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Seis explosões nucleares debaixo de uma montanha na Coreia do Norte podem ter provocado 1.399 terremotos


Por Matheus Chaves

22/09/2026 às 05h34

Seis explosões nucleares debaixo de uma montanha na Coreia do Norte podem ter provocado 1.399 terremotos
Imagem: Magnific

Seis explosões nucleares realizadas pela Coreia do Norte ao longo de 11 anos podem ter deixado uma marca muito mais duradoura no solo do que os tremores registrados imediatamente após cada teste. Um novo estudo identificou 1.399 pequenos terremotos nas proximidades do Monte Mantap, onde fica o complexo nuclear de Punggye-ri, e encontrou evidências de que falhas geológicas que permaneciam praticamente inativas foram reativadas depois das explosões.

Explosões aconteceram dentro de uma montanha

Os testes nucleares foram realizados em túneis subterrâneos construídos sob o Monte Mantap, no nordeste da Coreia do Norte. O país realizou seis detonações entre 2006 e 2017, utilizando a mesma região para desenvolver e testar sua capacidade nuclear.

O último teste, realizado em setembro de 2017, foi também o mais potente. A atividade sísmica associada à explosão chegou a uma magnitude equivalente a 6,3, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Imagens de radar obtidas por satélite também registraram deformações significativas na região do topo da montanha.

O que os pesquisadores queriam descobrir agora era diferente: não apenas qual havia sido o impacto imediato das explosões, mas se a enorme quantidade de energia liberada dentro da montanha poderia ter alterado o comportamento das rochas ao longo dos anos.

Cientistas encontraram 1.399 terremotos

Para investigar a região, pesquisadores da Universidade Nacional de Pusan, na Coreia do Sul, e da Universidade de Tecnologia de Chengdu, na China, analisaram 17 anos de registros sísmicos.

O período estudado vai de 2008 a 2025. Os dados foram obtidos principalmente por estações localizadas na China e na Coreia do Sul, algumas delas entre aproximadamente 80 e 200 quilômetros do Monte Mantap.

A análise identificou 1.399 terremotos locais que não apareciam completamente nos catálogos sísmicos anteriores. Uma técnica conhecida como matched-filter detection, utilizada para encontrar sinais muito pequenos escondidos nos registros, ajudou os pesquisadores a identificar eventos que poderiam passar despercebidos pelos sistemas convencionais.

O número chamou atenção, mas a quantidade de terremotos não é o único aspecto relevante. O comportamento desses eventos ao longo do tempo foi considerado ainda mais importante.

Terremotos começaram a aumentar depois do último teste

Normalmente, uma explosão subterrânea pode provocar uma sequência de pequenos terremotos nas proximidades. O esperado é que essa atividade seja mais intensa logo depois do evento e diminua gradualmente.

No Monte Mantap, porém, os pesquisadores observaram um padrão diferente.

A atividade sísmica aumentou aproximadamente três semanas depois da explosão de setembro de 2017 e continuou crescendo em frequência e magnitude nos anos seguintes. Os terremotos persistiram até 2025, muito depois de o programa de testes ter sido interrompido.

Essa característica é uma das principais razões pelas quais os cientistas consideram que os tremores não podem ser explicados simplesmente como uma sequência convencional de réplicas.

As explosões podem ter reativado falhas antigas

A explicação proposta pelos pesquisadores envolve as falhas geológicas existentes no subsolo.

Uma explosão nuclear subterrânea libera uma quantidade enorme de energia em um espaço relativamente pequeno. A pressão pode fraturar as rochas próximas à cavidade formada pela detonação e alterar a distribuição das tensões no interior da crosta.

Quando a região já possui falhas submetidas a tensões próximas do limite de ruptura, uma alteração desse equilíbrio pode facilitar o deslocamento das rochas.

É justamente essa hipótese que aparece no novo estudo. Os pesquisadores afirmam que os seis testes podem ter danificado progressivamente a crosta superficial e redistribuído as tensões ao redor do Monte Mantap.

Com o passar do tempo, essas alterações teriam levado falhas que já estavam próximas de se movimentar a voltar a apresentar atividade sísmica.

Os terremotos não estavam distribuídos aleatoriamente

Outro elemento importante apareceu quando os cientistas determinaram com maior precisão a localização dos tremores.

Dos 1.399 eventos identificados, 955 tiveram suas posições determinadas com maior precisão. Os terremotos estavam concentrados ao longo de duas estruturas aproximadamente paralelas que seguem em direção norte-noroeste.

Uma delas corresponde à continuação de uma falha já conhecida pelos geólogos. A outra apresenta características compatíveis com uma estrutura que não havia sido identificada nos mapas anteriores da região.

Essa distribuição organizada reforça a hipótese de que os tremores estão relacionados ao movimento de estruturas geológicas específicas, em vez de representarem uma sequência aleatória de pequenos terremotos.

A maior parte dos tremores foi pequena

Apesar do número elevado de eventos, isso não significa que a Coreia do Norte tenha registrado 1.399 grandes terremotos.

