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Mais de 130 multas diárias


Por EDUARDO VALENTE

04/02/2015 às 07h00- Atualizada 04/02/2015 às 11h23

Em super-radar na Avenida Dr. Paulo Japiassu Coelho, são frequentes os flagrantes de avanço de sinal

Em super-radar na Avenida Dr. Paulo Japiassu Coelho, são frequentes os flagrantes de avanço de sinal

Os 21 equipamentos de radares instalados em Juiz de Fora, distribuídos em 15 pontos distintos, registraram 48.735 abusos entre janeiro e dezembro do ano passado. Este total representa média de 133 infrações cometidas por dia pelas ruas da cidade, que vão desde excesso de velocidade até avanços de semáforos e paradas sobre as faixas de pedestres, no caso dos equipamentos popularmente conhecidos como super-radares. Chama atenção, no entanto, a distribuição destas multas, já que apenas quatro dispositivos, na Zona Sul, representam 54% das irregularidades registradas. Dois deles estão na Avenida Deusdedit Salgado, no Salvaterra, e outros dois na Avenida Doutor Paulo Japiassu Coelho, na interseção com a Rua Tom Fagundes, no Cascatinha.

Um dos radares da Avenida Deusdedit Salgado, aliás, somou sozinho 12.063 multas entre janeiro e dezembro de 2014. Instalado em frente ao número 4.895, é ele que deveria incentivar a redução de velocidade dos condutores que chegam a partir da rodovia BR-040. Isso significa que, em média, a cada 43 minutos, um condutor passa pelo equipamento acima dos 60 km/h regulamentados e informados aos motoristas por meio de sinalização horizontal e placas.

Na chegada da cidade, na Deusdedit Salgado, 12.063 infrações  foram registradas em 2014

Na chegada da cidade, na Deusdedit Salgado, 12.063 infrações foram registradas em 2014

Já os dispositivos da Paulo Japiassu Coelho são os únicos da região com tríplice função. Ou seja, identifica não apenas o excesso de velocidade, como também avanço de semáforo e parada sobre a faixa de pedestres. O posicionado no sentido bairro/Centro somou 3.663 multas, e o do sentido contrário, 5.140.

Somente dois dispositivos registraram, em média, menos de uma multa por dia: o super-radar da Avenida Rio Branco em direção ao Centro, antes do Mergulhão, com 358 ocorrências, e o da Ladeira Alexandre Leonel, no Cascatinha, no sentido de quem segue para o Centro, com apenas 135 infrações. Apesar de o equipamento possibilitar as três funções, os da Rio Branco não registram o excesso de velocidade.

Também na Deusdedit, mas em direção à BR-040, abusos são recorrentes

Também na Deusdedit, mas em direção à BR-040, abusos são recorrentes

De acordo com o subsecretário operacional de Trânsito da Settra, Eduardo Facio, a quantidade de multas aplicada chama atenção, mas não pode ser considerada absurda. “Se somarmos todos os radares e levarmos em consideração que, em cada um destes pontos, passam 156.262 carros diariamente, a média de multas representa menos de 1%. A tendência é que o radar funcione para diminuir o número de infrações, sempre. Para nós, é ruim ter uma multa, porque significa que um condutor poderia ter causado um acidente ou algo ruim. O ideal seria zero, mas chega um momento em que nossas possibilidades se esgotam. Ou seja, sinalizamos bem os locais onde estão os radares e promovemos campanhas de educação no trânsito, mas, mesmo assim, os abusos persistem.”

Ainda segundo o subsecretário, há necessidade de implantação de radares em outros locais, até para atender demanda de moradores. No entanto, isso será possível somente com mudanças no contrato em vigor com a empresa terceirizada que fornece os equipamentos ou substituição dos pontos relacionados. Atualmente estas possibilidades são avaliadas pelo corpo técnico e jurídico da Settra.

 

Super-radares

Levando em consideração apenas os sete super-radares em funcionamento na cidade desde janeiro do ano passado, em quatro pontos distintos, foram 17.129 infrações até o mês de dezembro. No balanço divulgado pela Settra, não há a natureza da infração cometida. Embora os recordistas em multas sejam os dois no Cascatinha, outros números chamam atenção, como por exemplo, o da Avenida Rio Branco, interseção com a Rua Benjamin Constant, em direção ao Bairro Bom Pastor, com 3.300 registros, e o do sentido contrário, com 1.094. Na mesma via, mas após o mergulhão, em direção ao Manoel Honório, foram 2.121 multas aplicadas. Já aquele colocado na Avenida Brasil, esquina com a Avenida Rio Branco, somou 1.094 abusos.

 

Outros números

Conforme levantamento feito pela Settra, excesso de velocidade foi a infração recordista de multas na cidade em 2014, com 33.346 ocorrências. Em seguida aparece estacionamento irregular, com 22.068 e, em terceiro, o avanço de semáforos, somando 16.938. Este último, no entanto, pode ter sido identificado não apenas pelo super-radar como também pela observação dos agentes de trânsito. Mesmo assim, no ano anterior, em 2013, quando não havia super-radar, este mesmo desrespeito somou somente 2.892 multas aplicadas (ver quadro).

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Necessidade de investir em educação

Na opinião do sociólogo Paulo Fraga, professor do programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da UFJF, o número é alto e reflete o fato de o condutor brasileiro ainda desrespeitar muito as leis de trânsito. Ele critica, no entanto, que, no caso dos radares, a preocupação parece ser maior em arrecadar do que educar. “O Poder Público, seja ele estadual, federal ou municipal, só trabalha na repressão. Investiram muito nos últimos anos em equipamentos que geram receitas através das multas, até mesmo porque é uma forma de fazer caixa. Mas me preocupa muito esta repressão não ser acompanhada de um trabalho de conscientização. Os números mostram que não vale mais a ideia de que lei boa é aquela que pega no bolso.”

Trabalho educativo

Um exemplo positivo do trabalho educativo, segundo o sociólogo, está no respeito à faixa de pedestres. “Não foi preciso investir em grandes repressões, e sim em trabalhos de conscientização. Hoje vemos muito mais carros dando passagem aos pedestres do que há alguns anos. O problema é que só reprimir não funciona. O trânsito não precisa ser uma guerra.”

Paulo Fraga sugere que este trabalho educativo deva atingir a diversos públicos, desde crianças até condutores experientes, por meio de reciclagens promovidas pelos departamentos de trânsito e campanhas, nos meios de comunicação e também nas ruas. “As pessoas pensam em indústria da multa justamente porque só observam o caráter de arrecadação, e não o educativo. Em minha opinião, parte da arrecadação destas multas deveria ser voltada a estes programas.”

Sobre isso, o subsecretário operacional de Trânsito da Settra, Eduardo Facio, defendeu que as multas aplicadas nos radares não têm fins arrecadatórios. “Por lei, o montante arrecadado só pode ser utilizado em ações diretamente voltadas ao trânsito. Não podemos, por exemplo, pagar salários de funcionários com este dinheiro, mas podemos comprar tinta para sinalização horizontal, adquirir novas placas e produzir materiais educativos se forem relacionados ao trânsito.”

Já com relação às necessidades de trabalhos educativos, ele defende que isso já ocorre, por meio de uma equipe própria da Settra. Duas agentes, responsáveis pelas ações, visitam escolas e bairros a fim de orientar crianças e adultos sobre situações diversas relacionadas à segurança no trânsito. “Também trabalhamos nas ruas, por meio de divulgação de panfletos e blitze educativas.”