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JF desconhece quanto de comida vai para o lixo

Elizabeth Jucá: “devolvemos o dinheiro porque fomos orientados que sairia um novo edital que poderia ser maior, mas isso nunca mais aconteceu” (Marcelo Ribeiro/01-09-15) Juiz de Fora desconhece quanto de alimento, ainda próprio para consumo, é jogado no lixo. A informação é confirmada pela Secretaria de Agropecuária e Abastecimento. A dimensão do desperdício já seria […]

Por Tribuna

04/10/2015 às 07h00

Elizabeth Jucá:

Elizabeth Jucá: “devolvemos o dinheiro porque fomos orientados que sairia um novo edital que poderia ser maior, mas isso nunca mais aconteceu” (Marcelo Ribeiro/01-09-15)

Juiz de Fora desconhece quanto de alimento, ainda próprio para consumo, é jogado no lixo. A informação é confirmada pela Secretaria de Agropecuária e Abastecimento. A dimensão do desperdício já seria conhecida se o município tivesse um banco de alimentos, realidade em sete das dez maiores cidades do interior de Minas Gerais. A exceção fica, além de Juiz de Fora, para Montes Claros e Governador Valadares. Com a unidade, o município poderia receber doações de comidas impróprias para comercialização, mas em adequadas condições de consumo, e abastecer entidades cadastradas. A última chance de concretizar a unidade foi perdida em 2013, quando, alegando insuficiência de recursos para a contrapartida, a Prefeitura devolveu ao Governo federal R$ 450 mil para implantar o banco, por meio de convênio com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS). Desde então, não houve novas oportunidades.

Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado em 2014, em Minas há 72 municípios com banco de alimentos, sendo 50 mantidos com recursos próprios. Segundo a secretária de Planejamento e Gestão, Elizabeth Jucá, o município não conseguiu viabilizar o seu banco porque seria necessário cerca de R$ 1,5 milhão para erguer o empreendimento e adquirir os equipamentos necessários, como veículo para transporte, laboratório de análises e câmara de refrigeração. Além disso, deveria ser construído um acesso ao terreno, de propriedade da Prefeitura, às margens da rodovia BR-040, próximo à Central de Abastecimento de Minas Gerais (CeasaMinas).

“Fizemos o nosso projeto, que foi aprovado, seguindo todas as orientações e diretrizes da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). O valor liberado (R$ 450 mil) seria insuficiente, e não teríamos condições de arcar com a contrapartida. Então começamos a negociar uma complementação. Devolvemos o dinheiro porque fomos orientados que sairia um novo edital que poderia ser maior, mas isso nunca mais aconteceu”, disse Elizabeth, esclarecendo, também, que outra alternativa era usar parte da propriedade do próprio Ceasa para instalar o banco. Mas segundo ela, a Prefeitura não conseguiu a titularidade do terreno. Sobre a quantificação do desperdício, a Secretaria de Agropecuária e Abastecimento informa estar desenvolvendo um estudo neste sentido, sem, no entanto, apresentar detalhes.

Perda

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Em 2008, o Conselho Municipal de Segurança Alimentar (Comsea) divulgou que o município desperdiçava mensalmente 60 toneladas de comida. E em 2011, a estimativa era que 45 mil pessoas passavam fome na cidade. Desde então, nenhum novo estudo sobre a realidade local foi apresentado. O único dado recente, conseguido pela Tribuna, é que somente o CeasaMinas movimenta 6,5 mil toneladas de legumes, verduras e frutas mensalmente, embora não se conheça o volume desperdiçado. Conforme o orientador da unidade, Eleutério Mendes, está em andamento um projeto de doação das mercadorias que sobram, no qual será criado um banco de alimentos. Mas ele preferiu não adiantar outras informações, já que a iniciativa ainda está sendo avaliada.

