Serviço de acolhimento de crianças e adolescentes busca famílias parceiras em JF
Durante a pandemia, número de pessoas cadastradas para abrigar e cuidar de crianças em situação de vulnerabilidade social caiu de 12 para nove
O Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora (Safa), que atua em Juiz de Fora há 12 anos para garantir a proteção de crianças e adolescentes em situação de risco, é mais um dos serviços impactados pela pandemia de Covid-19. Até agosto de 2020, 12 famílias parceiras faziam o acolhimento temporário de crianças afastadas de seus responsáveis por determinação judicial. Entretanto, com a pandemia, este número caiu para nove. Agora, a Secretaria de Assistência Social da Prefeitura de Juiz de Fora (SAS/PJF) busca aumentar a quantidade de famílias acolhedoras, já que este acolhimento é um dos passos para que crianças em situação de vulnerabilidade possam ser reintegradas às suas famílias de origem ou extensas – quando são entregues aos cuidados de tios ou avós.

Conforme a coordenadora do Safa, Andrezza Vaz dos Reis, a pandemia impactou diretamente o trabalho, já que durante este período houve casos em que não havia famílias disponíveis para fazer o acolhimento. “Houve procura pelo acolhimento familiar, e algumas vezes não conseguimos atender por não ter famílias disponíveis. O Safa continuou acolhendo as crianças durante a pandemia, com todos os cuidados e protocolos da Covid-19, porém, não obtivemos grande procura por parte de famílias acolhedoras iniciantes”, conta Andrezza.
A promotora da Vara da Infância e Juventude de Juiz de Fora, Samyra Ribeiro, acrescenta que a pandemia também intensificou as situações de vulnerabilidade social na cidade, afetando crianças e adolescentes. Ela acredita, inclusive, que durante este período pode ter havido uma subnotificação de casos em que menores de idade estavam em risco, visto que, muitas vezes, as escolas é que acabam denunciando situações vivenciadas por eles em casa, e com a suspensão das aulas presenciais, o número de registros pode ter diminuído. “O professor, em contato direto com o aluno, é o primeiro a identificar várias situações de maus tratos, de abuso sexual, de negligência. Então, não tendo esta porta da entrada que seria a da escola, estamos vendo hoje que há uma subnotificação.”

Para Samyra, a crise econômica que afeta o país também é um dos fatores que contribui para a maior exposição de crianças e adolescentes a situações de risco, como no caso do trabalho infantil. “Nós estamos tendo um aumento muito grande no custo de vida, tudo está muito mais caro, e isso está fazendo com que muitas crianças e adolescentes tenham que sair de casa para poder conseguir dinheiro e ajudar a família.”
Desta forma, a promotora reforça a importância do serviço de acolhimento coordenado pelo Safa para promover um melhor desenvolvimento psicológico da criança e do adolescente e construir uma convivência tanto familiar, quanto comunitária, já que eles acabam se envolvendo com a vizinhança e com os serviços oferecidos no local em que a família acolhedora vive.
“Nós temos um serviço muito bom de acolhimento, profissionais que dão toda a assistência. E é importante que essa criança ou esse adolescente entre no acolhimento familiar e se sinta em casa, se sinta tendo um lar. Essa família vai dar toda estrutura para ele passar a ter o que não tinha antes, então para criança é melhor, pois eles crescem melhor”, defende a promotora Samyra Ribeiro.
Criação de vínculos
A coordenadora do serviço, Andrezza Vaz dos Reis, também destaca a importância da criação de vínculos estáveis e seguros, o que possibilita que tanto a criança como o adolescente em situação de risco encontrem pessoas em quem podem confiar e compartilhar experiências. Esse cuidado, de acordo com a coordenadora, pode ajudá-los a lidar melhor com seus medos, dúvidas e traumas.
Para a supervisora de Acompanhamento das Políticas de Acolhimento Institucional e Programas de Apoio Psicossocial de Crianças e Adolescentes, Liliane Chaves Oliveira Knoop, o serviço desenvolvido pelo Safa é essencial, pois “o ato de acolher de forma humanizada com amparo, proteção, atenção, escuta e um olhar de carinho serão os diferenciais na trajetória dessa criança e desse adolescente”.
Afeto e acolhimento
Já faz dez anos que a professora Aline de Castro e seu marido, Bruno Cesar Ribeiro, se tornaram uma família acolhedora. Neste período, o casal acolheu nove crianças temporariamente em sua casa. Parceira do Safa, a professora defende que o serviço é fundamental para que as crianças e adolescentes permaneçam em uma família durante esse período de incertezas, continuando ou passando a ter uma referência, além de receberem cuidado e atenção.

