Especialista alerta para ‘vestibularização’
A divulgação das notas médias das escolas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) colocou novamente em pauta os critérios que devem ser levados em conta nas avaliações das instituições de ensino. A interpretação dos dados divulgados é constantemente questionada por defensores de um planejamento pedagógico menos segregador e mais humanista. Especialistas afirmam que o “rankeamento” dessas escolas incentiva uma competição negativa e pressiona as escolas a padronizarem os estudantes para conteúdos específicos cobrados nos processos seletivos, deixando de lado a formação cidadã.
Para o professor da Faculdade de Educação da UFJF, Eduardo Magrone, o ranking do Enem não reflete o valor agregado da educação, que não pode ser somente baseada em conteúdos. “Por exemplo, no ranking há escolas que fazem pré-seleção para ingresso, isso já é uma grande vantagem para que se tenha um melhor desempenho no Enem. Também é fundamental para interpretar esses resultados saber o nível socioeconômico das famílias, já que ele reflete o nível cultural dos alunos. Esses aspectos podem mascaram os resultados.” Segundo o professor, escolas que realizam processo seletivo iniciam o ensino em um patamar mais elevado do que as instituições que não adotam esse sistema de seleção. “Muitas escolas que não estão no ranking são excelentes. Como não fazem seleção de alunos, iniciam o ensino em um patamar inferior.”
Educação humanista
Conforme o professor da Faculdade de Filosofia da UFJF, Juarez Sofisti, a introdução do Enem no processo seletivo visava a modificar a educação básica, colocando fim na “decoreba”. “Anteriormente, o vestibular era um caos pedagógico. As escolas deixavam de fazer educação para treinar aluno para passar no vestibular. Com a introdução do Enem, isso começou a mudar. Mas o Enem está se ‘vestibularizando’. O aluno precisa saber problematizar, argumentar e conceituar. Como isso não está sendo ensinado, o aluno está chegando à universidade sem as noções básicas de aprendizado.” Magrone concorda. “Se o Enem tivesse conservado sua concepção original, as escolas apostariam mais na capacidade analítica e não no conteúdo. Mas, isso se perdeu e precisa ser resgatado. Há uma série de capacidades e habilidades que as escolas estão negligenciando obcecados que estão em preparar o aluno para o sucesso em exames de seleção, muitas vezes pressionadas pelos próprios pais. É preciso observar se a escola está ensinando ciências ou a pensar cientificamente.”









