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Uma descoberta escondida em caverna do Brasil revela que a América do Sul está aquecendo 2,5 vezes mais rápido do que as mudanças naturais dos últimos 20 mil anos

Cientistas alertam que reduzir emissões de gases de efeito estufa e reflorestamento são caminhos para frear o aquecimento na região.


Por Bernardo Teixeira

15/10/2026 às 17h31

Uma descoberta escondida em caverna do Brasil revela que a América do Sul está aquecendo 2,5 vezes mais rápido do que as mudanças naturais dos últimos 20 mil anos
Foto: Redes sociais

Minúsculas gotículas de água presas em rochas há milhares de anos revelaram uma transformação climática acelerada na América do Sul. O registro foi encontrado na Gruta Rei do Mato, em Sete Lagoas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde o aquecimento supera em 2,5 vezes qualquer variação natural de temperatura experimentada pela região nos últimos 20 mil anos.

Cientistas da Universidade de São Paulo e da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais colaboraram com pesquisadores da Universidade de Bergen para publicar os achados na revista Nature, uma das mais renomadas da comunidade científica internacional, e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade autorizou a pesquisa, que revelou registros climáticos preservados nas formações rochosas da caverna.

Como a caverna funciona como arquivo do clima

As estalagmites, rochas que crescem do chão da caverna em direção ao teto, guardam um histórico ambiental único. Quando a chuva cai sobre a superfície, a água entra em contato com o gás carbônico das rochas e se torna ácida, dissolvendo lentamente minerais.

Ao entrar em contato com o ar da caverna, o material dissolvido se cristaliza. Nesse processo, gotículas de água ficam aprisionadas na estrutura cristalina.

Cada gota funciona como um termômetro do passado porque a variação térmica da água reflete a média das temperaturas externas de cada ano. Luiz Eduardo Panisset Travassos, professor de geografia da PUC Minas, explicou ao portal G1 que a água fica aprisionada durante a formação do cristal. Ela não é de hoje: foi incorporada há milhares de anos e revela as condições atmosféricas daquela época.

Explore as impressionantes estalactites e estalagmites dentro da Caverna de Postojna, Eslovênia.
Foto: Carlo Giovanni Ghiardelli/Pexels

O que os dados mostram sobre o aquecimento atual

A temperatura média dentro da caverna mineira passou de 14,4°C para 20,1°C, indicando o aquecimento regional. O aumento ocorreu ao mesmo tempo que cresceram as emissões de gases de efeito estufa (CO₂), em uma relação clara entre atividade humana e mudanças climáticas observadas em regiões tropicais.

Nicolás Strikis, professor do Instituto de Geociências da USP que liderou a coleta. Alertou que a taxa atual de aquecimento supera em algumas vezes a fase mais acelerada da principal transição climática registrada, quando a Terra saiu da era glacial para os tempos atuais.

Strikis explicou que, à medida que o CO₂ aumentou, as temperaturas da região também subiram. O dado indica uma resposta sensível aos níveis de dióxido de carbono na atmosfera.

Caminhos para reduzir o impacto

Apesar dos dados preocupantes, Strikis disse que nem tudo está perdido. Ele defendeu a redução das emissões de gases de efeito estufa e a captura desses gases por meio de reflorestamento ou outras tecnologias. Strikis também defendeu políticas públicas para que a sociedade se prepare para as consequências do aquecimento.

Strikis explicou que a Rei do Mato é uma caverna ornamentada, com estalactites e estalagmites que registram as condições ambientais em sua matriz cristalina. Segundo ele, algumas estalagmites são particularmente adequadas para reconstituir a temperatura por causa da forma dos cristais e do conteúdo das inclusões fluidas.

Se as cavernas são frias naturalmente, como a temperatura dentro delas aumentou tanto?

A temperatura de uma caverna reflete a média do ar e do solo da região onde ela está localizada. Embora sejam mais frias que a superfície, a Gruta Rei do Mato tinha média de 14,4°C, as cavernas não são isoladas do ambiente externo. Quando a região aquece, a caverna também aquece, ainda que de forma amortecida.

Por isso, os pesquisadores usam a temperatura interna como indicador de como estava o clima externo em cada período. O salto de 14,4°C para 20,1°C reflete o aquecimento da região de Sete Lagoas e arredores.