Um pássaro raro apareceu em uma região da Guiana, moradores começaram a estudá-lo e, anos depois, o movimento já reúne 16 vilarejos e ajudou a criar regras de proteção para 150 mil hectares

De acordo com informações da News Mongabay, quando pesquisadores chegaram ao sul da Guiana para estudar aves em 2000, encontraram algo que mudaria a relação de várias comunidades indígenas com a fauna local. Guias das etnias Wapichan, Makushi e Wai Wai ajudaram a equipe a identificar uma população do pintassilgo-vermelho, um pequeno pássaro raro ameaçado e que já havia desaparecido de boa parte de sua distribuição histórica. Posteriormente, ele passou a ser estudado por moradores.
O registro científico da espécie no sul de Rupununi, no entanto, não ficou restrito ao campo da pesquisa. Moradores que já acompanhavam as mudanças na paisagem passaram a participar do monitoramento da ave e, a partir dessa experiência, ajudaram a estruturar uma organização voltada à conservação. Mais de duas décadas depois, a South Rupununi Conservation Society (SRCS) atua em aproximadamente 16 comunidades, reunindo moradores, agricultores, professores e outros integrantes das aldeias em projetos de pesquisa e proteção ambiental.
A descoberta de uma ave mudou a escala da conservação
O pintassilgo-vermelho (Spinus cucullatus) é um pequeno passeriforme de plumagem vermelha e preta. A espécie sofreu forte redução populacional em diferentes partes da América do Sul, principalmente por causa da captura ilegal para o comércio de aves.
A expedição de 2000 tinha pesquisadores do Smithsonian e da Universidade do Kansas. Os cientistas foram conduzidos pela região por jovens indígenas, entre eles Duane De Freitas, que já conheciam a paisagem e ajudaram a localizar e interpretar os ambientes utilizados pelas aves.
A confirmação daquela população na Guiana tinha importância científica porque ampliava o conhecimento sobre a distribuição do animal. Para os moradores, porém, a descoberta também reforçava uma preocupação que já existia: a transformação das savanas alagáveis e das áreas úmidas do Rupununi.
Durante o período chuvoso, essas paisagens funcionam como uma conexão ecológica entre as bacias Amazônica e do Essequibo. A região também integra uma área de elevada biodiversidade associada à Amazônia e ao Escudo das Guianas.
A experiência levou os participantes a transformar um projeto específico sobre a ave em uma estrutura permanente. A South Rupununi Conservation Society foi oficialmente registrada em 2002 e, desde então, ampliou sua atuação para diferentes animais ameaçados e para a educação ambiental.
O conhecimento dos moradores virou ferramenta de pesquisa
Uma das características do modelo adotado pela organização é colocar os próprios moradores no centro da coleta de informações. Os chamados guardas comunitários podem ser agricultores, professores, guias, criadores de animais, mulheres e jovens das aldeias.
Eles percorrem áreas previamente determinadas, registram onde os animais aparecem e observam comportamentos e mudanças na distribuição das espécies. Quando encontram indícios de atividades ilegais, comunicam os casos às lideranças das comunidades.
A função não é simplesmente substituir pesquisadores profissionais. Os moradores utilizam o conhecimento acumulado sobre o território e passam a combiná-lo com ferramentas como armadilhas fotográficas, levantamentos de campo e métodos de monitoramento científico.
A conservação passou a influenciar o uso de 150 mil hectares
A combinação entre conhecimento tradicional e monitoramento científico acabou produzindo uma consequência prática: as comunidades começaram a utilizar os dados sobre a fauna para estabelecer regras de ocupação do território.
Em outubro de 2025, representantes de Maruranau, Shea e Awarewaunau assinaram um acordo intercomunitário que criou zonas compartilhadas de uso da terra e regras de conservação em uma área de aproximadamente 150 mil hectares.
O objetivo imediato é proteger o tatu-canastra e o tamanduá-bandeira, mas as regras também ajudam a conservar o ambiente utilizado por outras espécies. A área reúne diferentes tipos de vegetação de savana e floresta, o que amplia o alcance da iniciativa.
A medida é diferente de simplesmente criar uma área protegida administrada de fora das comunidades. Nesse modelo, as próprias aldeias participam da definição das regras, enquanto os moradores envolvidos no monitoramento acompanham o que acontece no território.
