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Abusos persistem em nova Área Azul


Por EDUARDO VALENTE

10/04/2015 às 06h00- Atualizada 10/04/2015 às 09h53

A usuária Elizabet Moreto encontra parquímetro com defeito na Rua Braz Bernardino e afirma que problema é recorrente (marcelo ribeiro/09-04-15)

A usuária Elizabet Moreto encontra parquímetro com defeito na Rua Braz Bernardino e afirma que problema é recorrente (marcelo ribeiro/09-04-15)

Criar mecanismos para garantir a rotatividade era uma das propostas do novo estacionamento rotativo pago de Juiz de Fora, a Área Azul Digital. No entanto, um mês após a implantação do novo sistema, esse objetivo ainda tem se mostrado falho nas ruas, já que carros permanecem parados por períodos acima do permitido, enquanto vendedores ainda utilizam as vagas para comercializar automóveis no Centro. Somam-se a estes problemas reclamações dos usuários quanto às dificuldades em usar os parquímetros e a escassez de monitores para orientá-los. Alguns usuários admitem não adquirir créditos por não se sentirem ameaçados pela fiscalização. A Tribuna foi às ruas para ouvir condutores que dependem do serviço, agora de responsabilidade da Estapar. Muitos questionam sua eficácia, enquanto outros lamentam que problemas da antiga gestão ainda ocorram, sem previsão de melhora.

Na Rua Batista de Oliveira, entre a Rua Floriano Peixoto e a Avenida Getúlio Vargas, a comercialização de automóveis permanece. E o pior: os carros colocados à venda passam o dia todo na via, como a reportagem pôde comprovar em 26 de março. A primeira imagem, 12h32, mostrava uma sequência de sete veículos parados nas vagas, antes da Rua Fonseca Hermes, sendo três deles com alguma identificação de venda. Ao retornar ao local, 16h17, portanto três horas e 45 minutos após o primeiro registro, os mesmos carros permaneciam nos mesmos espaços. Antes de o novo modelo começar a operar, a expectativa era que situações como essas deixassem de acontecer, pois agora é possível somente comprar créditos duas vezes para cada setor.

No Bairro São Mateus, Zona Sul, a falta de rotatividade tira a paciência dos comerciantes que apostam no serviço como ferramenta para disciplinar as vagas. Este é o caso de Fernanda Alvim, 40 anos, proprietária de um açougue. Ela afirma que não percebe o rodízio dos espaços ao longo do dia, fato que já era recorrente com o modelo anterior. “Chego à Rua São Mateus às 7h30 e vou embora às 20h, e ainda não vi, desde a implantação da nova Área Azul, agentes autuando carros que não pagam pelas vagas. Alguns dias, vi os monitores com o palmtop na mão (ferramenta para verificação, on-line, se aquela placa está regularizada para estacionar), mas isso só a partir de 1º de abril. E, mesmo assim, os agentes não vêm multar. Quando ligo para a Settra, dizem não ter agentes disponíveis.” Situações como essa irritam também os usuários, que não encontram vagas disponíveis no bairro. “No São Mateus, é quase impossível conseguir vaga porque a rotatividade não existe. São os mesmos carros parados durante todo o dia, sem aplicação das multas”, lamentou o balconista Ivan dos Santos, 37.

Durante dois dias (25 e 26 de março), um veículo foi visto pela reportagem parado na Rua São Mateus na mesma vaga, em horários distintos. No flagrante do segundo dia, às 16h27, uma fiscal da empresa Estapar passava ao lado do carro, sem emitir aviso ao proprietário. Isso porque o automóvel já havia sido encontrado, no mesmo local, às 12h52, portanto, 3h35 minutos após o primeiro registro. Ou seja, se o veículo tivesse sido estacionado 12h50, ele poderia ficar naquela rua até 15h50, respeitando o prazo de 90 minutos para cada crédito adquirido e o limite de duas aquisições por setor a cada dia.

Na Rua Antônio Dias, Granbery, um professor que pediu para não ser identificado, admitiu não comprar o crédito todas as vezes. “Alguns conhecidos me falaram que ninguém vem multar, e tenho percebido que isso, de fato, acontece.”

