Ouça agora

Cidade despreparada para surto de dengue


Por KELLY DINIZ

06/05/2015 às 06h00- Atualizada 06/05/2015 às 08h40

554961b5c8daf

Com menos da metade do número de agentes necessário para o combate do mosquito da dengue e poucos leitos de retaguarda, Juiz de Fora não está preparada para lidar com um possível surto da doença. Moradores de várias regiões reclamam de acionar as equipes epidemiológicas e não serem atendidos, mesmo com a presença de casos confirmados nas localidades. A quantidade de suspeitas da doença tem impactado até mesmo hospitais da rede privada, que têm recebido uma demanda maior de pacientes nas últimas semanas.

Usuários com dengue grave têm esperado dias nas unidades de urgência e emergência para conseguir leitos na rede credenciada SUS. Esse foi o caso de M., 31 anos, que deu entrada na UPA de Santa Luzia com suspeita de dengue hemorrágica. Ela permaneceu cinco dias no local, sem conseguir transferência. Segundo familiares, a paciente foi diagnosticada com dengue aguda. No entanto, não foi possível confirmar se era hemorrágica, pois a UPA não possuía a estrutura necessária para o diagnóstico preciso. “Ela precisava fazer uma endoscopia, mas não tinha como realizar na unidade. Lá, havia outras pessoas com dengue aguardando vaga.” Nas UPAs, os pacientes podem permanecer até 24 horas, quando devem ter alta ou ser transferidos para outra instituição. Sem leito e após apresentar melhorias no seu quadro de saúde, a paciente da UPA Santa Luzia teve alta. Outro agravante é o fato de Juiz de Fora receber pacientes em situações graves da doença de uma área que excede a abrangência da Superintendência Regional de Saúde, sobrecarregando o sistema.

Situações como estas têm levado as autoridades de saúde a questionar se Juiz de Fora está preparada para um surto de dengue. Segundo o secretário-executivo do Conselho Municipal de Saúde, Jorge Ramos, o Município tem sete unidades para receber os casos. No entanto, não há leitos de retaguarda, aqueles reservados em hospitais para apoio aos atendimentos dos prontos-socorros. “As unidades irão atestar se é dengue ou não. Se der positivo, o paciente precisa ser encaminhado a um hospital. O Município tem as portas de entrada, mas não tem a retaguarda.” No entanto, o secretário-executivo afirma que, caso ocorra uma epidemia, todo o caráter assistencial irá mudar. “Em caso de surto, uma força-tarefa é realizada. Temos que trabalhar a prevenção. É preciso adequar o número de agentes.”

O subsecretário de Vigilância em Saúde, Rodrigo Almeida, contou que, desde que assumiu a pasta, há um mês, melhorias já foram implantadas, como o teste rápido para dengue, o NS1. O subsecretário explica ainda que a pasta está passando por uma reestruturação. “Estamos levantando todos os problemas e planejando ações a serem realizadas. No entanto, isso não é feito da noite para o dia.”

Casos

Em Juiz de Fora, neste ano, foram confirmados 673 casos até o final de abril. Mais que o dobro do número registrado no mesmo período do ano passado, quando houve 225 casos. Segundo o infectologista Rodrigo Daniel de Souza, no HPS, nas últimas três semanas, a média diária de registros suspeitos foi maior que no verão. “Mas a maioria é nas formas leves da doença.” O médico afirma que as internações decorrentes da dengue não têm impactado na oferta de leitos. O infectologista acredita que o aumento no número de reservatórios de água sem tampas nas residências, devido à escassez de chuva, seja o responsável pela manifestação tardia de casos.

A rede privada também teve, nos últimos dias, um volume elevado de pacientes com suspeita de dengue. Somente do dia 1º até as 17h de ontem, o Monte Sinai recebeu 15 notificações. Em abril, foram 179 testes rápidos realizados na instituição, uma média de seis pacientes por dia procurando atendimento para a doença. Desses testes realizados, 65 casos foram confirmados.

Na Santa Casa, houve um aumento de 10% nos atendimentos na urgência ao comparar janeiro a 5 de maio deste ano com igual período do ano passado, segundo a assessoria do hospital. Já o número de atendimentos e de internações por suspeita de dengue triplicou.

150 agentes para atender município

Para realizar todo o trabalho de campo, coordenação e área administrativa, Juiz de Fora precisaria de 354 agentes, segundo o promotor de Defesa da Saúde, Rodrigo Barros. No entanto, a cidade conta apenas com 150 para atender os 218.027 imóveis existentes. O Ministério da Saúde preconiza que cada agente fique responsável por, no máximo, mil imóveis. Em Juiz de Fora, esse número é de 1.453 residências por agente.

