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Por mais de 100 anos, o gelo manteve um segredo enterrado nas montanhas: agora, com o avanço do aquecimento global, objetos voltam à superfície e obrigam autoridades a realizar uma operação delicada

Os artefatos recuperados serão incorporados ao acervo do Museu da Guerra Branca, com inauguração prevista para junho de 2027.


Por Clyverton Silva

29/10/2026 às 20h36

Por mais de 100 anos, o gelo manteve um segredo enterrado nas montanhas: agora, com o avanço do aquecimento global, objetos voltam à superfície e obrigam autoridades a realizar uma operação delicada
Foto ilustrativa: Jan Zakelj/Pexels

Nos Dolomitas, cadeia montanhosa no norte da Itália, o derretimento acelerado das geleiras trouxe à tona um arsenal silencioso da Primeira Guerra Mundial. Projéteis de artilharia italianos e morteiros franceses, guardados no gelo há mais de 100 anos, começam a reaparecer com o aquecimento do planeta.

O Exército Italiano confirmou a descoberta de armamentos do conflito conhecido como “Guerra Branca”, travado entre tropas italianas e o Exército Austro-Húngaro entre 1915 e 1918. O fenômeno levou autoridades a uma operação de busca e neutralização em toda a região de Trentino-Alto Ádige durante a campanha de verão.

A operação de recuperação nas geleiras

Excursionistas foram os primeiros a relatar munições encontradas na região de Canal San Bovo, no Vale do Primiero, na província de Trento. A partir desse alerta, a Brigada Alpina Julia organizou uma grande operação militar em áreas de alta altitude e geleiras para localizar e desativar esses artefatos perigosos.

A Brigada recuperou e neutralizou mais de 250 explosivos ao longo da operação. Na região de Canal San Bovo especificamente, militares encontraram 18 projéteis de artilharia italianos de 75 milímetros e 37 projéteis de morteiro Thevetot. Um modelo francês que também foi fornecido ao Exército Real Italiano durante o conflito.

Clima extremo acelera descobertas perigosas

Stefano Morosini, professor da Universidade de Bergamo e coordenador de projetos de patrimônio do Parque Nacional de Stelvio, aponta que o aquecimento global é o culpado direto pelo derretimento que expõe esses artefatos.

Os verões europeus cada vez mais intensos tornaram as geleiras dos Dolomitas progressivamente inacessíveis e instáveis. Em 2022, quando a geleira Marmolada sofreu um colapso, 11 pessoas morreram no local. A velocidade com que as geleiras recuam hoje permite que qualquer visitante perceba, na prática, os impactos concretos das mudanças climáticas na região.