Piloto é preso por planejar sequestro ‘Aconteceu no nosso nariz e a gente não viu’

Aparecida Schunk Flosi Palmeira, 67 anos, foi mantida em cativeiro por nove dias
São Paulo (AE) – A Polícia Civil prendeu ontem o homem apontado como mentor do sequestro de Aparecida Schunk Flosi Palmeira, de 67 anos, sogra do chefe da Fórmula 1, Bernie Ecclestone, de 85. Jorge Eurico da Silva Faria, conhecido como comandante Faria, é piloto de helicóptero e trabalhou para Ecclestone em eventos da Fórmula 1 quando o empresário vinha ao Brasil.
A mulher foi sequestrada em casa, em Interlagos, na Zona Sul de São Paulo, no dia 22 de julho, e ficou nove dias no cativeiro, até ser libertada pela polícia, em um imóvel em Cotia, na Grande São Paulo no domingo. Os bandidos pediram inicialmente 168 milhões de euros de resgate e mandaram seis e-mails para a família exigindo que o dinheiro fosse colocado em sacos divididos em três helicópteros. O valor não foi pago.
A ação dos bandidos começou quando dois homens invadiram a casa de Aparecida, na Rua João Teizen Sobrinho, em Interlagos, por volta das 13h30. Os bandidos tocaram o interfone e anunciaram que estavam ali para fazer a entrega de móveis que a sogra de Bernie aguardava. De fato, Aparecida esperava receber os produtos, que seriam entregues em sua casa. Por isso, ela se adiantou às duas funcionárias da casa e foi abrir o portão. Acabou dominada pelos criminosos.
Faria foi preso em casa, em um condomínio de luxo na Granja Viana, também em Cotia, às 4h30, e autuado em flagrante por extorsão mediante sequestro. Segundo a polícia, ele telefonou e recebeu vários telefonemas dos dois homens responsáveis por sequestrar a vítima depois de invadir a casa dela se passando por entregadores de móveis. A dupla, Vitor Oliveira Amorim, 19, e Davi Vicente Azevedo, 23, foi presa na noite de domingo (31).
Na Divisão Antissequestro (DAS), Amorim afirmou que participou de três reuniões com o piloto durante o sequestro de Aparecida, que é mãe da advogada Fabiana Ecclestone, 38 anos, casada com o chefe da Fórmula 1 desde 2012. Em um dos encontros, ficou acertado que o piloto pagaria R$ 20 mil para cada um dos bandidos. Na saída da delegacia, Faria negou as acusações à imprensa. “Não tenho nada a ver com isso. Nunca vi esses dois.”
Ele afirmou também que sempre teve muito carinho pela família de Ecclestone – é amigo da vítima no Facebook – e que estava morando fora do país. Segundo as investigações, porém, ele planejou o sequestro depois de ter sido demitido pela família há cerca de seis meses, após a descoberta de que o piloto era investigado pelo furto de uma aeronave.
No início do ano passado, ele foi indiciado pela Polícia Civil pelo furto de um helicóptero em junho de 2014, ocorrido no hangar da empresa Helicidade, no Jaguaré. A aeronave foi encontrada abandonada e sem combustível em um matagal na cidade de Amparo, no interior paulista, onde Fabiana Ecclestone tem uma fazenda de café. Em abril de 2015, ele entrou com dois habeas corpus na Justiça para tentar trancar a investigação no 93º DP (Jaguaré), mas os pedidos foram indeferidos. A reportagem contatou a advogada dele, Priscila Mendizabal, que não respondeu.
Cotia (AE) – A doméstica Maria de Fátima Oliveira, 61 anos, tem os olhos inchados. Desde a noite de domingo (31), chora a intervalos curtos. É que o sobrado onde mora em Cotia, na Grande São Paulo, foi durante nove dias o cativeiro de Aparecida Schunk Flosi Palmeira, 67 anos, sogra do chefe da Fórmula 1, Bernie Ecclestone, 85. “Aconteceu na ponta do nosso nariz, e a gente não viu nada.”
O sobrado fica na Rua São Serafim, uma ladeira de casas grandes e simples. Proprietária do sobrado há 16 anos, Maria de Fátima e o marido, Leandro Furtado, de 64, dividiram o imóvel em cinco partes, com três portões independentes. O casal aluga quatro delas e mora nos fundos da propriedade.
Em agosto, faria dois meses que a área de cerca 37 m², dividida em sala, quarto, cozinha e um banheiro minúsculo, que mal cabe mesmo um sanitário e um chuveiro, havia sido alugada a Vitor Oliveira Amorim, um dos acusados do sequestro. Ele foi detido no domingo, por volta das 18h40, pela Divisão Antissequestro (DAS), da Polícia Civil. Para acessar o local, que fica no térreo, era preciso abrir o portão do meio. O quarto, onde Aparecida ficou, não tem janela e, de fora, só é possível ver um lençol florido. A porta da cozinha era mantida sempre fechada e a luz, acesa. A pia está suja, com meia dúzia de pães velhos e a torneira pingando. No chão, há cascas de banana, mais pães e uma marmita com resto de feijão preto e arroz.
Os vizinhos não viam motivos de desconfiança – mesmo que Vitor tenha sido visto com mais frequência de uma semana para cá. O rapaz era discreto e educado. “Ele disse que vinha morar com a namorada. Dava sempre ‘bom dia’, parecia um menino bom”, diz a proprietária. Pelo espaço, o casal recebia R$ 430. A desconfiança de todos era de que o local fosse usado para encontros amorosos. “Acho que vai ficar um bom tempo sem alugar, mas a gente precisa do dinheiro. Ganhamos mixaria.” “A gente nunca escutou nada. Nem choro, nem grito. Nunca ouvimos barulhos de chuveiro, nem de panela”, diz a operadora de máquina Rosimeire Nascimento, de 47 anos, que mora há mais de dois anos parede com parede com o cativeiro. Vitor, dizem os vizinhos, chegava de madrugada com sacolas, que sempre ia buscar de carro – um Polo Preto. Também já foi visto lavando o veículo na garagem. De manhã, deixava o lixo na rua e ia embora.









