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Pessoas que vivem solitárias podem perder quase seis anos de vida saudável, aponta estudo

A boa notícia é que a solidão e seus impactos são reversíveis com tratamento psicológico adequado e participação comunitária.


Por Bernardo Teixeira

25/10/2026 às 19h33

Pessoas que vivem solitárias podem perder quase seis anos de vida saudável, aponta estudo
Foto: Jorge Ribeiro/Pexels

Quase seis anos de vida sem depressão, ansiedade ou outros transtornos mentais: é o que a solidão pode custar a um adulto americano, segundo um levantamento conduzido por pesquisadores da Universidade de Tulane.

A pesquisa, publicada pela revista científica Science Daily no início de outubro, indica que quase metade da população adulta dos Estados Unidos enfrenta algum grau de isolamento social. Ao medir esse impacto, a equipe responsável pelo estudo identificou que tanto a solidão quanto o isolamento reduzem o número de anos vividos sem doenças mentais e físicas.

Como a solidão afeta o corpo e o comportamento

De acordo com a psiquiatra Elaine Bida, a solidão persistente mantém o organismo em estado de alerta, como se a pessoa estivesse constantemente ameaçada. Esse mecanismo altera a produção de cortisol, hormônio relacionado ao estresse, e provoca processos inflamatórios que prejudicam o sistema imunológico.

Com o tempo, essas mudanças biológicas contribuem para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e metabólicas. A solidão também altera o comportamento: pessoas solitárias tendem a dormir pior, praticar menos atividades físicas, alimentar-se de forma inadequada e ter dificuldade para manter cuidados básicos com a saúde.

Uma silhueta solitária está ao lado do oceano, observando as ondas ao pôr do sol.
Foto: David Brown/Pexels

Os números do isolamento social e da solidão

Aos 50 anos, pessoas que vivem simultaneamente solidão e isolamento social apresentaram consequências significativas em comparação àquelas sem essas condições. Para homens, houve perda de 5,8 anos de vida livre de transtornos mentais e 1,7 ano a menos de vida sem as doenças físicas investigadas.

Mulheres sofreram perdas de 3,7 anos de vida livre de transtornos mentais e 2,4 anos a menos de vida sem as doenças físicas avaliadas. Esses números não indicam necessariamente uma redução na expectativa total de vida, mas na quantidade de anos vividos sem desenvolver as doenças investigadas pelo estudo.

Uma pessoa caminha sozinha na praia nevoenta de Veules-les-Roses, Normandia, com penhascos.
Foto: Olivier Darny/Pexels

A solidão deixou de ser apenas um problema emocional

Durante muito tempo, a solidão foi entendida como um problema apenas emocional. Hoje, os pesquisadores a reconhecem como um fator que interfere no funcionamento do organismo, na resposta ao estresse, na imunidade e na saúde do coração. Apesar disso, os problemas destacados pelo estudo continuam negligenciados como prioridades de saúde pública.

Imagem aérea de um homem sentado sozinho em um balanço em um playground de areia, vista de cima.
Foto: Pok Rie/Pexels

A condição é reversível com intervenção adequada

A boa notícia é que a solidão e seus impactos são reversíveis, embora os resultados dependam de cada pessoa e do tipo de intervenção utilizada. Incentivar alguém a sair de casa ou frequentar lugares cheios não é suficiente por si só.

Em entrevista ao CNN Brasil, a psiquiatra Elaine Bida afirmou que o tratamento psicológico pode ajudar a reverter esse quadro, principalmente quando o trabalho terapêutico foca em transformar crenças negativas que a pessoa tem sobre si mesma e sobre suas relações. Segundo ela, esse tipo de abordagem contribui para resgatar a confiança, elevar a autoestima e desenvolver habilidades sociais. Atividades físicas, participação comunitária e oportunidades de convivência também desempenham papel importante, especialmente quando criam espaços genuínos de conexão.

Um homem malhando em uma máquina de puxada para costas na academia, focando na construção de força.
Foto: Doğu Tuncer/Pexels

Por que a solidão coloca o corpo em estado de alerta permanente

Quando uma pessoa se sente persistentemente sozinha, seu organismo interpreta essa situação como uma ameaça constante. Esse estado de alerta ativa mecanismos de defesa do corpo que foram originalmente desenvolvidos para situações de perigo real. A psiquiatra Elaine Bida explica que esse processo desencadeia alterações na produção de cortisol, o hormônio do estresse, que mantém o corpo em tensão contínua.

Além dos efeitos do cortisol, esse estado de alerta favorece processos inflamatórios, quando o corpo ativa suas defesas como se estivesse sob ataque. Com o tempo, essas mudanças afetam o sistema imunológico e contribuem para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e metabólicas. Forma-se, assim, um ciclo em que o isolamento afeta a saúde física.

Uma pessoa solitária senta-se em um banco em um interior moderno e espaçoso com design de teto geométrico.
Foto: Caroline Cagnin/Pexels

O que significa perder “anos de vida livre de transtornos mentais”

Quando o estudo aponta que homens perdem 5,8 anos de vida livre de transtornos mentais, isso não quer dizer que eles vivam menos anos no total. Em comparação com pessoas que não sofrem de solidão e isolamento, significa que passam esse período convivendo com problemas como depressão e ansiedade.

É como se parte da vida fosse vivida enquanto enfrentam essas doenças mentais. Na prática, uma pessoa solitária pode chegar aos seus 50 anos já tendo enfrentado transtornos mentais durante anos, enquanto uma pessoa com conexões sociais saudáveis chegaria à mesma idade sem ter desenvolvido essas condições.

A diferença entre homens e mulheres, com mulheres perdendo 3,7 anos contra 5,8 dos homens, mostra que o impacto da solidão não é igual para todos.

Quando simplesmente sair de casa não resolve a solidão

A ideia comum de que basta incentivar uma pessoa solitária a frequentar lugares movimentados para resolver o problema não funciona. A psiquiatra Elaine Bida deixa claro que estar rodeado de gente não é sinônimo de conexão verdadeira. Uma pessoa pode estar em um ambiente cheio e continuar se sentindo profundamente sozinha se os relacionamentos não forem genuínos.

Isso significa que a solução não é apenas quantitativa, mais eventos, mais pessoas ao redor, mas qualitativa. O que importa é ter oportunidades de convivência que criem relações verdadeiramente significativas, onde haja conexão real entre as pessoas envolvidas.

Se estou sozinho agora, já perdi esses anos de vida?

Não necessariamente, e a especialista Elaine Bida enfatiza que a solidão é reversível, assim como seus impactos no corpo e na mente. Os números do estudo mostram o que acontece quando a pessoa vivencia solidão e isolamento simultaneamente, mas não significam que os danos sejam permanentes. A recuperação depende de cada pessoa e do tipo de intervenção utilizada.

Isso pode incluir terapia psicológica, atividades físicas, participação em grupos comunitários ou oportunidades de criar conexões genuínas. A possibilidade de reverter a situação existe, embora os resultados variem.