A organização já trabalha em aproximadamente 16 comunidades, embora nem todas participem dos mesmos projetos. Cada iniciativa é adaptada às necessidades e aos interesses dos locais envolvidos.
O próprio pássaro também passou a ter uma área de conservação
O pintassilgo-vermelho continua sendo um dos principais projetos da organização. Cinco comunidades indígenas aprovaram formalmente uma zona de conservação específica para a espécie, estabelecendo regras para proteger as aves e seus habitats.
Entre 2022 e 2025, os monitores não registraram ocorrências de captura ilegal nas comunidades participantes desse projeto. Os pesquisadores também encontraram a espécie em Shea, ampliando a distribuição conhecida do pássaro dentro da Guiana.
O resultado é relevante porque a captura para o comércio de animais é uma das principais ameaças ao pintassilgo-vermelho. A espécie é procurada por sua aparência e pelo canto, e a descoberta da população na Guiana chegou a atrair a atenção de comerciantes ilegais.
A proteção, portanto, depende de algo que vai além da fiscalização ocasional. O monitoramento permanente feito pelos próprios moradores permite identificar a presença das aves e possíveis ameaças em uma região extensa, enquanto as regras definidas pelas comunidades estabelecem como determinadas áreas devem ser utilizadas.
O modelo também enfrenta problemas
O crescimento da organização não eliminou os obstáculos. A palavra “conservação”, por exemplo, nem sempre é facilmente traduzida para as línguas indígenas ou compreendida como parte da realidade cotidiana das comunidades.
Por isso, parte do trabalho consiste em adaptar os projetos à cultura local. A participação aumenta quando os moradores conseguem relacionar as propostas de proteção ambiental aos conhecimentos e às práticas que já existem nas aldeias.
Outro desafio está relacionado às mudanças culturais entre os mais jovens. O acesso crescente a smartphones e redes sociais aproxima as novas gerações de hábitos e referências externas, o que pode reduzir o contato com línguas indígenas e conhecimentos tradicionais.
Para enfrentar esse problema, a organização mantém atividades que aproximam crianças e jovens dos mais velhos. Há aulas de línguas Wapichan e Makushi, técnicas tradicionais de artesanato e manejo de recursos naturais, além de atividades de observação de aves, instalação de câmeras e pesquisas de campo.
A educação ambiental também alcança comunidades além das diretamente envolvidas nos projetos de pesquisa. A organização trabalha em conjunto com o Ministério da Educação da Guiana para desenvolver um programa nacional de educação ambiental destinado às crianças do ensino primário.
O financiamento é o próximo desafio
A expansão das atividades trouxe outro problema: manter uma estrutura regional de monitoramento exige recursos constantes. Os guardas comunitários recebem pagamentos vinculados a projetos específicos, mas não possuem necessariamente empregos permanentes na organização.
Quando o financiamento termina e surge uma lacuna entre projetos, a SRCS pode perder pessoas treinadas e parte da capacidade construída ao longo dos anos. Algumas comunidades passaram a destinar recursos próprios para a conservação, mas essas contribuições não são suficientes para sustentar sozinhas uma rede regional de monitoramento.
Ao mesmo tempo, a região enfrenta novas pressões relacionadas ao crescimento econômico da Guiana, à abertura de infraestrutura e às mudanças no uso da terra. A organização busca, por isso, fontes de financiamento mais estáveis, salários permanentes para os guardas e acordos de gestão compartilhada com o governo.
A trajetória iniciada com a identificação de uma população rara de pintassilgos mostra como uma pesquisa sobre uma única espécie pode ganhar outra dimensão quando os moradores passam a produzir e utilizar seus próprios dados ambientais. No sul de Rupununi, a experiência evoluiu para um modelo que conecta fauna, território, conhecimento indígena e decisões sobre o uso da terra.
Hoje, o pássaro continua sendo uma das referências desse movimento, mas já não é o único objetivo. A estrutura criada a partir de sua descoberta passou a ser utilizada para acompanhar outros animais ameaçados e para transformar informações coletadas localmente em regras concretas de conservação.