Parquímetros inoperantes

Já na Rua Braz Bernardino, o questionamento na Área Azul é com relação à funcionalidade dos parquímetros. Na tarde da última segunda-feira, os dois equipamentos da rua estavam inoperantes, por volta das 16h. Quando a reportagem passava pelo local, um técnico da empresa trabalhava na correção de um dos dispositivos. “Um não aceita moeda, só cartão. Este daqui (mais próximo da Rio Branco) está inacessível, pois não responde a nenhum comando. Este tipo de problema não é isolado e ocorre frequentemente. Piorou com o sistema, e isso dobrando o preço cobrado”, disse a comerciante Elizabet Moreto, 56.

De acordo com o titular da Settra, Rodrigo Tortoriello, os relatórios que a Estapar entregam com relação aos defeitos mostram que eles ocorrem por má utilização dos usuários. Entre as falhas, estão inserir moedas com fita adesiva ou forçar a retirada do recibo da máquina, o que causaria problemas na impressora.

Conforme a Estapar, os equipamentos transmitem informações à central em tempo real e, recentemente, não há reclamações registradas. Mesmo assim, constatado o problema, um técnico é deslocado para efetuar o reparo do aparelho de forma a evitar transtornos à população. A empresa também reforçou que os tíquetes podem ser retirados de qualquer parquímetro, até aqueles instalados em outros setores.

Vaga inteligente

A empresa também incentiva o uso do aplicativo para smartphone Vaga Inteligente, para que a compra dos créditos seja feita sem a necessidade de ir aos parquímetros. Além disso, há a possibilidade de habilitar o uso das vagas por meio de SMS ou telefone. Para incentivar o uso do aplicativo, a Estapar promove uma campanha, que iniciou no dia 30 e março e vai até o próximo dia 25, com o auxílio de 15 orientadores temporários. “A mobilização está acontecendo em semáforos e setores próximo à Prefeitura, orientando os clientes e disponibilizando conexão para o download do aplicativo através de smartphones.” A explicação de como utilizar cada ferramenta está disponível no site www.estapar.com.br/juizdefora.

Reforço gradativo na fiscalização

Conforme o titular da Settra, Rodrigo Tortoriello, o foco no primeiro mês de implantação da Área Azul Digital não era na fiscalização, e sim na orientação e adequação dos usuários com relação às novidades. Mesmo assim, as multas foram registradas em casos considerados graves. “Só na Batista de Oliveira, registramos 24 autuações no primeiro mês e, desde o início de abril, intensificamos este trabalho, principalmente nos pontos considerados problemáticos”, explicou, acrescentando que a participação dos fiscais aumentará, gradativamente, nos próximos meses. A previsão é que, em até 60 dias, todo o sistema seja implantado.

Desde 30 de março, os monitores da empresa Estapar, conforme Rodrigo, já utilizam uma tecnologia chamada de PDA para comunicar as irregularidades à Settra. Por meio de um aplicativo em smartphone, eles conseguem verificar se a placa está regulamentada para estacionar, fotografar o veículo e enviar as informações à secretaria. A partir disso, os agentes podem ser deslocados para para registrar a infração. O mesmo sistema permite à empresa e à Settra saberem, em tempo real, onde os monitores estão.

Nas próximas semanas, chegará à cidade um veículo que irá transitar por todas as vagas. Acoplado por câmeras no teto e integrado a um sistema, ao passar pelas vagas, o carro saberá se o automóvel parado está ou não regulamentado. Caso negativo, a informação também será enviada à central da Settra para que o agente de trânsito se desloque até o local. Posteriormente, segundo Tortoriello, existe a intenção de colocar um agente neste carro.

Por meio de nota, a assessoria de comunicação da Estapar esclareceu que o período ainda é de adaptação dos usuários, com ênfase na educação e orientação. Outras dúvidas podem ser esclarecidas por meio da Central de Atendimento, no telefone 3025-0001.

Com relação à venda de automóveis em espaços destinados ao rotativo pago, a Secretaria de Atividades Urbanas (SAU), por meio de sua assessoria de comunicação, informou que a fiscalização ocorre diariamente, com o levantamento das placas dos automóveis com identificação de venda. Quando a irregularidade é constatada, fato observado todos os dias, é lavrado auto de infração previsto no artigo 62 do Código de Posturas do Município, que cita a proibição de comércio irregular em via púbica. Neste caso, a multa é de R$ 619,10.