Cidade ainda precisa se preparar para a velhice
“A principal dificuldade dos idosos é a questão cultural.” Assim a coordenadora do Polo de Enriquecimento Cultural para a Terceira Idade da UFJF, Sandra Arbex, define a situação dos idosos juiz-foranos. Os problemas enfrentados por essas pessoas são os mais diversos, desde uma simples caminhada pelas ruas esburacadas, a escolha de uma roupa, a ida ao banco até pegar ônibus e viajar. Aparecida Brück, 77 anos, sente essas dificuldades e a falta de respeito quando precisa caminhar pela cidade. “As calçadas são muito irregulares. A gente precisa ter muito cuidado para andar. Nos ônibus, eles reservam só a parte da frente aos idosos, quando passamos para a parte de trás, ninguém dá lugar.”
Só em Juiz de Fora, há aproximadamente 70.065 pessoas com 65 anos ou mais, segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010. Esse número representa 12,7% da população juiz-forana. Em dados mais atualizados, neste ano, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contabilizou 83.606 idosos eleitores, o que corresponde a 15% da população do município (ver quadro). A média nacional é de 13% da população, com 26,1 milhões.
O assistente social e gerontólogo José Anísio Pitico da Silva acredita que falta aos juiz-foranos “educação para o envelhecimento”. Para ele, as cidades não se adequam ao ritmo e estilo de vida desses indivíduos, pois as atividades estão planejadas só para um grupo de pessoas. Além disso, os idosos são alvos fáceis da insegurança. Geralda de Lima Castro, 81, não anda sozinha na rua há seis anos. “Tenho medo de assaltantes principalmente quando vou ao banco. São minhas filhas que sacam para mim.” Os que optaram por levar uma vida mantendo maior individualidade e morando sozinho precisam se virar para resolver os problemas domésticos. É o caso de José Francisco Garcia, 79. “Estou adaptado às tecnologias do banco e até viajo sozinho. Mas tenho medo de sair à noite, pois Juiz de Fora está muito perigoso.”
Segundo Pitico, os maiores gastos do idoso padrão continuam sendo com medicamentos. “Cerca de 60% do salário da velhice das classes populares estão comprometidos com o consumo de remédios.” Geralda gasta em média R$ 1 mil por mês só na farmácia.
Sustento
O gerontólogo conta que os idosos são os que mais ajudam em casa, com as despesas. “O idoso é a sustentação financeira da despesa do dia a dia. Até isso os coloca em uma condição de presa. São vítimas fáceis dos empréstimos consignados. São seduzidos a pegar empréstimo porque querem ajudar o filho a comprar um carro, pagar estudo. Se compromete com aquilo e depois não é capaz de pagar. Há casos de idosos forçados, por meio de violência física ou psicológica dos familiares, a buscar empréstimos.” No entanto, Pitico deixa claro que existem distintas velhices. “Há idosos que vão para a Europa, viajam de avião, comem em restaurantes. Mas essa não é a velhice que forma o grosso da população brasileira.”
Educação
Dez por cento da população mais velha da cidade ainda é analfabeta. No entanto, os que procuram o ensino se sentem realizados. É o caso de Manoel Bernardino do Nascimento, 87. Ele aprendeu a ler e escrever com 85 anos, no programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA), e hoje gosta de escrever poesias. “Eu tenho 2.500 histórias escritas.”
Necessidade de investir em instituições
De acordo com o assistente social e gerontólogo José Anísio Pitico da Silva, há propostas de projetos para serem implantadas em Juiz de Fora que visam à melhorar a qualidade de vida da população idosa. “Uma delas é a criação de uma instituição de longa permanência para o idoso com a gestão da Prefeitura. A maioria dos asilos em Juiz de Fora é particular.” Pitico conta que também existem serviços de meio tempo que podem ser implantados em Juiz de Fora futuramente. No centro-dia, como é chamado, a pessoa fica um período do dia realizando atividades para sair da ociosidade e depois retorna para dormir em casa, com a família. Outra necessidade que a cidade precisa implantar é a oferta de cursos para cuidadores de idosos. “Os poucos cursos oferecidos aqui são pagos. Desde 1990, Juiz de Fora praticamente não tem novidade de serviços para a terceira idade. A população idosa só cresce, mas fica do mesmo tamanho o direcionamento de ações públicas para atender suas necessidades.”
Opções
Apesar do déficit, alguns programas já trazem melhorias na qualidade de vida desta população. Um deles é o Polo de Enriquecimento Cultural para a Terceira Idade da UFJF, que oferece cursos como oficinas ligadas à inclusão digital, línguas estrangeiras e postura corporal. “Temos vários cursos, inclusive de atualização do conhecimento, no qual são trabalhados temas atuais e questões sobre a saúde e o direito com os idosos”, conta a coordenadora do polo, Sandra Arbex. A coordenadora acredita que “é preciso uma mudança de postura das gerações mais novas no sentido de perceber que o idoso deve ser respeitado, é um cidadão.” Para participar do programa, é preciso ter a partir de 45 anos e aguardar a abertura de vagas. “Há uma taxa para participar, mas há também sistema de bolsas. Ninguém deixa de estudar por causa do dinheiro.”
Outro programa para idosos é a Faculdade Aberta “A melhor idade”, o Famidade, do Instituto Metodista Granbery. O projeto é destinado a pessoas acima de 55 anos. Segunda a idealizadora e coordenadora, Ana Paula Vasconcelos, o Famidade possui duração de três anos e é composto por três módulos de atividades: promoção à saúde, tecnologia e linguagem e lazer, arte e cultura. As aulas acontecem duas vezes por semana. A cada processo seletivo são abertas 400 vagas. Para participar, é preciso pagar taxa mensal R$ 45. Ana Paula conta que muitos chegam ao Famidade fragilizados. “Com o tempo, mudam totalmente.”








