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Político que estava no comando durante o período da pandemia é condenado a 14 anos de prisão por corrupção após investigação apontar que ele recebeu mais de R$ 45 milhões na China

A condenação foi reduzida porque Zhou confessou os crimes, colaborou com a investigação e a maioria dos recursos ilícitos foi recuperada.


Por Bernardo Teixeira

13/10/2026 às 17h32

Político que estava no comando durante o período da pandemia é condenado a 14 anos de prisão por corrupção após investigação apontar que ele recebeu mais de R$ 45 milhões na China
Foto: Tima Miroshnichenko/Pexels

O Tribunal Popular Intermediário de Shangqiu, na província chinesa de Henan, condenou o ex-prefeito de Wuhan, Zhou Xianwang, a 14 anos de prisão por corrupção. Anunciada nesta segunda-feira (12), a pena inclui multa de 5 milhões de yuans, equivalente a R$ 3,7 milhões.

Zhou esteve à frente da cidade chinesa no início da pandemia de covid-19, identificada pela primeira vez em um mercado local no fim de 2019. A sentença, porém, não tem relação com a crise sanitária e trata apenas de um esquema de suborno que durou duas décadas.

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Foto: DW / Deutsche Welle

Como funcionava o esquema de propina

De acordo com o tribunal, o ex-gestor aceitou propinas que ultrapassam 60,5 milhões de yuans, cifra próxima de R$ 45 milhões. Entre 2003 e 2025, ele teria usado diferentes cargos que ocupou na província de Hubei para favorecer empresas e pessoas em negociações comerciais e liberações administrativas.

Em troca dos favores, o ex-prefeito recebia dinheiro e bens de alto valor. A Justiça classificou o montante como especialmente elevado, mas reduziu a punição porque ele confessou os crimes, colaborou com a investigação e teve a maior parte dos recursos ilícitos recuperada pelas autoridades.

Investigação começou em 2024

As apurações contra o ex-gestor tiveram início em julho de 2024, quando ele passou a ser investigado por supostas graves violações da disciplina. E da lei, expressão que o governo chinês costuma usar para casos de corrupção.

A decisão judicial não menciona a atuação dele à frente da cidade durante os primeiros meses da pandemia, período em que recebeu críticas pela forma como lidou com a crise sanitária.

Em entrevistas após o início da pandemia, Zhou afirmou que governos locais chineses não podiam divulgar informações sobre doenças infecciosas sem autorização de Pequim. Essa fala reforçou, à época, a imagem de que a resposta inicial ao surto havia sido lenta e cercada de controle político sobre as informações.

O confinamento que marcou Wuhan

Wuhan entrou em confinamento em 23 de janeiro de 2020, com restrições que permaneceram em vigor por 76 dias. À época, a gestão da cidade foi criticada pela demora em informar o surto às autoridades.

O processo contra o ex-prefeito acabou concentrado apenas na corrupção administrativa, sem qualquer menção judicial ao período mais crítico vivido pela população sob seu comando. Mesmo assim, a condenação reabre o debate sobre a gestão de Wuhan nos meses em que a cidade esteve isolada do restante do país.

Com a sentença, o ex-prefeito se junta a uma lista de autoridades chinesas condenadas por práticas semelhantes em diferentes províncias do país nos últimos anos. Em processos conduzidos sob a mesma lógica de confissão seguida de devolução de bens.

Como o ex-prefeito convertia poder público em ganho pessoal

O esquema funcionava de forma direta: Zhou utilizava os cargos que ocupava na administração pública para tomar decisões que beneficiavam empresas e indivíduos específicos. Quando uma empresa precisava de uma aprovação administrativa ou tinha interesse em uma operação comercial, ele facilitava esses processos em troca de pagamento.

O pagamento não era feito apenas em dinheiro, incluía também bens de alto valor, ampliando as formas de recebimento da propina.

A permanência foi determinante no esquema: durante 22 anos, ele ocupou diferentes cargos na província, o que renovava sua capacidade de favorecer empresas e pessoas. Cada novo cargo oferecia novas oportunidades de negociar favores administrativos, criando um padrão contínuo de corrupção que atravessou décadas.

O que a condenação revela sobre o sistema de controle político chinês

A redução da pena, justificada pela confissão e colaboração, expõe como a Justiça chinesa funciona em casos de corrupção: não se trata de punição máxima, mas de um sistema que reconhece e premia quem se submete às investigações. Isso significa que, para autoridades condenadas, confessar e devolver os bens se torna mais vantajoso do que resistir.

A recuperação da maior parte dos valores ilícitos também mostra que o objetivo do regime vai além do castigo pessoal, é recuperar patrimônio público.

A condenação ocorre dentro da campanha anticorrupção liderada por Xi Jinping, o que revela que nenhum cargo, nem mesmo o de prefeito de uma grande metrópole , fica protegido. Para a população chinesa, significa que gestores públicos não estão imunes a investigação.

Ainda que isso não garanta julgamento sobre suas ações em crises específicas, como foi o caso de Wuhan durante a pandemia.