Moradores do Retiro relatam perdas e incerteza após deslizamentos em Juiz de Fora
Famílias relatam danos, mutirões de limpeza e aguardam orientações e medidas de segurança; PJF diz que Defesa Civil realiza vistorias e orienta evacuação quando há risco
O Bairro Retiro, na região Sudeste do município, foi um dos muitos afetados pelas fortes chuvas em Juiz de Fora. Muitas casas próximas a barrancos e a um córrego foram devastadas pelos deslizamentos de terra e pelas inundações, deixando moradores do entorno desabrigados, sem moradia ou previsão de retorno às casas interditadas.
A Tribuna esteve no local, na tarde da última segunda-feira (2), e conversou com moradores do bairro. Muitos relatam que a assistência do poder público ainda não chegou às suas ruas, onde juntos fizeram a remoção de terra e a limpeza das casas. Agora, buscam seguir em frente, mas aguardam, com urgência e preocupação, por orientações, auxílios e obras que tragam segurança à área de risco.
‘Também temos o direito de morar em um lugar digno’
Um deslizamento de terra avançou sobre a Rua José Francisco da Mota, próximo à BR-267 no Bairro Retiro. As casas foram construídas às margens de um córrego e o outro lado da rua é contornado por um barranco íngreme. Com a força da enxurrada e o alto nível da água, as moradias foram atingidas, em ambos os lados por terra, troncos de árvores e água. “Vieram encontrando, invadindo e arrebentando tudo”, conta Roseli de Oliveira, de 58 anos, uma das moradoras que teve a casa afetada.
Como conta, naquele momento de devastação, um carro foi arrastado até atingir uma criança de dez anos, prensando-a contra a parede da casa e quebrando a sua perna. Os vizinhos conseguiram socorrê-la, e agora ela segue se recuperando em um hospital. “Só não perdemos a vida, mas perdemos tudo dentro de casa.”
Na manhã do dia seguinte, os moradores logo se juntaram para retirar a terra da rua e para limpar as casas, na expectativa de resgatar alguns pertences. “Ajudamos um ao outro. Têm muitas pessoas tomando conta da gente, muitos voluntários vieram dar auxílio. Temos uma comunidade muito unida”, diz Roseli. Também afirma que os moradores receberam auxílio da Defesa Civil, de profissionais de saúde da rede pública e da assistência do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) do município.
Sua filha, Taiana de Oliveira, de 36 anos, mora na casa do segundo andar, que não foi atingida, junto com a filha, e agora acolhe a mãe. As duas já não conseguem trabalhar por conta de problemas de saúde e recebem benefícios assistenciais. Preocupada, ela diz que as perdas agravam ainda mais a situação. Mesmo sem danos à estrutura, a casa agora precisa de reformas, que, nesse momento, indicam custos altos e inviáveis.
Segundo Taiana, há tempos o córrego que fica atrás da sua casa necessita de limpeza e obras para melhorar o escoamento. “Não nos enxergaram antes, e agora? Vão começar a enxergar? Nós pagamos pela luz, pela água e nossos impostos, também temos o direito de morar em um lugar digno.” Ela também relata que os moradores da rua muitas vezes pediram obras de contenção do barranco, mas que nunca houve um projeto concreto.
Mais à frente, no início da rua, a casa de João Calazans, de 89 anos, também foi atingida pela terra e pela água. O idoso, que mora sozinho, estava se arrumando para dormir, quando se assustou com o barulho, supondo ser apenas um trovão. Quando chegou à janela, percebeu o deslizamento do barranco e a enchente invadindo sua casa. Ele conta que imediatamente ligou para suas filhas, Ana Maria Calazans, 63 anos, e Lisete da Silva, 60 anos, que logo chegaram para resgatar o pai.
