Vietnamita sofria para falar inglês quando estudava em Stanford, criou aplicativo para resolver o próprio problema e hoje alcança 100 milhões de alunos em 120 países
A economista vietnamita Vu Van chegou aos Estados Unidos com domínio de leitura, escrita e provas em inglês, mas descobriu que isso não era suficiente…

A economista vietnamita Vu Van chegou aos Estados Unidos com domínio de leitura, escrita e provas em inglês, mas descobriu que isso não era suficiente para se comunicar com naturalidade no dia a dia. Durante os estudos na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, ela percebeu que tinha dificuldade para ser compreendida ao falar e começou a perder a confiança no próprio inglês.
A experiência pessoal acabou dando origem a uma empresa de tecnologia educacional. Em 2015, Van fundou a ELSA, sigla para English Language Speech Assistant, uma plataforma que utiliza inteligência artificial para ajudar estudantes a praticar a conversação e melhorar a pronúncia. Dez anos depois, a companhia afirma ter ultrapassado 100 milhões de usuários em 120 mercados e captado cerca de US$60 milhões em investimentos.
A dificuldade apareceu durante os estudos em Stanford
Antes de criar a empresa, Vu Van já tinha uma trajetória profissional internacional. Nascida no Vietnã, ela passou pela Dinamarca e trabalhou como chefe de gabinete do CEO da Maersk, empresa do setor de logística, antes de se mudar para os Estados Unidos para fazer um MBA em Stanford. Ela também cursou mestrado em Educação na universidade.
Foi nesse ambiente acadêmico que a diferença entre conhecer o idioma e conseguir utilizá-lo em uma conversa ficou evidente. Van contou à Exame que havia estudado inglês durante toda a vida e tinha bom desempenho em leitura, escrita e provas, mas enfrentava dificuldades para ser compreendida ao falar.
O problema não era exclusivo dela. Outros estudantes internacionais que estavam ao seu redor também haviam passado anos estudando inglês, mas continuavam inseguros quando precisavam falar em situações reais. A percepção de que havia uma dificuldade compartilhada ajudou a transformar a experiência pessoal em uma ideia de negócio.
O aplicativo nasceu para resolver o problema da conversação
Em 2015, Van criou a ELSA com o objetivo de usar tecnologia para atacar justamente essa dificuldade. A plataforma foi desenvolvida para ouvir o usuário falando inglês, identificar problemas de pronúncia e oferecer retorno durante o aprendizado.
Para desenvolver a tecnologia, Van conheceu o cientista Xavier Anguera durante uma conferência na Alemanha. Especialista em reconhecimento de fala, ele se tornou cofundador da empresa e passou a trabalhar ao lado da empreendedora, que tinha experiência nas áreas de negócios e educação.
A proposta era usar inteligência artificial para ampliar o acesso à prática de conversação. Em vez de depender exclusivamente de aulas individuais, a tecnologia poderia funcionar como uma espécie de treinador disponível a qualquer momento, permitindo que o aluno praticasse sem precisar encontrar outra pessoa para conversar.
A primeira versão já conseguia ouvir o estudante e fornecer feedback enquanto ele falava. A demonstração ajudou a mostrar aos investidores que a tecnologia poderia ser transformada em um produto.
Empresa chegou a 100 milhões de usuários
Uma década depois da fundação, a ELSA afirma ter ultrapassado 100 milhões de usuários em 120 mercados. A empresa também informa ter trabalhado com mais de 1.300 organizações, ampliando a atuação para além dos estudantes individuais.
Ao longo da trajetória, a companhia captou aproximadamente US$60 milhões em investimentos. A ELSA não divulga atualmente o faturamento nem informa se já atingiu lucro, mas uma estimativa pública apontava uma receita recorrente anual de US$32,5 milhões em 2023.
Segundo Van, a estratégia financeira da empresa também mudou com o amadurecimento do negócio. A prioridade deixou de ser crescer a qualquer custo e passou a incluir eficiência e sustentabilidade financeira, com investimentos concentrados no desenvolvimento de inteligência artificial e produtos, na expansão internacional e no mercado corporativo.
São Paulo virou base para a operação nas Américas
O Brasil passou a ocupar uma posição importante nos planos de expansão da empresa. A ELSA instalou em São Paulo o escritório regional responsável pelas Américas e colocou o país entre os mercados prioritários.
A escolha está relacionada ao tamanho da população brasileira, à dimensão da força de trabalho e ao espaço existente para ampliar o domínio do inglês. A empresa também já tinha uma base de usuários no país e identificou uma oportunidade de levar a plataforma para o ambiente corporativo.
A estratégia representa uma mudança em relação ao modelo original da companhia, que era direcionado principalmente ao consumidor individual. O aplicativo continua funcionando no modelo freemium, com acesso gratuito a determinados recursos e planos pagos para funções adicionais, mas o segmento empresarial ganhou importância.
A empresa afirma que os contratos corporativos estão crescendo mais rapidamente e representam uma parcela cada vez maior do negócio. Entre os clientes globais citados pela ELSA estão a TELUS Digital e a NashTech.
O desafio do inglês entre brasileiros
A expansão no Brasil também encontra um mercado em que o aprendizado do inglês ainda apresenta espaço para crescer. Segundo estudo da Pearson com a Opinion Box, realizado entre fevereiro e abril de 2025 com mais de 7 mil brasileiros, entre os entrevistados que afirmaram ter algum conhecimento do idioma, 13% se consideravam fluentes, 38% se classificavam como intermediários e 49% como básicos.
A mesma pesquisa apontou que 29% dos entrevistados não tinham contato com nenhum idioma além do português. Para a ELSA, esses números ajudam a dimensionar o potencial do mercado brasileiro, principalmente diante da estratégia de ampliar o uso da plataforma para empresas.
IA também virou concorrente da própria empresa
A expansão das ferramentas de inteligência artificial generativa criou um novo desafio para a ELSA. Atualmente, qualquer pessoa pode conversar em inglês com ferramentas de IA de uso geral, sem necessariamente recorrer a um aplicativo dedicado ao aprendizado do idioma.
Para Van, o diferencial da empresa está nos dados acumulados ao longo de uma década de uso da plataforma. A companhia reúne informações de estudantes de diferentes países, sotaques, níveis de conhecimento e objetivos de aprendizado, que são utilizados para personalizar o retorno oferecido aos usuários.
A aposta, portanto, é que a experiência acumulada em reconhecimento de fala e aprendizagem de idiomas permita à ELSA oferecer um treinamento mais específico do que uma ferramenta generalista.