“Quando essas crianças chegam na nossa casa, elas trazem as suas histórias, as suas vivências, e trazem também o sofrimento de terem sido tiradas de suas famílias, porque apesar delas terem sido afastadas por algum problema grave, elas não entendem isso e querem ficar com suas famílias. Por isso, nosso papel nesse momento é de acolher, de procurar, de dar carinho e atenção, cuidados que ela precisa até que ela possa retornar para a sua família de origem”, explica Aline.
A professora comenta que o serviço também contribuiu para sua própria família, já que, mesmo após o retorno das crianças ao lar, o casal busca manter contato. “Às vezes, conseguimos manter um vínculo com eles e ter uma certa aproximação mesmo depois que eles saem da nossa casa, e isso nos ajuda também a ter a certeza que cumprimos nossa missão junto deles e que eles vão seguir seus caminhos da melhor forma possível,” conta Aline.
Como funciona
O Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora (Safa) faz parte do serviço de Proteção Especial do Sistema Único de Assistência Social e tem como objetivo atender crianças e adolescentes, com idades entre 0 e 18 anos, colocando-os temporariamente em famílias acolhedoras até a família de origem ou extensa superar as dificuldades que causaram a retirada da criança, para que esta possa retornar ao seu convívio e cuidados. Todo o processo e acompanhamento é determinado pela Vara da Infância e Juventude, em parceria com a Secretaria de Assistência Social. O prazo máximo de adoção temporária é de 18 meses.
As famílias acolhedoras são pessoas da comunidade que se propõem a cuidar e acolher, voluntariamente, crianças e adolescentes em suas residências até que a decisão judicial acerca da determinada situação seja tomada. Para se tornar uma família acolhedora, é necessário passar por um processo de avaliação, seleção e treinamento, para ser cadastrado e autorizado a oferecer o acolhimento.
No momento em que a criança é acolhida, a família passa a ser acompanhada, pelo menos uma vez por semana, ou conforme a demanda, pela equipe técnica do Safa. O amparo no desenvolvimento dessa criança e desse adolescente é feito de forma particular, e a equipe traça um Plano Individual de Acompanhamento junto com a família acolhedora para garantir todo o apoio necessário junto à rede de atendimento, como, por exemplo, o acesso a psicóloga. Além disso, o vínculo com a família de origem ou extensa, geralmente, é preservado, mantendo o contato e incentivando a reintegração familiar.
Nos casos em que a família de origem não tem condições de assumir definitivamente os cuidados de seus filhos, eles são encaminhados, em um primeiro momento, para famílias extensas, que seriam os tios e avós. No entanto, se não for possível que a família biológica fique com a guarda da criança, a última alternativa é encaminhar, de acordo com a determinação judicial, para a adoção das famílias substitutivas – pessoas que estão cadastradas no Sistema Nacional de Adoção junto à Vara da Infância e Juventude. Até a situação ser resolvida, uma família acolhedora pode proteger e cuidar.
Cadastro
Os interessados em acolher crianças em situação de vulnerabilidade não precisam ter interesse em adoção definitiva e nem estarem inscritos no Sistema Nacional de Adoção (SNS), pois as famílias acolhedoras são proibidas, por lei, de adotar. Entretanto, para se cadastrar são necessários requisitos, como ter disponibilidade afetiva e emocional; ser maior de 21 anos; não ter antecedentes criminais; não ter restrição de estado civil; e todas as pessoas que residem na mesma casa têm que estar de comum acordo com o acolhimento temporário.
Para se inscrever, a pessoa deve entrar em contato com o Safa pelo e-mail [email protected] ou pelos telefones (32) 3031-9302 ou 99163-0026. O Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora fica localizado na Rua Maria Garcia 254, no Bairro de Lourdes. Após realizarem o cadastro, os interessados serão selecionados, capacitados e acompanhados por uma equipe composta por um coordenador, um psicólogo e um assistente social.