“Quando eu cheguei, já não tinha mais condição de passar, o barro tampou a passagem. Mas o marido da minha sobrinha conseguiu entrar para carregar ele. Graças a Deus, deu tempo e ele saiu com vida. A lama tomou conta de tudo, dos quartos, da cozinha e do banheiro. Meu pai perdeu tudo, até as roupas, mas agora vai se mudar para outra casa e estamos na esperança de conseguir aproveitar a geladeira e a máquina de lavar dele”, conta Ana Maria.
‘Ninguém sabe a situação que estamos passando’
Na parte alta do bairro, algumas das casas da Rua José Augusto de Araújo também foram atingidas pelo deslizamento de um barranco. Em uma delas, a força da água empurrou um veículo, que quebrou o muro da garagem, avançou sobre a varanda e ficou preso no vão das estruturas. Os moradores da rua fizeram um mutirão para a retirada da terra, mas o carro segue preso, sem previsão de retirada. “Se não fosse a população, nós estaríamos assim até hoje”, conta Marcelo Eduardo de Jesus, 59 anos, proprietário da casa e do veículo.
Segundo o morador, agentes da Defesa Civil orientaram a evacuação das casas. Ele afirma que, após a recomendação, as famílias não receberam assistência de outros órgãos públicos nem orientações sobre acolhimento em abrigos, acesso a benefícios como auxílio-moradia e doações. Ainda de acordo com ele, moradores da rua já solicitaram, em diversas ocasiões, que a Prefeitura de Juiz de Fora realize obras de contenção nos barrancos, mas dizem não ter obtido retorno.
Seu vizinho, João Paulo Miranda, 52 anos, foi acolhido temporariamente na casa da irmã, mas quer voltar logo para casa. A casa de sua filha, que fica abaixo da sua, foi inundada pela enchente, e por isso, a jovem também está abrigada na casa da tia. “Ninguém deu uma posição, uma satisfação. Tivemos que sair das nossas casas próprias da gente. O pessoal manda ir para o aluguel, mas ninguém sabe a situação que estamos passando.”
PJF diz que Defesa Civil faz vistorias e orienta evacuação em áreas de risco
Em nota, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) informou que a Defesa Civil Municipal segue realizando vistorias técnicas nas áreas atingidas por deslizamentos, etapa imprescindível para orientar a população e definir, caso a caso, liberação, interdição e medidas de segurança. “A orientação é que, havendo risco ou recomendação de saída, os moradores deixem o imóvel imediatamente, mesmo que a via não esteja oficialmente ou integralmente evacuada, e que o retorno só ocorra após avaliação técnica.”
Sobre o Bairro Retiro, a Prefeitura afirmou que as equipes são direcionadas conforme o registro formal das ocorrências e a priorização por risco, com atendimento técnico pela Defesa Civil e articulação com as demais áreas responsáveis pela assistência às famílias. “Em paralelo às vistorias, o Município mantém ações de zeladoria nas regiões afetadas, incluindo limpeza e desobstrução, conforme as condições de acesso e segurança da população e dos servidores.”
Sobre o caso do veículo preso em vão de uma casa na Rua José Augusto de Araújo, a orientação do órgão é que os moradores não tentem remover por conta própria. A recomendação é registrar a ocorrência junto à Defesa Civil, para avaliação técnica do local e definição do procedimento seguro.
Já para questões de moradia, benefícios sociais e orientações de assistência, os moradores atingidos devem buscar atendimento pela Secretaria de Assistência Social, por meio dos CRAS, que estão em funcionamento para atendimentos e orientações. Sobre doações, a orientação é de que sejam destinadas aos pontos oficiais de recolhimento e distribuição, para garantir organização logística e atendimento equilibrado às famílias.
A Prefeitura também informou que há decreto garantindo a isenção do IPTU a atingidos por enchentes e alagamentos, inclusive com concessão automática quando houver interdição do imóvel ou quando a edificação for considerada condenada ou em ruína. “Nos demais casos, a solicitação pode ser protocolada até 30 de junho de 2026, mediante documentação básica do contribuinte no site Prefeitura Ágil. A medida contempla, inclusive, contribuintes que já tenham efetuado o pagamento do imposto.”


