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Um pássaro raro apareceu em uma região da Guiana, moradores começaram a estudá-lo e, anos depois, o movimento já reúne 16 vilarejos e ajudou a criar regras de proteção para 150 mil hectares


Por Matheus Chaves

24/09/2026 às 02h36

Um pássaro raro apareceu em uma região da Guiana, moradores começaram a estudá-lo e, anos depois, o movimento já reúne 16 vilarejos e ajudou a criar regras de proteção para 150 mil hectares
Imagem: Bjoertvedt/Wikimedia Commons

De acordo com informações da News Mongabay, quando pesquisadores chegaram ao sul da Guiana para estudar aves em 2000, encontraram algo que mudaria a relação de várias comunidades indígenas com a fauna local. Guias das etnias Wapichan, Makushi e Wai Wai ajudaram a equipe a identificar uma população do pintassilgo-vermelho, um pequeno pássaro raro ameaçado e que já havia desaparecido de boa parte de sua distribuição histórica. Posteriormente, ele passou a ser estudado por moradores.

O registro científico da espécie no sul de Rupununi, no entanto, não ficou restrito ao campo da pesquisa. Moradores que já acompanhavam as mudanças na paisagem passaram a participar do monitoramento da ave e, a partir dessa experiência, ajudaram a estruturar uma organização voltada à conservação. Mais de duas décadas depois, a South Rupununi Conservation Society (SRCS) atua em aproximadamente 16 comunidades, reunindo moradores, agricultores, professores e outros integrantes das aldeias em projetos de pesquisa e proteção ambiental.

A descoberta de uma ave mudou a escala da conservação

O pintassilgo-vermelho (Spinus cucullatus) é um pequeno passeriforme de plumagem vermelha e preta. A espécie sofreu forte redução populacional em diferentes partes da América do Sul, principalmente por causa da captura ilegal para o comércio de aves.

A expedição de 2000 tinha pesquisadores do Smithsonian e da Universidade do Kansas. Os cientistas foram conduzidos pela região por jovens indígenas, entre eles Duane De Freitas, que já conheciam a paisagem e ajudaram a localizar e interpretar os ambientes utilizados pelas aves.

A confirmação daquela população na Guiana tinha importância científica porque ampliava o conhecimento sobre a distribuição do animal. Para os moradores, porém, a descoberta também reforçava uma preocupação que já existia: a transformação das savanas alagáveis e das áreas úmidas do Rupununi.

Durante o período chuvoso, essas paisagens funcionam como uma conexão ecológica entre as bacias Amazônica e do Essequibo. A região também integra uma área de elevada biodiversidade associada à Amazônia e ao Escudo das Guianas.

A experiência levou os participantes a transformar um projeto específico sobre a ave em uma estrutura permanente. A South Rupununi Conservation Society foi oficialmente registrada em 2002 e, desde então, ampliou sua atuação para diferentes animais ameaçados e para a educação ambiental.

O conhecimento dos moradores virou ferramenta de pesquisa

Uma das características do modelo adotado pela organização é colocar os próprios moradores no centro da coleta de informações. Os chamados guardas comunitários podem ser agricultores, professores, guias, criadores de animais, mulheres e jovens das aldeias.

Eles percorrem áreas previamente determinadas, registram onde os animais aparecem e observam comportamentos e mudanças na distribuição das espécies. Quando encontram indícios de atividades ilegais, comunicam os casos às lideranças das comunidades.

A função não é simplesmente substituir pesquisadores profissionais. Os moradores utilizam o conhecimento acumulado sobre o território e passam a combiná-lo com ferramentas como armadilhas fotográficas, levantamentos de campo e métodos de monitoramento científico.

A conservação passou a influenciar o uso de 150 mil hectares

A combinação entre conhecimento tradicional e monitoramento científico acabou produzindo uma consequência prática: as comunidades começaram a utilizar os dados sobre a fauna para estabelecer regras de ocupação do território.

Em outubro de 2025, representantes de Maruranau, Shea e Awarewaunau assinaram um acordo intercomunitário que criou zonas compartilhadas de uso da terra e regras de conservação em uma área de aproximadamente 150 mil hectares.

O objetivo imediato é proteger o tatu-canastra e o tamanduá-bandeira, mas as regras também ajudam a conservar o ambiente utilizado por outras espécies. A área reúne diferentes tipos de vegetação de savana e floresta, o que amplia o alcance da iniciativa.

