Para reduzir o impacto de uma greve, empresa desviava vans, mandava funcionários esperar em uma padaria e mudava horários de entrada; Justiça entendeu que a estratégia violava direitos dos trabalhadores e impôs condenação de R$ 100 mil
Ministério Público do Trabalho havia pedido R$ 2 milhões de indenização depois que a empresa recusou um acordo para não repetir as práticas.

Durante uma greve de trabalhadores terceirizados em uma refinaria no litoral de São Paulo, as vans que levavam os funcionários ao trabalho passaram a fazer um caminho diferente. Em vez de seguir direto para a refinaria, os veículos ficavam parados em frente a uma padaria até que os grevistas deixassem o portão.
A manobra custou caro. A Eleva In-Haus Manutenção Industrial, do Grupo GPS, foi condenada pela Justiça do Trabalho a pagar R$ 100 mil por dano moral coletivo, segundo informações divulgadas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT).
O caso aconteceu na Refinaria Presidente Bernardes (RPBC), da Petrobras, em Cubatão. Para a Justiça, as medidas foram pensadas para esvaziar a greve e feriram o direito dos trabalhadores à organização sindical.
Como funcionava a estratégia
A investigação foi conduzida pelo MPT em Santos. De acordo com o órgão, nos dias de paralisação as vans com os empregados deixavam de ir diretamente para a refinaria.
Os veículos aguardavam em pontos como uma padaria e o Paço Municipal de Cubatão. Só depois que os piquetes dos sindicatos terminavam é que os trabalhadores eram levados ao serviço.
A empresa também mexia nos horários de entrada. Em algumas ocasiões, os funcionários começavam o expediente antes de os sindicalistas chegarem ao portão da refinaria, o que impedia qualquer contato entre eles.
Para o MPT, as mudanças não tinham nenhuma justificativa operacional. O objetivo, segundo o órgão, era reduzir a adesão ao movimento.
O que são os piquetes
Os piquetes são concentrações de grevistas, normalmente na porta do local de trabalho. Servem para explicar aos colegas o que está sendo reivindicado e tentar convencê-los, de forma pacífica, a participar da paralisação.
Ao impedir esse encontro, a empresa cortava justamente o principal canal de comunicação entre o sindicato e os trabalhadores que ainda não tinham aderido à greve.
As provas que pesaram na decisão
Depoimentos e os registros de acesso à refinaria mostraram alterações fora do comum nos horários de chegada dos empregados, sobretudo nos primeiros dias da greve.
A sentença registrou que os funcionários chegavam em grupos, sempre depois do fim dos piquetes, como consequência direta dos desvios de rota e das mudanças de jornada organizados pela empresa.
A Justiça classificou a conduta como prática antissindical. O entendimento foi de que a empresa violou o artigo 6º, parágrafo 2º, da Lei de Greve (Lei nº 7.783/1989), que proíbe o empregador de usar meios para forçar o trabalho ou impedir a divulgação do movimento grevista.
Acordo recusado e pedido de R$ 2 milhões
Antes de recorrer à Justiça, o MPT tentou resolver o caso com um Termo de Ajuste de Conduta (TAC). Pelo acordo, a empresa se comprometeria a não repetir as práticas identificadas durante a greve.
A Eleva In-Haus não aceitou a proposta. Com a recusa, o MPT entrou com uma ação civil pública pedindo medidas para impedir novas irregularidades e indenização de R$ 2 milhões.
Os pedidos foram aceitos em parte, e o valor da indenização ficou em R$ 100 mil. O dinheiro será destinado ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).
O que a empresa terá de cumprir
Além da indenização, a decisão proíbe a empresa de adotar medidas que dificultem ou impeçam o direito de greve, a participação em assembleias e a atuação dos sindicatos. Se descumprir a ordem, poderá pagar multa por trabalhador prejudicado.
A sentença lembrou que a liberdade sindical é garantida pela Constituição Federal e por convenções internacionais assinadas pelo Brasil, como a Convenção nº 98 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Para o MPT, o direito de greve vai além de cruzar os braços. Ele também inclui a possibilidade de divulgar as reivindicações e buscar, de forma pacífica, o apoio dos colegas, exatamente o que a estratégia das vans tentava impedir.