O subsecretário de Vigilância em Saúde, Rodrigo Almeida, explica que a pasta deseja contratar novos funcionários. No entanto, a questão financeira é o maior entrave. Segundo o secretário-executivo do Conselho Municipal de Saúde, Jorge Ramos, o problema financeiro alegado pela Prefeitura pode ser solucionado por meio da portaria 204 de 2007 do Ministério da Saúde. “Há um recurso que pode ser solicitado por meio dessa portaria. Essa verba pode ser utilizada para pagamento de funcionário em atividade. Agora, se esses recursos são suficientes para custear os encargos que a categoria requer, eu não sei.” O secretário-executivo acrescenta que não é permitida a contratação temporária para o cargo de agente e nem a terceirização do setor. “Eles precisam ser contratados por meio de concurso público, o que dificulta a ampliação do quadro.”

A falta de contingente para realizar as vistorias tem deixado a população sob risco. A administradora Renata Mendes teve dengue na última semana e, segundo ela, na Rua Tenente Lucas Drumond, no Jardim Natal, Zona Norte, outros moradores estão com a doença. “Eu não tenho visto agentes na rua. Quando houve a minha notificação, eles me ligaram, e eu disse que havia muitas pessoas com dengue na rua. Mas eles falaram que somente um caso não era suficiente para passar o fumacê. Mais gente teria que ligar.” Um morador da Rua Carlos Chagas, no São Mateus, região Sul, contou que há dias têm encontrado o mosquito transmissor no hall do prédio. Ao entrar em contato com o Disque Dengue, recebeu a informação que o fumacê só é enviado quando há caso confirmado de dengue. Marcela Conte do Vale estava com sintomas semelhantes aos da dengue, mas seu caso foi descartado. Contudo, ela está preocupada, já que, na Rua Humaitá, no Paineiras, 18 pessoas estão com suspeita da doença. “No final da via, há um terreno abandonado, e ninguém toma providência. O pessoal da dengue já confirmou que lá é um criadouro do mosquito, com muito lixo. Mas, mesmo assim, o mutirão ainda não passou.”

Segundo Rodrigo Almeida, “se o fumacê for passado no período errado, pode gerar resistência do mosquito. É preciso verificar in loco e analisar se há necessidade do uso do larvicida”. Entre os bairros com maior número de casos estão o Grajaú, com 124, o Santa Cruz, com 70, e o Bela Aurora, com 42 confirmações. Para o subsecretário, o surto ocorrido nas últimas semanas é normal e afeta o país todo. “Só é emergência quando o Município apresentar o número de 1.500 notificações.”

Apenas 15% dos imóveis vistoriados

Com o reduzido número de agentes de endemias, a cobertura de visitação dos imóveis de Juiz de Fora para combate ao Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue e da febre chikungunya, está muito abaixo da meta. A cobertura 100% seria visitar todos os imóveis da cidade (218.688) a cada dois meses. Em 2010, 24,4% dessa meta foram cumpridas. Em 2013, o percentual caiu para 15,7% de imóveis vistoriados. No ano passado, até 31 de julho, a cobertura havia sido de apenas 7,3% da meta anual. Segundo relatório do Ministério Público (MP), “o trabalho de campo de controle do vetor no município é disfuncional e pouco eficaz”.

A Secretaria de Estado de Saúde (SES) afirma, em um parecer enviado ao MP, que “as metas preconizadas não estão sendo cumpridas. Em consequência, nos últimos cinco anos, o município sempre teve índice de infestação predial acima de 1%. Nos dois primeiros Liraas (Levantamento de Índice Rápido do Aedes aegypti) de 2014, o município não conseguiu cumprir as datas de realização do levantamento, que são pré-estabelecidas pelo Ministério da Saúde”. O último Liraa, realizado em março deste ano, apontou um índice de 6,8% de infestação, considerado como de risco de epidemia.

Para o secretário-executivo do Conselho Municipal de Saúde, Jorge Ramos, a Secretaria de Saúde precisa envolver toda a sociedade no combate ao mosquito. “Nós colocamos à disposição 900 conselheiros regionais de saúde. Mas eles estão sendo muito pouco usados. A prevenção deveria envolver as associações de bairros, os agentes comunitários de saúde. São pessoas que estão dentro das comunidades. Essa força-tarefa poderia ser mais explorada.”