a bússola que não deve se perder: “Mas o fundamento é Cristo.”

Ao falar dos excessos que também podem surgir no modo de celebrar, ele recorda que a Igreja caminha no tempo e com o tempo. “Nós temos o tempo e devemos obedecer à Igreja nas suas orientações e observar aquilo que é do momento atual.” Ainda assim, faz o alerta final: “Outro extremismo que pode haver é na liturgia.”

Juventude e a fé em muitas linguagens

Ao olhar para os 17 anos em que conduziu a Arquidiocese, dom Gil diz perceber, com simplicidade e gratidão, uma mudança nítida: a juventude se tornou mais presente e mais intensa dentro das comunidades. Ele conta que hoje enxerga um engajamento forte, alimentado por uma rede de iniciativas de formação e evangelização que se ampliou ao longo do tempo, somando-se àquelas que já existiam e seguiam cumprindo esse papel com consistência. Para ele, esse movimento se confirma também no que se vê nas ruas e no passo coletivo da fé. A Caminhada dos Jovens para o Morro do Cristo, criada para o segundo domingo da Quaresma, reúne cerca de cinco a seis mil participantes, vindos das paróquias, onde, como ele descreve, os jovens vivem uma vida de juventude intensa. É nessa soma de presenças, encontros e continuidade que ele reconhece um sinal concreto de crescimento do número de jovens que participam das comunidades, motivo pelo qual afirma agradecer a Deus.

Ao falar da diversidade de vivências espirituais, dom Gil prefere a imagem que acolhe em vez de separar: “A Igreja é um jardim, com muitas flores: matizes diferentes, jeitos diferentes.” Ele diz que a liturgia nas paróquias, iluminada pelo Concílio Vaticano II, permanece como referência e observa, com alívio e gratidão, que, nesse campo, a Arquidiocese não enfrenta problemas. Mas, sem se desligar desse modelo, ele aponta que existem outras expressões legítimas de espiritualidade e de serviço, como movimentos de oração e frentes de caridade e ação social, com obras que se desdobram em diferentes formas de cuidado.

Para dom Gil, há quem se encontre melhor numa celebração mais concentrada e quem se identifique com uma liturgia mais aberta e viva; o que importa é que essa pluralidade não se afaste das regras litúrgicas e se mantenha no essencial. No fim, insiste, todas essas flores pertencem ao mesmo canteiro – e precisam ser cuidadas, porque “o canteiro de Deus é assim – e tudo deve ser feito para Ele”.

O sucessor: oração, acolhida e continuidade

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(Foto: Divulgação)

Em entrevista ao programa Tribuna no Ar, da Rádio Antena 1, dom Gil conta que a espera pelo nome de dom Marco Aurélio foi atravessada por um fio constante de oração. Ele diz que tinha apreço pelo sucessor, que estava entre os nomes apresentados a Roma a pedido da Santa Sé, mas lembra que, até a escolha se confirmar, tudo era vivido como confiança e entrega. Sem saber quem viria, ele relata que rezava junto do povo, repetindo que o novo arcebispo ainda era desconhecido, que nem o papa havia decidido, mas que Deus já sabia. Por isso, pedia acolhida desde antes do anúncio, como quem prepara a casa por dentro, independentemente do nome.

Quando a decisão se definiu por dom Marco Aurélio, dom Gil afirma que sentiu alegria por ver confirmada uma indicação que ele próprio havia levado e projeta para o novo tempo o desejo de continuidade e crescimento. Ele espera que o sucessor valorize o que a Igreja de Juiz de Fora tem de belo, não apenas no período mais recente, mas também como herança dos bispos anteriores. Dom Gil se coloca nessa linha do tempo, lembrando que foi o sexto bispo e que dom Marco Aurélio será o sétimo, numa história que não começa nele e não termina com ele. Para além da continuidade, ele aposta no que ainda pode florescer, reconhecendo competência e capacidade no sucessor, e reforça a expectativa de que a caminhada siga adiante, com novas iniciativas e ainda mais alcance. “Que a Igreja de Juiz de Fora continue crescendo – e cresça ainda mais – com o nosso querido dom Marco Aurélio.”

Ao falar de si no instante em que se despede do governo, dom Gil traduz o que deseja carregar como palavra de travessia e horizonte, como quem não encerra, mas entrega. “Eu digo a dom Gil: perseverança.” Ele retoma, então, a ideia que volta como eixo de tudo: o cargo passa, a missão permanece. E, ao lembrar o caminho percorrido, diz sair com satisfação e gratidão, sobretudo pela convivência com o povo da região, na cidade que aprendeu a habitar com o coração, entre Juiz de Fora e tantas outras comunidades da Zona da Mata.

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