Por JF: Plenária debate crise climática, risco urbano e adaptação em Juiz de Fora; acompanhe em tempo real
Debate integra o Seminário “Risco Ambiental e Políticas para Resiliência: Por JF”

Meses após as tragédias causadas pelas chuvas de fevereiro, Juiz de Fora debate os próximos passos para se tornar uma cidade mais resiliente. A plenária “A crise climática e as cidades”, realizada nesta terça-feira (2), na Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), discute os impactos da crise climática sobre os centros urbanos, os novos padrões de risco e vulnerabilidade e os caminhos para adaptação e prevenção.
O debate integra a programação do Seminário “Risco Ambiental e Políticas para Resiliência: Por JF”, realizado nesta terça e quarta-feira com a presença de pesquisadores, especialistas, gestores públicos e líderes comunitários com o objetivo de formalizar propostas para a adaptação climática, a redução de riscos e o fortalecimento da resiliência urbana da cidade.
Na manhã desta terça, a mesa de abertura do seminário reuniu a prefeita Margarida Salomão, a diretora-presidente da Rede Tribuna de Comunicação, Suzana Neves, o editor-geral da Tribuna de Minas, Paulo Cesar Magella, o presidente da Câmara José Márcio Garotinho e a reitora da UFJF, Girlene Alves. A expectativa da líder do Executivo é que o seminário resulte em um plano de ação para a cidade e em uma mudança de consciência de toda a sociedade. “A calamidade climática é hoje uma presença em nossas vidas”, afirmou Margarida.
Compondo a mesa da plenária, o presidente da Câmara, José Márcio Garotinho, atua como coordenador do debate, ao lado da professora doutora Cássia Castro, coordenadora da estação meteorológica da UFJF; do professor doutor Walcyr Duarte Nascimento, professor titular do IF Sudeste MG; do arquiteto e urbanista Guilherme Nogueira Ragone, presidente do IAB-ZMV; da secretária de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, Aline Junqueira; e do geólogo Agostinho Tadashi Ogura.
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Ogura iniciou sua fala com uma avaliação direta: nenhuma cidade brasileira estava preparada para o que aconteceu em Juiz de Fora. Para o geólogo, a variabilidade climática não é novidade no país. “Em 1947 e 1948, tivemos uma tragédia muito grande em Além Paraíba e Leopoldina, mas a gente esquece”, lembrou, citando uma série de outros desastres que marcaram o Brasil ao longo das décadas sem que o tema da resiliência climática entrasse na agenda pública.
O que mudou, segundo o geólogo, é a frequência. Se antes havia a impressão de que esses eventos ocorriam de 20 em 20 anos, desde 2000, a realidade é outra: os desastres se repetem praticamente todo ano. O caso do Rio Grande do Sul, que afetou um estado inteiro, é exemplo recente.
“Tudo tem mostrado que, historicamente, esses fenômenos já aconteciam, e a tendência, devido à pegada humana, de interferências diretas ou indiretas em todo o planeta, é de agravamento.”
Para Ogura, o risco tem dois componentes: a ameaça, ligada à natureza meteorológica do Brasil, e a vulnerabilidade, determinada pelo grau de exposição da população. E é nesse segundo fator que está a margem de atuação. “Não podemos admitir mais pessoas morando da forma que moram atualmente”, disse, apontando o planejamento urbano e o controle da ocupação do solo como caminhos concretos.
A técnica, para ele, já existe. O que falta é a união de todos os atores em torno de um plano comum.
“Tem que ser pensado no melhor, no ideal. No conceito de cidade resiliente, o mais importante é que ela é governada por todos de forma competente, responsável e inclusiva. Se não tiver todo o conjunto, principalmente os mais vulneráveis incluídos, pode esquecer o plano.”
54% das chuvas do verão caíram em fevereiro

A coordenadora da estação meteorológica da UFJF, professora Cássia Castro, trouxe dados que ajudam a entender o que aconteceu em Juiz de Fora no verão 2025/2026. Entre outubro e março, a média histórica de chuvas na cidade é de 1.339,4 mm. No período equivalente deste ano, o volume chegou a 1.423,4 mm, mas o dado mais alarmante é a distribuição: 54% de toda essa chuva caiu em fevereiro.
Para a pesquisadora, não há tendência de aumento no volume total de chuvas. O que está mudando é o comportamento. A estação seca está começando mais seca e terminando mais tarde, o que comprime as precipitações em janelas cada vez mais curtas. O resultado é o que os dados mostram: dezembro e janeiro choveram pouco, o carnaval deu uma trégua, mas os picos antes e depois foram intensos, com fevereiro concentrando um volume anormal em poucos dias.
