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Usuários enfrentam dificuldades nas antigas linhas da GIL

Desde a última terça, por determinação da Settra, a Tusmil oferece 41 linhas, sobretudo nas regiões Leste e Sudeste


Por Gabriel Ferreira Borges e Gracielle Nocelli - Repórteres

04/12/2020 às 08h33

Ainda que a Transporte Urbano São Miguel Ltda (Tusmil) tenha assumido, na última terça-feira (1º), por tempo indeterminado, as 41 linhas até então operadas pela Goretti Irmãos Ltda (GIL), moradores das regiões Leste e Sudeste de Juiz de Fora, usuários do transporte coletivo urbano, permanecem insatisfeitos com o serviço agora prestado pela Tusmil. Às vésperas de findar, nesta sexta-feira (4), o prazo de 72 horas dado pela Secretaria de Transporte e Trânsito (Settra) à Tusmil para viabilizar o atendimento à população desguarnecida pela GIL, relatos à Tribuna indicariam precariedade de atendimento, desde carros lotados até descumprimento do quadro de horários, além de itinerários incompletos.

Sônia Mota, 56 anos, moradora do Bairro Linhares, Região Sudeste, por exemplo, teme os riscos trazidos pela lotação dos ônibus em plena pandemia de Covid-19. “Os ônibus estão lotados e não atendem o bairro todo. Antes havia uma linha que passava em frente a minha casa, agora preciso descer a rua para chegar ao ponto. É muita gente para entrar e se apertar no mesmo veículo, em plena pandemia. Esses dias, consegui carona para ir e voltar do trabalho, mas os outros moradores estão passando muita dificuldade.”

Uma moradora de 32 anos do Bairro Três Moinhos, Região Leste, que preferiu não se identificar, relata que a lotação nos coletivos a levou a recorrer ao serviço de transporte por aplicativo. “Os ônibus não estão conseguindo cumprir com a demanda da região, que atende Linhares, Bom Jardim, Três Moinhos e Vitorino Braga. É muita gente para poucos carros. Hoje não consegui ir para o trabalho de ônibus porque estava lotado e, para não me atrasar, pois pego duas linhas até o emprego, precisei pedir Uber.” Ela pagou R$ 18 no serviço de transporte por aplicativo do Bairro Três Moinhos ao Bairro Estrela Sul, onde trabalha.

Procurada, a Settra se limitou a responder que a Tusmil já opera todas as linhas da GIL. Em nota encaminhada à Tribuna, a Tusmil afirma que, embora esteja cumprindo o que foi determinado pela Settra, foi pega de surpresa com a obrigação de cumprir, já a partir da última terça-feira, em caráter temporário e provisório, com todo o itinerário até então sobre responsabilidade da GIL. “Eventuais transtornos são exceções pontuais, decorrentes do natural período inicial de adaptação.” Questionada se o número de funcionários no próprio quadro da empresa, bem como o de veículos, seria suficiente para atender às 41 linhas absorvidas pela GIL, além das outras 59 já sob a sua responsabilidade, a Tusmil não respondeu.

onibus fernando priamo
Usuários reclamam de escassez de ônibus, que estariam cheios em plena pandemia (Foto: Fernando Priamo)

Edital de contratação
Ainda que não tenha confirmado se o quadro de pessoal é suficiente para atender às demandas das regiões anteriormente exploradas pela GIL, a Tusmil publicou, nesta quinta-feira, edital de contratação de motoristas e cobradores para “trabalho imediato em linhas do sistema de transporte coletivo urbano”. Ao ser questionada por que não buscava acordo para absorver os rodoviários vinculados à GIL, a concessionária pontuou que “o edital abrange todos aqueles interessados que sejam capacitados para trabalhar como motorista ou cobrador, inclusive os eventuais funcionários da GIL que desejem se desligar daquela empresa”.

