Ouça agora

Vidente conhecido por dizer que consegue prever acontecimentos fica fora do testamento do próprio pai, processa irmã e sobrinha e termina com conta judicial de R$1,4 milhão

Gary Pammen, conhecido por aparições em programas de televisão e por se apresentar como vidente, perdeu uma disputa judicial envolvendo a herança do…


Por Evellyn Nascimento

26/09/2026 às 10h12

Vidente conhecido por dizer que consegue prever acontecimentos fica fora do testamento do próprio pai, processa irmã e sobrinha e termina com conta judicial de R$1,4 milhão
Gary Pammen vidente autoproclamado Foto: Reprodução/Champion News

Gary Pammen, conhecido por aparições em programas de televisão e por se apresentar como vidente, perdeu uma disputa judicial envolvendo a herança do próprio pai e foi condenado a pagar £216.013,85 em custos do processo, valor equivalente a cerca de R$1,4 milhão. Ele havia questionado a validade do testamento deixado pelo pai, que destinava o patrimônio principalmente à irmã de Gary e à sobrinha.

Conhecido artisticamente como “The Cockney Bard”, Gary afirma ter poderes de cura e clarividência e diz que seus poemas são canalizados telepaticamente por espíritos. Ele entrou com a ação contra a irmã, Tracy Pammen, e a sobrinha, Paige Pammen, argumentando que o pai não tinha capacidade mental suficiente para elaborar e aprovar o testamento assinado em 2016.

Pai deixou patrimônio de £451 mil para duas familiares

Terrance Pammen morreu aos 83 anos, em maio de 2022. Seu patrimônio foi avaliado em £451.840, cerca de R$3 milhões, e era formado principalmente por uma casa localizada em Stratford, no leste de Londres, além de dinheiro.

O testamento determinava que os bens fossem destinados a Tracy e Paige. Terrance tinha cinco filhos, mas Gary e os outros três irmãos — Mark, Jacqueline e Gemma — ficaram de fora dos bens de valor monetário. Os três não participaram da disputa judicial.

Gary questionou justamente a validade do documento. Segundo ele, o pai sofria de um comprometimento cognitivo progressivo quando o testamento foi preparado e não teria condições de compreender a natureza e as consequências da decisão.

A contestação também envolveu a alegação de que Terrance não teria compreendido adequadamente a composição do próprio patrimônio nem as relações familiares no momento em que o documento foi elaborado.

Justiça concluiu que o testamento era válido

O caso foi analisado pelo juiz Simon Monty, da Central London County Court. Após avaliar os depoimentos e as provas apresentadas, o magistrado decidiu manter o testamento e reconheceu que Terrance tinha capacidade testamentária quando iniciou o processo para elaborar o documento, em 2016.

A defesa de Tracy e Paige apresentou, entre outros elementos, uma avaliação psiquiátrica que apontava que Terrance estava em condições de compreender o que estava fazendo. O pai só recebeu um diagnóstico de demência em 2020, e as evidências apresentadas no processo indicavam que problemas de memória não haviam se manifestado até pelo menos 2017 ou 2018.

Tracy também afirmou que o pai continuava independente quando fez o testamento. Segundo ela, ele trabalhava organizando carrinhos de compras em uma unidade da rede Morrisons e continuou exercendo a função por até três anos depois da assinatura do documento.

O advogado da irmã, Tom Gosling, argumentou que não havia dúvidas relevantes sobre a capacidade de Terrance para compreender o processo de elaboração do testamento.

Gary contestou a relação do pai com a irmã

Durante o processo, Gary afirmou que não havia uma razão clara para ter sido excluído da herança. O homem, que nasceu em Plaistow e atualmente vive em Norfolk, disse que conversava diariamente com o pai por telefone e que os dois tinham uma boa relação.

Ele também acusou Tracy de ter feito retiradas indevidas das contas bancárias de Terrance durante os últimos anos de vida. A irmã e seus advogados rejeitaram a acusação.

O juiz analisou a questão das movimentações financeiras e concluiu que não havia evidências de que Tracy e Paige tivessem realizado as retiradas apontadas por Gary. A única exceção envolvia alguns valores menores que Tracy reconheceu ter retirado para comprar mantimentos para o pai.

Juiz questionou a base da ação

Ao decidir a favor de Tracy e Paige, Simon Monty avaliou que a contestação de Gary estava baseada principalmente em suspeitas relacionadas a um conflito familiar ocorrido próximo à época da morte da mãe.

O magistrado afirmou que Gary interpretava as diferentes evidências do processo como confirmações de sua própria hipótese, em vez de avaliá-las de maneira objetiva. Para o juiz, essa interpretação estava relacionada ao chamado viés de confirmação.

Monty também considerou que as dificuldades cognitivas de Terrance não haviam provocado problemas relevantes no período em que o testamento foi elaborado. Por isso, não encontrou fundamento para concluir que o pai não tivesse capacidade para tomar a decisão registrada no documento.

A sentença manteve, portanto, a validade do testamento e rejeitou a tentativa de Gary de modificar a distribuição da herança.

Vidente terá de pagar cerca de R$1,4 milhão

Com a derrota na ação, Gary foi condenado a arcar com £216.013,85 em custos jurídicos de Tracy e Paige, aproximadamente R$1,4 milhão. O juiz determinou ainda um pagamento inicial de £150 mil, cerca de R$1 milhão, como parte das despesas.

A decisão encerrou a disputa sobre a validade do testamento. O patrimônio de Terrance permanece destinado às duas familiares indicadas no documento, enquanto os demais filhos ficaram sem participação nos bens de valor monetário previstos na herança.