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Pesquisadores investigam como adoçantes podem afetar a saúde intestinal

Estudo aponta que adoçantes podem alterar a microbiota intestinal e afetar o metabolismo, segundo pesquisadores.


Por Leticia Florenco

08/07/2026 às 16h04

Pesquisadores investigam como adoçantes podem afetar a saúde intestinal

A substituição do açúcar por adoçantes de baixa caloria sempre foi vista como uma estratégia para reduzir calorias e controlar os níveis de glicose no sangue.

No entanto, uma nova análise científica reforça que esses produtos podem não ser tão neutros ao organismo quanto se acreditava.

Pesquisadores da Universidade Tufts, nos Estados Unidos, reuniram evidências que apontam possíveis efeitos dos adoçantes artificiais e de outros adoçantes não nutritivos sobre o metabolismo e a microbiota intestinal.

Os resultados foram publicados na revista científica Current Atherosclerosis Reports e reúnem dados de 21 ensaios clínicos randomizados com adultos, considerados um dos modelos mais confiáveis para avaliar intervenções em saúde.

Embora os autores não defendam a proibição do consumo desses produtos, eles afirmam que as descobertas reforçam a necessidade de cautela e de novas pesquisas para compreender seus efeitos a longo prazo.

Revisão reúne estudos sobre metabolismo e controle da glicose

A meta-análise avaliou pesquisas que compararam pessoas que consumiram adoçantes com participantes que ingeriram apenas água ou placebo, permitindo observar os efeitos diretos dessas substâncias sem a interferência do açúcar.

Entre os principais achados estão o aumento dos níveis de insulina em jejum, a elevação da hemoglobina glicada (HbA1c), marcador utilizado para acompanhar o controle da glicemia ao longo dos meses, e uma tendência de redução da sensibilidade à insulina.

Segundo os pesquisadores, esses resultados sugerem que determinados adoçantes podem provocar respostas metabólicas que ainda não são totalmente compreendidas pela ciência.

Microbiota intestinal está no centro das investigações

Os cientistas apontam que o mecanismo mais provável envolve o microbioma intestinal, conjunto de trilhões de microrganismos responsáveis por funções importantes para o equilíbrio do organismo.

Como muitos adoçantes não são completamente absorvidos durante a digestão, eles chegam praticamente intactos ao intestino, onde entram em contato direto com as bactérias intestinais.

Essa interação pode modificar tanto a composição quanto o funcionamento da microbiota, alterando processos ligados ao metabolismo, à digestão e até ao sistema imunológico.

Uma das pesquisas analisadas utilizou técnicas avançadas para mapear essas alterações e, posteriormente, transferiu a microbiota de voluntários para camundongos.

Os resultados mostraram que algumas mudanças provocadas pelos adoçantes também foram reproduzidas nos animais, fortalecendo a hipótese de que essas substâncias podem interferir diretamente no equilíbrio intestinal.

Metodologia fortalece os resultados

De acordo com os autores, um dos diferenciais da revisão foi a escolha dos grupos de comparação.

Enquanto muitos estudos anteriores comparavam adoçantes ao açúcar, esta análise utilizou controles sem calorias, como água e placebo.

Isso permitiu identificar os efeitos específicos dos adoçantes, sem que os impactos do açúcar influenciassem os resultados.

Além dos ensaios clínicos, os pesquisadores também revisaram grandes estudos observacionais que acompanham milhares de pessoas ao longo dos anos.

Essas pesquisas encontraram associação entre o consumo frequente de adoçantes e maior incidência de doenças cardiometabólicas, embora não comprovem uma relação direta de causa e efeito.

Especialistas destacam limitações das evidências

Apesar dos resultados considerados relevantes, os próprios autores reconhecem que ainda existem limitações importantes.

Uma delas é que pessoas com obesidade, diabetes ou maior risco cardiovascular costumam consumir mais adoçantes justamente por recomendação médica, o que dificulta determinar se os problemas observados foram provocados pelo consumo dessas substâncias ou pelas condições de saúde pré-existentes.

Outro ponto destacado é que diferentes adoçantes possuem composições químicas distintas e podem produzir efeitos diferentes no organismo.

Agrupar todos eles em uma única categoria pode ocultar diferenças importantes entre cada composto.

Falta de informações sobre doses dificulta pesquisas

Os pesquisadores também chamam atenção para um obstáculo enfrentado pelos estudos científicos: a ausência de informações detalhadas sobre a quantidade de adoçantes presente nos alimentos industrializados.

Em países como os Estados Unidos, a legislação exige que os fabricantes informem quais adoçantes foram utilizados, mas não determina a divulgação das quantidades presentes em cada produto.

Sem esse dado, torna-se mais difícil calcular o consumo diário da população e estabelecer relações mais precisas entre dose e possíveis efeitos sobre a saúde.

Ciência recomenda cautela, não proibição

Os autores ressaltam que os resultados não significam que os adoçantes devam ser eliminados da alimentação.

Para pessoas que consomem grandes quantidades de açúcar, esses produtos ainda podem representar uma alternativa para reduzir a ingestão calórica e auxiliar no controle glicêmico.

No entanto, a pesquisa reforça que eles não devem ser encarados como completamente inofensivos.