Horários descumpridos em Sarandira

Em Sarandira, distrito localizado a cerca de 40 quilômetros da região central de Juiz de Fora, os moradores ficaram entre 25 e 30 de novembro sem atendimento do transporte coletivo urbano, tampouco das vans escolares, até então autorizadas pela Prefeitura a suprir a demanda da GIL. Alguns, aliás, chegaram a perder o emprego, porque simplesmente não tinham alternativas para se deslocar até o Centro de Juiz de Fora. Embora a Tusmil já esteja operando a linha 313 novamente, os transtornos no distrito seguem, conforme o presidente da Associação de Moradores do Distrito de Sarandira, Eustáquio Rezende Tostes.

Conforme Eustáquio, na última quarta-feira (2), por exemplo, um dos carros da Tusmil atolou na estrada de terra de Sarandira. “Colocaram um motorista inexperiente na linha. Por volta das 16h30, tinha um ônibus agarrado perto da serra da Fazenda Santana. Quando chove, o ônibus não passa deste ponto da estrada, e os moradores têm que andar mais ou menos cinco quilômetros até o distrito a pé. Um carro para a estrada de terra tem que ser menor, com suspensão e pneus diferenciados, não este que mandaram.” Eustáquio acrescenta que a Prefeitura encaminhou, na última quarta, um caminhão de escória para esparramar na pista, mas, já nesta quinta-feira, o material foi levado pela chuva.

De acordo com o presidente da Associação de Moradores do Distrito de Sarandira, os horários não estariam sendo regularmente cumpridos pela Tusmil. “Na quarta-feira, o ônibus das 18h, que normalmente traz o pessoal do trabalho, não veio. Já nesta quinta, por exemplo, o das 5h, que leva os trabalhadores para Juiz de Fora, também não. Apenas o das 8h, do meio-dia e das 16h veio. Alguns trabalhadores seguem sem ir para o Centro, porque não sabem se vão conseguir voltar para Sarandira. Alguns estão ficando por Juiz de Fora mesmo.” Na ocasião em que confirmou à Tribuna o remanejamento das linhas da GIL, a Settra também admitira que o quadro de horários destas linhas seguiria o mesmo.

Conforme a Tusmil, as dificuldades em relação à pavimentação são, “infelizmente, uma realidade que todos iremos enfrentar, principalmente agora no período chuvoso, o que traz transtornos e prejuízos para todos, em especial para os operadores do sistema de transporte coletivo urbano”.

Nova rodada de negociações

A transferência das linhas da GIL à Tusmil enfrenta resistência perante o Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Rodoviário de Juiz de Fora (Sinttro), uma vez que, no entendimento dos sindicalistas, o remanejamento não soluciona o impasse trabalhista dos rodoviários vinculados à GIL. Nesta quinta-feira, inclusive, representantes do Sinttro, da GIL e da Tusmil voltaram a se reunir em audiência perante o Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região (TRT-3) em busca de garantir o pagamento do passivo trabalhista destes rodoviários.

A principal reivindicação do Sinttro foi de que o Consórcio Manchester assumisse o passivo trabalhista da GIL, ou seja, não apenas a própria empresa, mas também a Tusmil fora cobrada pela entidade sindical. Conforme o Sinttro, a GIL teria dito que não haveria condições de quitar os débitos trabalhistas neste momento. Logo, o sindicato teria arrolado a Tusmil como corresponsável pelo passivo, uma vez que a empresa, assim como a GIL, integram o mesmo consórcio.

A Tusmil confirmou à Tribuna a participação na audiência, em que, conforme informado, foi “arguida a total ausência de responsabilidade da Tusmil em relação a qualquer verba trabalhista devida pela GIL a seus funcionários”. A empresa acrescenta que, embora a ação judicial envolva apenas GIL e Sinttro, a Tusmil apresentou a própria defesa como ocorre rotineiramente na Justiça do Trabalho.

A Tribuna buscou contato com a GIL, mas sem sucesso. Uma nova audiência foi marcada para abril de 2021.