Juiz de Fora atinge 100% das chuvas previstas de janeiro a outubro
Apesar do volume acumulado dentro da média histórica, especialista alerta para a má distribuição das precipitações no período, impedindo a recuperação plena dos mananciais e do lençol freático
O acumulado de chuvas em Juiz de Fora no ano de 2021, considerando o período entre janeiro e outubro, alcançou exatos 100% do total previsto pela média histórica do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), que leva em consideração o comportamento das precipitações na cidade nos últimos 30 anos. Foram contabilizados, nesses dez meses, 1.147 milímetros de chuvas, apenas 3,5 milímetros a mais do que o previsto. O que parece ser uma condição confortável, dada a crise hídrica que preocupa em todo o país, na verdade, esconde um cenário de alerta: a má distribuição das precipitações ao longo do período.
O mês de outubro é emblemático para exemplificar o comportamento das chuvas em 2021. Isso porque choveu, em 31 dias, 270 milímetros, índice que representa pouco mais do dobro da média histórica, que é de 132 milímetros. Isso significa que apenas esse mês acumulou 25% de todas as chuvas esperadas nos dez primeiros meses do ano. Em condições consideradas típicas, este peso seria de 12%.
“O problema é que as chuvas mais concentradas, e mal distribuídas, levam a uma menor capacidade de armazenamento de água nos mananciais, mesmo que no acumulado os números mostrem um cenário dentro do normal”, explicou a climatologista da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Cássia Ferreira, doutora em geografia que possui diversos estudos sobre o tempo e o clima de Juiz de Fora.
A especialista explica que a acumulação de água da chuva, importante para os mananciais de abastecimento e geração de energia, é mais eficiente quando há uma distribuição das precipitações dentro do período esperado. “Quando (a chuva) vem muito concentrada, e consequentemente má distribuída, essa capacidade é reduzida.”
Outro exemplo, que mostra como as chuvas se comportaram de forma irregular em 2021, até o momento, está no mês de janeiro, um dos únicos este ano com precipitações próximas do esperado pela média histórica (ver quadro). Foram 339 milímetros, contra 322,1 da média histórica. Entretanto, o acumulado foi concentrado nos 13 primeiros dias do mês. A partir do dia 14, a cidade enfrentou uma forte estiagem em pleno período de instabilidade atmosférica, que perdurou até 6 de fevereiro, ou seja, 23 dias consecutivos.
Fatores
Não é possível afirmar, categoricamente, a que se deve este cenário de distribuição irregular das chuvas. A primavera, por exemplo, está sob efeito do fenômeno La Niña, caracterizado pela intensificação de correntes de ventos e resfriamento das águas do oceano Pacifico Equatorial. Conforme a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês), o resultado disso, no Brasil, é abundância de chuvas na Amazônia, com aumento na vazão dos rios e enchentes. Entretanto, no Sudeste, os efeitos são imprevisíveis.

Há também a ampla discussão do aquecimento global, resultado da emissão de gases poluentes na atmosfera que tem como efeito colateral a mudança no regime de tempo e temperatura em todo o planeta.
Na avaliação de Cássia Ferreira, a combinação de ambos os fenômenos pode explicar o atual cenário observado em Juiz de Fora. “Mas também pode ser nenhum deles, apenas a própria variabilidade de chuvas, o que é também comum. Já tivemos até mesmo anos com influência do La Niña onde este quadro não foi apresentado”, explicou. Isso porque, embora haja uma média de chuvas esperada em todo o ano – e de forma mais analítica, um comportamento previsto a cada mês – essa não é uma receita de bolo. Ou seja, a média histórica pode sofrer oscilações de um ano para o outro.
Chapéu D’Uvas minimiza consequências
As represas que abastecem Juiz de Fora estão em situação confortável, apesar das chuvas irregulares. A entrada de Chapéu D’Uvas no sistema de captação de água deixou a cidade em certo conforto hídrico, uma vez que o município, hoje, dispõe de capacidade de armazenamento maior que a sua demanda. Desta forma, a Represa de São Pedro, que é pequena, consegue ser preservada em períodos de longa estiagem, ao mesmo tempo em que se recupera com poucas chuvas.

