Novembro azul: meninos vão ao urologista 18 vezes menos do que meninas ao ginecologista

Dados do Ministério da Saúde chamam atenção para dificuldade de adesão dos adolescentes à saúde preventiva; especialista orienta pais a tratarem do tema 


Por Nayara Zanetti

02/11/2025 às 06h00

selo novembro azulO Novembro Azul é conhecido por sua importância na conscientização sobre o câncer de próstata em homens adultos. No entanto, a saúde masculina vai muito além dessa patologia, e o ideal é que a prevenção comece muito antes dos 45 anos. Porém, o atual cenário preocupa. De acordo com dados do Ministério da Saúde, meninos vão 18 vezes menos ao urologista do que meninas ao ginecologista na faixa etária dos 12 aos 18 anos. Dando início à série especial da Tribuna dedicada à campanha, a primeira matéria aborda a importância de um olhar atento à saúde dos meninos ainda na adolescência, visando a incentivar a formação de hábitos saudáveis e a construção de uma rotina de cuidados desde cedo

Hábitos saudáveis que moldam o futuro 

novembro azul miguel coelho
Miguel acredita que cuidados com a saúde devem começar desde novo. (Foto: Arquivo pessoal)

Aos 17 anos, Miguel Coelho já demonstra consciência sobre a importância de cuidar da saúde desde cedo. “Na minha opinião, cuidar da saúde enquanto jovem pode fazer imensa diferença no futuro, pois, quando novo, é mais fácil criar hábitos como ir para a academia e evitar uma alimentação não saudável”, diz. Ele acredita que os hábitos formados na juventude tendem a perdurar na vida adulta. Sobre o Novembro Azul, Miguel reconhece a campanha, mas aponta uma lacuna: “eu já vi em cartazes e publicidades, tanto na cidade quanto na TV, mas geralmente não é um tema dentro do meu ciclo social”. A fala reflete um desafio: a necessidade de expandir a conversa sobre saúde masculina para além dos veículos tradicionais, alcançando os jovens em seus próprios espaços. 

Em seu círculo social, ele e seus amigos conversam sobre atividades físicas, embora mais como um hobby e não tanto sobre saúde. Ainda assim, Miguel vê a visita ao médico como crucial para “a previsão de possíveis futuras doenças, além de um diagnóstico de onde melhorar na área da alimentação e outros hábitos”. Para ele, o ideal é ir ao médico preventivamente, e não apenas quando já se está doente, embora reconheça as barreiras de acesso à saúde para muitos. 

O papel dos pais no incentivo ao cuidado 

Clorisana Abreu e Pedro Henrique Baptista, pais de Davi, de 11 anos, e Francisco, 15, apostam não só em uma rotina de consultas médicas regulares, mas em uma abordagem sistêmica para a saúde de seus filhos, enraizada na alimentação e na conexão com a natureza. “Toda criança – seja menino ou menina – precisa (para sua plena saúde) de uma visão sistêmica”, afirmam. Como engenheiro de alimentos e nutricionista, eles priorizam uma dieta rica em alimentos não ultraprocessados, incentivando o consumo de frutas, verduras, legumes e sucos naturais. 

A rotina em sua casa inclui cafés da manhã nutritivos, almoços balanceados e lanches saudáveis, com a substituição de industrializados por opções caseiras. A família possui um pomar e uma horta, onde os meninos são incentivados a participar do plantio, cuidado e consumo direto dos alimentos. Além disso, outras práticas sustentáveis são tidas como fundamentais na família, como a coleta de água da chuva, aquecimento solar e cultivo de mudas. Essa vivência, segundo os pais, “criou uma visão holística da saúde como um todo, onde eles percebem que, para ter saúde, precisam promover a saúde deles e do meio ambiente.” 

novembro azul filhos da clorisana davi e francisco
Pais de Davi e Francisco incentivam rotina saudável e contato com a natureza como fatores fundamentais para os cuidados com a saúde. (Foto: Arquivo pessoal)

Esse estilo de vida impacta diretamente o desenvolvimento dos filhos: “Ao fornecer os alimentos nutricionalmente balanceados, eles conseguem ter um maior rendimento escolar, maior atenção às suas tarefas e um alto índice de crescimento, ao mesmo tempo em que se evita a obesidade infantil e doenças como diabetes ou pressão alta.” Além da alimentação, a família estimula a prática de exercícios físicos, boa higiene, uma rotina de sono regrada e atividades lúdicas e voluntárias. Eles veem a boa saúde adulta como uma “poupança”, onde cada “real depositado” é um bom alimento e uma boa noite de sono. 

Segundo Clorisana e Pedro, além dos hábitos saudáveis, os meninos também entendem a importância das visitas anuais a oftalmologista e dentista, e de exames periódicos. O envolvimento nas escolhas alimentares e no preparo de suplementos vegetais os torna ativos na gestão da própria saúde. “Desde pequenos, eles participaram ativamente da vida familiar com uma rotina regrada e, de forma natural, entenderam que uma boa saúde é consequência dos nossos atos praticados”, relatam os pais.

Eles acreditam que essa vivência com alimentação saudável, contato com a natureza e preparo de suplementos cria nos meninos uma maior consciência e responsabilidade sobre o próprio corpo e a saúde para o futuro. “Nosso corpo é reflexo de nossas escolhas e pode muito bem disfarçar uma falsa saúde”, alertam. 

Urologista recomenda consulta na adolescência 

Novembro Azul
(Foto: Arquivo pessoal)

O médico especializado em urologia Fabrício Siqueira afirma que o ideal é que os pais levem seus filhos ao urologista no início da adolescência. De acordo com o médico, a consulta nessa faixa etária é válida devido a necessidade de avaliar o desenvolvimentos dos caracteres sexuais masculinos e dar orientações sobre as principais patologias que podem acometer esses pré- adolescentes. “Além disso, é preciso dar orientações sobre os cuidados necessários quanto ao início da atividade sexual dos meninos, como a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejável.” 

Embora o foco do Novembro Azul seja o câncer de próstata, a campanha também aborda outros pontos que podem ser esclarecidos durante uma consulta, como patologias como a Hiperplasia Prostática Benigna (HPB) e a Disfunção Erétil. O especialista também explica que é muito importante criar desde novo o hábito de realizar atividades físicas regulares, pois, aliada a alimentação balanceada, é um dos principais fatores na prevenção de doenças urológicas. “Uma boa hidratação é fundamental para a prevenção de cálculos renais e infecção do trato urinário”, acrescenta o médico. 

O urologista acredita que o Novembro Azul é responsável por uma maior procura de pacientes pela consulta especializada. Há 17 anos, Fabrício trabalha na área e observa o crescimento no número de homens que buscam atendimento médico, principalmente os que estão se aproximando da faixa de risco da doença. “É nítido que houve uma desmistificação do exame de próstata. A prevenção é o melhor caminho para se evitar doenças ou para diminuir os seus impactos negativos. Portanto, os pais devem levar seus pré-adolescentes ao urologista. Os homens adultos, a partir dos 45 anos se com história familiar positiva ou 50 anos se não tiverem, devem fazer seu controle anualmente.”