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Papa amplia diálogo com sociedade


Por JÚLIA PESSÔA

05/04/2015 às 06h00

Ele lavou os pés de uma muçulmana; recebeu um grupo de defesa dos direitos gays e um visitante transgênero no Vaticano e disse aos homens que deixassem o machismo de lado. Dispensando muitos protocolos e regalias desde o início de seu pontificado, como a moradia no palácio apostólico, o Papa Francisco tem representado, para muitos – católicos ou não -, a possibilidade de uma aproximação maior da Igreja com a sociedade contemporânea. Neste Domingo de Páscoa, comemorado pelos católicos, a Tribuna debate as posições do chefe da Igreja Católica, que tem conseguido ampliar o debate na atualidade.

Para o arcebispo metropolitano dom Gil Antônio Moreira, a postura do Pontífice é decorrente de sua atuação como pároco, voltada, em primeiro lugar, para a solidariedade e o acolhimento. “O Papa Francisco tem grande preocupação em atender às perguntas do mundo de hoje. O interesse dele é ajudar concretamente as pessoas em situações difíceis e não se portar como vanguardista ou progressista.”

Doutor em ciência da religião e coordenador do programa de pós-graduação desta área acadêmica na UFJF, o professor Emerson Sena acredita que o Papa vem buscando solucionar uma difícil equação: entres as tradições e valores católicos e as diferentes e complexas necessidades, sociais e subjetivas, dos fiéis. “O que muda com Francisco é o estilo pastoral do papado, que dá menor importância ao pré-julgamento moral.” As imagens e expressões usadas pelo Pontífice são a ilustração disso: “a igreja como hospital de campanha, a igreja saindo pelas periferias, acolhendo, ajudando, auxiliando, colocando-se ao lado dos pobres, migrantes, desesperados. Essa atitude provoca amplo desgosto em setores conservadores católicos que prefeririam uma guerra cultural contra o aborto, as novas modalidades de família (união homossexual) etc. Esses mesmos setores já fazem críticas abertas ao Papa, assumindo uma posição de resistência e oposição mais fortes”.

Respeito às diferenças

Para dom Gil, uma das maiores conquistas do Papa Francisco foi conseguir ampliar o diálogo com diversos setores da sociedade, como os homossexuais e os divorciados, entre outros grupos, sem precisar ceder em qualquer medida em sua fidelidade ao Evangelho. “É o que a Igreja sempre quis: promover o diálogo e o respeito entre pessoas que pensam diferente sem trair a doutrina de Cristo ou buscar agradar aos que discordam dela. O respeito e a solidariedade independem disso.” Na visão do também professor do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da UFJF Rodrigo Portella, essa aproximação do Papa com a comunidade traz efeitos tanto para a sociedade como um todo quanto para a Igreja, em sua estrutura interna. “Devido a seu carisma pessoal despojado, simples, bem-humorado e sem o uso da linguagem mais formal e comedida usada por Papas anteriores e à sinalização de um diálogo mais aberto, o Papa tem tido a simpatia de pessoas não necessariamente católicas. No âmbito interno da Igreja, as reações são mais matizadas. Ele vem ganhando aprovação de setores considerados mais ‘progressistas’ na Igreja e alguma resistência entre grupos ligados a teologias e concepções mais ‘conservadoras'”.