A maioria dos tremores identificados apresentou magnitude baixa, geralmente na faixa de 2 a 3. Alguns eventos chegaram a magnitudes superiores nos anos mais recentes, mas ainda ficaram muito abaixo do terremoto associado à explosão nuclear de 2017.

Esse ponto é importante para entender o significado do estudo. O problema identificado pelos pesquisadores não é uma sucessão de grandes terremotos capazes de provocar destruição generalizada, mas uma mudança persistente no comportamento sísmico de uma área que anteriormente apresentava pouca atividade.

O Monte Mantap era uma região relativamente silenciosa

A comparação com o histórico anterior ajuda a dimensionar a mudança.

De acordo com os pesquisadores, registros históricos da China e da Coreia indicam que a região próxima ao local dos testes apresentava atividade sísmica muito baixa antes do início do programa nuclear.

Depois das explosões, principalmente após o teste de 2017, a quantidade de eventos detectados aumentou de maneira significativa.

Isso não significa que seja possível afirmar que nenhum terremoto natural tenha ocorrido na região antes dos testes. O que os cientistas destacam é a diferença entre o baixo nível histórico de atividade e o padrão observado depois das detonações.

Existe risco de um terremoto maior?

A possibilidade de um evento mais forte é uma das questões que mais chamam atenção, mas não deve ser interpretada como uma previsão de que ele necessariamente acontecerá.

O pesquisador Kwang-Hee Kim, da Universidade Nacional de Pusan, estimou que, caso todo o sistema de falhas identificado pelos cientistas se rompesse de maneira simultânea, poderia ocorrer um terremoto de aproximadamente magnitude 6,4.

Essa é uma possibilidade calculada a partir das características da estrutura geológica, e não uma previsão de que um terremoto dessa intensidade esteja prestes a acontecer.

A principal conclusão do estudo é outra: as explosões parecem ter alterado as condições mecânicas das rochas e podem ter deixado determinadas falhas mais suscetíveis a movimentos.

Por que esse resultado é importante?

O estudo amplia a compreensão sobre o impacto de explosões nucleares subterrâneas. Até agora, grande parte da atenção estava concentrada nos efeitos produzidos imediatamente após uma detonação, como o sinal sísmico utilizado para identificar o teste.

Os novos dados indicam que os efeitos geológicos podem continuar por muito mais tempo. Uma explosão que dura uma fração de segundo pode modificar as condições de uma estrutura subterrânea e influenciar a movimentação de falhas durante anos.

Esse tipo de fenômeno não é exclusivo de testes nucleares. A sismologia já conhece diferentes formas de atividade sísmica induzida por intervenções humanas, nas quais alterações de tensão ou de pressão no subsolo podem facilitar o movimento de falhas previamente existentes.

No caso do Monte Mantap, entretanto, a particularidade está na combinação entre seis explosões nucleares, uma região montanhosa com estruturas geológicas complexas e uma sequência de terremotos que continuou crescendo depois do fim dos testes.

Descoberta também pode dificultar o monitoramento nuclear

Existe ainda uma consequência importante para o controle internacional de testes nucleares.

A atividade sísmica é uma das principais ferramentas utilizadas para identificar explosões subterrâneas. Redes internacionais conseguem registrar as ondas produzidas por uma detonação e analisar características que ajudam a diferenciá-la de um terremoto natural.

O problema é que, se uma explosão conseguir desencadear terremotos que continuam ocorrendo durante anos, alguns desses eventos posteriores podem apresentar características semelhantes às de tremores naturais.

Isso pode complicar a reconstrução do histórico de uma região e exigir análises mais sofisticadas para determinar a origem de cada evento.

O Tratado de Proibição Completa dos Testes Nucleares, conhecido pela sigla CTBT, prevê um sistema internacional de monitoramento que utiliza estações sísmicas, sensores de infrassom, equipamentos hidroacústicos e estações capazes de detectar radionuclídeos. A rede já identificou os seis testes nucleares declarados pela Coreia do Norte.

O que as explosões deixaram no subsolo?

A conclusão mais ampla do estudo é que o efeito de uma explosão nuclear subterrânea não termina necessariamente quando a onda sísmica inicial desaparece.

No Monte Mantap, os pesquisadores encontraram evidências de uma sequência muito mais longa: explosões sucessivas danificaram a crosta, alteraram a distribuição das tensões e podem ter reativado falhas que estavam próximas do limite de movimentação.

O resultado é uma região que continuou apresentando atividade sísmica anos depois do último teste.

Isso não significa que cada um dos 1.399 terremotos tenha sido provocado diretamente por uma explosão específica. A interpretação científica é mais cuidadosa: o conjunto dos dados indica que os testes nucleares provavelmente modificaram as condições geológicas locais e contribuíram para a reativação das falhas.

A descoberta transforma o Monte Mantap em um exemplo importante para estudar como intervenções humanas extremamente intensas podem produzir efeitos retardados na crosta terrestre. Uma detonação acontece em segundos, mas as consequências geológicas podem permanecer ativas durante anos.