No início da atual gestão, em reunião entre as secretarias de Desenvolvimento Social, Governo, Educação e Planejamento, além do Comsea, foi enfatizada a importância de se detectar a parcela da população que se encontra em situação de insegurança alimentar, para que estratégias de enfrentamento fossem traçadas, como adequações do restaurante popular e criação de um banco de alimentos. Mais de dois anos se passaram, e nada foi apresentado.

O presidente do Comsea, Hugo Bento, conta que o conselho ficou parado por três anos e agora está retomando os trabalhos. A posse dos novos conselheiros ocorreu em 3 de setembro. “A partir de agora, vamos formar as comissões. Queremos realizar um trabalho de recolhimento de alimentos que estão próximos de vencer nos supermercados e dar um direcionamento, que pode ser merenda escolar ou entidades beneficentes.”

Seis restaurantes populares atendidos

Cidades menores ou do mesmo porte que Juiz de Fora, como Betim (412.003 habitantes), Uberaba (318.813) e Formiga (67.833), possuem banco de alimentos. Em Formiga, o centro existe desde 2007 e, somente no primeiro semestre deste ano, distribuiu 36,7 toneladas de alimentos a 39 entidades beneficentes, alimentando 12 mil pessoas por mês. Em Uberaba, o banco começou as atividades em 2006 e, atualmente, fornece gêneros alimentícios para 327 entidades cadastradas. Os alimentos doados atendem, em média, 22.500 pessoas por semana.

Já em Betim, a unidade funciona desde 2009 e, atualmente, movimenta cerca de 107 toneladas de alimentos por mês, beneficiando seus seis restaurantes populares, albergues, 19 casas de recuperação, creches e asilos. De acordo com o coordenador do banco de alimentos da cidade, Antônio Carlos Moreira, a unidade começou a funcionar sem qualquer recurso do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS). “No início foi com verba da Prefeitura e ajuda de parceiros, em uma estrutura bem precária. Tínhamos poucos funcionários, e o carro e o galpão eram alugados. Agora que estamos no processo de construção de uma sede própria, prevista para ficar pronta ano que vem. Nosso primeiro recurso do MDS chegou apenas em 2012 (R$ 346 mil, conforme o Portal da Transparência do Governo federal).”

Ele também conta que, além de distribuir alimentos, o banco se transformou em importante gerador de renda para 525 agricultores familiares. Isso foi possível pois foi mostrado ao MDS que havia demanda para comprar de produtores locais. Este ano, Betim recebeu R$ 2.460.360,40 para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). “Abrindo o banco, o próximo passo é desenvolver o PAA, porque gera renda para inúmeras famílias, não só de Betim como de outras cidades. Hoje compramos de produtores de Caratinga e João Pinheiro, e vamos começar a adquirir de Barbacena também.” Além deste recurso, Betim recebe doações de alimentos de grandes redes de supermercados, atacadistas e produtores que comercializavam na Central de Abastecimento de Minas Gerais (CeasaMinas).

Brasileiro joga fora 20% do que compra

O Brasil está entre os 10 países que mais desperdiçam comida no mundo, conforme o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). De acordo com um estudo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), 54% do desperdício e perda de alimentos no mundo ocorrem na fase inicial da produção, manipulação, pós-colheita e armazenagem. Os restantes 46% ocorrem nas etapas de processamento, distribuição e consumo. O descuido percebido no processo produtivo se repete na casa das pessoas. De acordo com o Instituto Akatu, organização não-governamental dedicada a promover o consumo consciente, uma família brasileira desperdiça, em média, 20% dos alimentos que compra no período de uma semana.

A especialista em alimentação natural Sissa Nascimento dá dicas para evitar o desperdício de alimentos (ver quadro). “Nós precisamos ensinar as pessoas a aproveitar os talos, as cascas. Quando você vai a feiras livres, quanta coisa fica no chão. Nos supermercados, a quantidade de coisas que estraga, vai tudo para o lixo. O que é amassado não é estragado, desde que se corte a parte amassada na hora. Os mercados e feiras poderiam fazer isso e vender mais barato.”

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