Prevenção é salvar vidas
O professor titular do IF Sudeste MG, Walcyr Duarte, alinhou sua análise à de Ogura e reforçou que, embora a crise climática seja um fenômeno global, seus efeitos são locais e específicos para cada cidade. Por isso, para ele, a saída passa necessariamente por respostas pensadas para a realidade de Juiz de Fora. “A parte mais importante do seminário é sair com um plano integrado”, afirmou, sintetizando o que considera a entrega mais concreta que o evento pode deixar para a cidade. Para ele a urgência é clara: prevenção é salvar vidas.
‘Somos guerreiros’
As vozes das comunidades mais atingidas pelas chuvas de fevereiro também marcaram a plenária. Marcileia Rodrigues, liderança comunitária do Bairro Esplanada, na Zona Norte, agradeceu ao poder público, aos voluntários e a todos que apoiaram a comunidade nos meses mais difíceis. Ela contou que moradores se organizaram por cerca de três meses para montar uma estrutura de apoio que atendeu não só o Esplanada, mas também comunidades vizinhas.
A liderança não poupou palavras ao descrever o que viveu.
“A pior parte foi ver moradores soterrados pedindo socorro. Tive que pegar roupa de doação para enterrar moradores mortos. Estamos firmes. Somos guerreiros.”
Projetos que estavam em andamento no bairro precisaram ser interrompidos, mas Marcileia encerrou sua fala com esperança. “Vamos reconstruir nossa cidade. Não vai ser fácil, mas temos esperança. Se depender do nosso apoio, estaremos presentes”, concluiu.
Fernanda Alves, liderança comunitária do Bairro Industrial, trouxe uma perspectiva diferente: seu bairro enfrenta enchentes há 40 anos, e ela está nessa luta há 14. Marcou sua fala com uma memória pessoal – ficou presa em casa enquanto sua filha pequena tinha uma crise de bronquiolite, roxa nos seus braços, sem que os bombeiros conseguissem chegar. “Não tivemos vítimas, mas ela poderia ter sido a primeira”, disse. As obras do PAC são vistas com esperança, mas Fernanda é direta ao afirmar que não serão suficientes sozinhas. “As pessoas precisam entender que o descarte irregular de lixo é crime ambiental, e mesmo assim praticamos”, alertou.
Momento de questionar como construímos Juiz de Fora
O arquiteto e presidente do IAB-ZMV , Guilherme Nogueira Ragone, falou sobre o papel e o compromisso da arquitetura diante do momento que Juiz de Fora atravessa. Para ele, a profissão tem responsabilidade direta com a dor de quem perdeu pessoas e bens materiais, e pensar a cidade exige que arquitetura e urbanismo entrem no processo desde o início, não na ponta.
Ele destacou o limbo em que milhares de pessoas se encontram sem casa. “As pessoas não podem ficar nesse limbo eterno”, disse, cobrando definições concretas sobre onde e como as novas moradias serão construídas. Ele lembrou que a lei de ocupação do solo de Juiz de Fora é de 1986 e que o processo de atualização do zoneamento municipal está em curso, 40 anos depois.
Para o arquiteto, a tragédia abriu uma janela rara. “A chuva foi uma catástrofe, mas veio em tempo para questionarmos como construímos nossa cidade”, avaliou. Ragone defendeu que os bairros mais afetados precisam ser incluídos no debate e que construir uma cidade mais saudável passa por participação e concordância crítica. “A hora para vislumbrar uma Juiz de Fora diferente é agora”, concluiu.
‘Projeto para a comunidade não é luxo’
A secretária de Meio Ambiente Aline Junqueira lembrou sua militância pela Zona Norte e reconheceu que anos de questões deixadas para trás agravaram a situação da cidade, com a pandemia de Covid-19 tornando ainda mais difícil o início da gestão. Para ela, a mudança precisa ser estrutural. “A mudança tem que ser pensando em investimento. Projeto para a comunidade não é luxo”, afirmou, defendendo que áreas verdes em encostas não podem ser abandonadas e que a preservação ambiental precisa ser cobrada de todos. Junqueira foi direta ao apontar os limites da atuação municipal: a prefeitura depende do orçamento federal, e a solução passa por uma experiência compartilhada entre quem financia e quem vive na cidade.
*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli
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