Moradores esvaziam casas e demolições começam no Cruzeiro do Sul
Barranco desceu até o Graminha no dia das chuvas, onde moradores também enfrentam problemas

Casas que foram interditadas pela Defesa Civil começaram a ser demolidas na manhã desta quarta-feira (11), no Bairro Cruzeiro do Sul. Os moradores foram orientados a retirar seus pertences dos imóveis para que os trabalhos pudessem começar. As obras na Rua Waldomiro Eloy do Amaral foram adiantadas pelas equipes da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) devido à instabilidade do tempo na cidade. A encosta em questão faz divisa com o Bairro Graminha, e parte do barranco desceu quando ocorreram as chuvas — mesmo com as obras, os moradores seguem inseguros.
A moradora Luciana dos Santos Guedes, 48, recebeu a notícia de que sua casa precisaria ser demolida na noite anterior, mas a data estava marcada para quinta-feira (12). Devido à instabilidade no tempo, no entanto, ela foi avisada pela Defesa Civil que os trabalhos teriam que começar antes. Ela foi para o imóvel no qual morou até o dia das chuvas na cidade às 5h da manhã, buscando tentar tirar os últimos móveis do local.
“É muito ruim. É um sonho que você luta, todo dia eu chegava e arrumava a casa, cada coisa que dava pra arrumar era uma felicidade”, conta. Ela entende que, neste momento, a prioridade é a segurança dos moradores e que o imóvel precisa ser demolido, mas a dor permanece: a casa tinha acabado de ser quitada, em 22 de dezembro.
Luciana é apenas uma das várias moradoras da rua que estão contabilizando as perdas e aguardando o auxílio da PJF e do Governo para determinar seus próximos passos. No momento, ela está vivendo de aluguel, em uma casa próxima do local, mas em uma rua considerada sem riscos.
“Dos 27 aos 47 anos, lutei pra ter essa casa. E agora, vejo ela assim”, diz. A moradora continua acompanhando os trabalhos para ver o que irá restar de parte de sua história. Ela também acompanha a situação de vizinhos que tinham acabado de realizar reformas e, agora, têm as casas demolidas. Luciana relata que um deles chegou a gastar R$10 mil no porcelanato da casa, outro só deixou o imóvel depois que ela chamou. “Meus nervos estão pulando, mas só saio daqui a hora que tiver o último tijolo no chão.”
A secretária de Desenvolvimento Urbano com Participação Popular (Sedupp), Cidinha Louzada, está acompanhando as obras no bairro. “A gente não sabe se a quantidade de chuva que vem pode fazer com que as pessoas percam o que ainda têm. Estamos priorizando que as pessoas levem o que puder de suas casas e, após isso, vamos começar a demolição”, informa. As dificuldades técnicas no local, no entanto, envolvem a rua ser bastante estreita, o que dificulta que o maquinário entre no local. “É necessário que esteja tudo limpo para ter segurança não só aqui, mas também lá embaixo, para não cair terra nas pessoas. Estamos com todo o corpo técnico aqui para garantir a segurança”, diz.
Moradores do Graminha temem cenário
Desde que as chuvas atingiram a cidade, o dia a dia no Bairro Graminha foi definido pelos moradores como precária. É o que contou Miriam Ambrósio, 53, Agnaldo de Oliveira, 50, e Antônio Carvalho, 61. Todos eles moram há décadas no local e entendem que o problema no bairro é histórico, mas afirmam nunca ter visto nada parecido com o que está acontecendo agora. Apesar de suas casas não terem sido atingidas, as principais dificuldades que estão enfrentando são o deslocamento para fora do bairro e a insegurança com o barranco que deslizou na via que atravessam.
Devido à situação, o local pelo qual a diarista Miriam Ambrósio passa está interditado, e ela relata que precisa pegar o ônibus que passa pela estrada União Indústria ou usar o atalho feito pelos moradores para cortar caminho. “Não tenho coragem de andar aqui de noite sozinha. Esse bairro é esquecido”, diz. A situação se agrava quando as chuvas começam. O mesmo conta Agnaldo: “Eu sei que a cidade está toda comprometida, mas aqui não temos saída”, afirma. A situação já tinha sido narrada à Tribuna no dia 1º de março, mas ainda não se resolveu. A demora também piora os receios. “Minha mãe está com 85 anos. É perigoso, esta semana ela teve uma consulta e perdeu”, conta Antônio.

