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Segundo a psicologia, quem diz “vamos marcar” sem nunca marcar pode não estar apenas sendo falso, mas evitando o desconforto de encerrar um contato

Quem recebe promessas vagas fica preso num ciclo de expectativa que consome energia mental, enquanto um não direto permitiria encerrar de verdade o contato.


Por Bernardo Teixeira

14/10/2026 às 17h08

Segundo a psicologia, quem diz “vamos marcar” sem nunca marcar pode não estar apenas sendo falso, mas evitando o desconforto de encerrar um contato
Imagem gerada por inteligência artificial

Dizer “vamos marcar” e nunca dar sequência não é simplesmente falta de educação: trata-se de um mecanismo psicológico deliberado de esquiva. Na psicologia comportamental, o termo descreve o ato de adotar uma conduta para evitar um estímulo desagradável, como rejeição, confronto ou culpa.

Dizer de forma clara e direta, “nossa amizade encerrou e não tenho interesse em me reaproximar”, exige esforço emocional. Para economizar recursos e evitar estresse, o cérebro escolhe o caminho de menor resistência: a frase vaga que resolve o incômodo do presente sem nunca se concretizar.

Segundo a psicologia, quem diz “vamos marcar” sem nunca marcar pode não estar apenas sendo falso, mas evitando o desconforto de encerrar um contato
Imagem gerada por inteligência artificial

Por que o cérebro prefere a promessa vazia

A dissonância cognitiva explica boa parte desse comportamento. Ela ocorre quando há conflito entre o que a pessoa faz e como ela se vê, e ajuda a entender por que respostas evasivas substituem recusas diretas em tantas situações sociais.

O dilema é simples: a pessoa não quer sair com o conhecido, mas também não quer se enxergar como alguém insensível. Ao propor o encontro sem data marcada, ela resolve esse conflito interno e pensa consigo mesma que é receptiva, já que tecnicamente não rejeitou ninguém, apenas “não teve tempo” ainda.

Segundo a psicologia, quem diz “vamos marcar” sem nunca marcar pode não estar apenas sendo falso, mas evitando o desconforto de encerrar um contato
Imagem gerada por inteligência artificial

A ilusão de proximidade nas redes sociais

O sociólogo Zygmunt Bauman descreveu relações que se dissolvem facilmente como “modernidade líquida”. Hoje, as redes sociais criam uma falsa sensação de intimidade constante. Ver a vida de alguém pelos stories, saber onde viajou e o que comeu passa a sensação de conexão contínua, mesmo sem contato real.

Essa proximidade virtual tira o valor do encontro físico, e a frase que convida sem compromisso vira apenas um jeito de manter o outro por perto, numa espécie de reserva afetiva que dispensa o tempo, o dinheiro e a energia que uma amizade genuína exige.

Quem sofre: o lado de quem espera

Para quem recebe o convite sem desdobramento, o efeito é bem diferente. Pessoas mais literais ou com um estilo de apego mais ansioso entram num ciclo de expectativa, silêncio prolongado e dúvida sobre si mesmas.

Um “não” definitivo, mesmo duro, permitiria encerrar esse ciclo e seguir em frente. A ausência de resposta deixa uma pendência aberta que consome energia mental. É o que o efeito Zeigarnik descreve: tarefas inacabadas ocupam mais espaço na memória e na atenção do que as já concluídas.

Segundo a psicologia, quem diz “vamos marcar” sem nunca marcar pode não estar apenas sendo falso, mas evitando o desconforto de encerrar um contato
Imagem gerada por inteligência artificial

Como lidar com essa dinâmica

Quem costuma fazer esse tipo de convite sem seguimento pode optar pela honestidade direta. Uma frase como “fico feliz em te ver bem, mas minha rotina está cheia demais para novos compromissos agora” é verdadeira e evita o desgaste de prolongar algo sem futuro.

Já quem recebe a promessa vazia pode ganhar clareza ao observar o comportamento, não apenas as palavras. Se alguém nunca propõe uma data nem avança com o plano, vale interpretar isso como um encerramento educado e poupar a energia de esperar por um dia que não vai chegar.