João Penido, que até 2017 era a principal fonte de captação de água na cidade, também se beneficia com a entrada de Chapéu D’Uvas no sistema. Um exemplo está na situação atual, se comparada com 2020. No momento, o lago está 82% preenchido, conforme dados da Cesama da última quinta-feira (4). No mesmo dia, no ano passado, o volume era de 54%.
A diferença é que 2020 também foi um ano de muita irregularidade no sistema de chuvas, com acumulados abaixo da média histórica entre março e outubro, seguidamente. Ou seja, a recuperação ampla do manancial se deu entre novembro do ano passado e fevereiro deste ano, possibilitando preservar o volume desde então.
Chapéu D’Uvas, 11 vezes maior que João Penido em possibilidade de acumulação, está atualmente com 57,7% do manancial preenchido de água, contra 62,1% de 2020, o que demonstra esta maior utilização.
Manobras operacionais
De acordo com o diretor-presidente da Cesama, Júlio César Teixeira, a entrada de Chapéu D’Uvas no sistema de abastecimento da cidade trouxe conforto para que a cidade possa garantir a distribuição de água mesmo quando os efeitos das mudanças climáticas ficam evidentes. “Temos chuvas torrenciais concentradas em poucos dias, e longos períodos de estiagem. Por isso é tão importante que este sistema funcione bem, não só nas represas e estações de tratamento, mas também criando as adutoras que interligam estes locais.
Atualmente estamos construindo a quarta adutora para interligar as represas, cujas obras estão previstas para serem concluídas em março do ano que vem”, explicou, mostrando como um manancial menor pode ser preservado em momentos críticos.

Júlio César também reforçou a importância de Chapéu D’Uvas em momentos críticos de fortes chuvas em curtos espaços. Isso porque, além de operar para armazenar água destinada ao abastecimento público, a represa funciona, ainda, como controle da vazão do Rio Paraibuna. Ou seja, com fortes chuvas, suas comportas são fechadas para evitar o transbordamento do leito. Ao contrário, durante estiagens, a manobra permite a perenização do rio.
Estiagem prolongada favorece as queimadas
Quanto menos chuvas, maior o índice de queimadas atendidas pelo Corpo de Bombeiros. De acordo com dados da corporação, entre janeiro e agosto deste ano foram registradas 529 ocorrências de incêndio em vegetação no município, contra 405 no mesmo período em 2020. A diferença é que, ano passado, nestes primeiros oito meses, choveu 983 milímetros, contra 779 milímetros no período atual.
O paralelo entre chuvas e queimadas é corroborado pela própria corporação. Conforme o comandante da Companhia Operacional do 4º Batalhão do Corpo de Bombeiros, Acácio Tristão, três fatores contribuem para o aumento das ocorrências: estiagem, baixa umidade do ar e calor de tarde associado aos ventos e à topografia montanhosa da região, que dificulta o combate às chamas e favorece a propagação das mesmas. “Além disso, temos muitas áreas de vegetação na Zona da Mata. Em Juiz de Fora, este ano, o destaque foi a região do Bairro Dom Bosco, onde há muita área de pastagem e o fogo de propaga muito rápido, ainda com residências perto”, disse.

Conforme o oficial, o que chama a atenção é que em praticamente 100% dos casos há ação do homem para que as chamas se iniciem. “Muitas das vezes a pessoa não fazem com intenção, mas sim por imprudência a imperícia. Às vezes, o simples fato de limar o quintal colocando fogo em um amontoado pode causar uma tragédia. O vento leva alguma brasa, e com a vegetação seca, causa um incêndio”, comentou.
O oficial destacou que a prática é um crime ambiental, que pode causar prisão e multa. “Temos uma dificuldade em identificar quem causou. Mas quem faz isso é um criminoso, tem que se ter essa sensação. Não é inofensivo, é uma prática criminosa. Quem flagrar essa situação deve ligar para 181 ou para o 190”, disse o capitão Acácio Tristão.