A medida é diferente de simplesmente criar uma área protegida administrada de fora das comunidades. Nesse modelo, as próprias aldeias participam da definição das regras, enquanto os moradores envolvidos no monitoramento acompanham o que acontece no território.

A organização já trabalha em aproximadamente 16 comunidades, embora nem todas participem dos mesmos projetos. Cada iniciativa é adaptada às necessidades e aos interesses dos locais envolvidos.

O próprio pássaro também passou a ter uma área de conservação

O pintassilgo-vermelho continua sendo um dos principais projetos da organização. Cinco comunidades indígenas aprovaram formalmente uma zona de conservação específica para a espécie, estabelecendo regras para proteger as aves e seus habitats.

Entre 2022 e 2025, os monitores não registraram ocorrências de captura ilegal nas comunidades participantes desse projeto. Os pesquisadores também encontraram a espécie em Shea, ampliando a distribuição conhecida do pássaro dentro da Guiana.

O resultado é relevante porque a captura para o comércio de animais é uma das principais ameaças ao pintassilgo-vermelho. A espécie é procurada por sua aparência e pelo canto, e a descoberta da população na Guiana chegou a atrair a atenção de comerciantes ilegais.

A proteção, portanto, depende de algo que vai além da fiscalização ocasional. O monitoramento permanente feito pelos próprios moradores permite identificar a presença das aves e possíveis ameaças em uma região extensa, enquanto as regras definidas pelas comunidades estabelecem como determinadas áreas devem ser utilizadas.

O modelo também enfrenta problemas

O crescimento da organização não eliminou os obstáculos. A palavra “conservação”, por exemplo, nem sempre é facilmente traduzida para as línguas indígenas ou compreendida como parte da realidade cotidiana das comunidades.

Por isso, parte do trabalho consiste em adaptar os projetos à cultura local. A participação aumenta quando os moradores conseguem relacionar as propostas de proteção ambiental aos conhecimentos e às práticas que já existem nas aldeias.

Outro desafio está relacionado às mudanças culturais entre os mais jovens. O acesso crescente a smartphones e redes sociais aproxima as novas gerações de hábitos e referências externas, o que pode reduzir o contato com línguas indígenas e conhecimentos tradicionais.

Para enfrentar esse problema, a organização mantém atividades que aproximam crianças e jovens dos mais velhos. Há aulas de línguas Wapichan e Makushi, técnicas tradicionais de artesanato e manejo de recursos naturais, além de atividades de observação de aves, instalação de câmeras e pesquisas de campo.

A educação ambiental também alcança comunidades além das diretamente envolvidas nos projetos de pesquisa. A organização trabalha em conjunto com o Ministério da Educação da Guiana para desenvolver um programa nacional de educação ambiental destinado às crianças do ensino primário.

O financiamento é o próximo desafio

A expansão das atividades trouxe outro problema: manter uma estrutura regional de monitoramento exige recursos constantes. Os guardas comunitários recebem pagamentos vinculados a projetos específicos, mas não possuem necessariamente empregos permanentes na organização.

Quando o financiamento termina e surge uma lacuna entre projetos, a SRCS pode perder pessoas treinadas e parte da capacidade construída ao longo dos anos. Algumas comunidades passaram a destinar recursos próprios para a conservação, mas essas contribuições não são suficientes para sustentar sozinhas uma rede regional de monitoramento.

Ao mesmo tempo, a região enfrenta novas pressões relacionadas ao crescimento econômico da Guiana, à abertura de infraestrutura e às mudanças no uso da terra. A organização busca, por isso, fontes de financiamento mais estáveis, salários permanentes para os guardas e acordos de gestão compartilhada com o governo.

A trajetória iniciada com a identificação de uma população rara de pintassilgos mostra como uma pesquisa sobre uma única espécie pode ganhar outra dimensão quando os moradores passam a produzir e utilizar seus próprios dados ambientais. No sul de Rupununi, a experiência evoluiu para um modelo que conecta fauna, território, conhecimento indígena e decisões sobre o uso da terra.

Hoje, o pássaro continua sendo uma das referências desse movimento, mas já não é o único objetivo. A estrutura criada a partir de sua descoberta passou a ser utilizada para acompanhar outros animais ameaçados e para transformar informações coletadas localmente em regras concretas de conservação.