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O que a psicologia diz sobre pessoas que deixam tudo para a última hora

Intervenções baseadas em autocompaixão apresentam resultados melhores do que abordagens centradas apenas em disciplina e controle.


Por Bernardo Teixeira

18/10/2026 às 16h08

O que a psicologia diz sobre pessoas que deixam tudo para a última hora
Foto: Andrea Piacquadio/Pexels

Quando alguém adia uma tarefa desconfortável, o que está em jogo não é falta de força de vontade, mas a maneira como o cérebro busca escapar de emoções difíceis. É o que indica um conjunto de pesquisas recentes em psicologia e neurociência, que passou a tratar a procrastinação como uma estratégia para lidar com emoções, e não como falha de caráter ou ausência de disciplina.

Estimativas apontam que de 15% a 25% da população adulta faz do adiamento um hábito recorrente diante de tarefas incômodas, características de uma procrastinação crônica. Joseph Ferrari, professor de psicologia na Universidade DePaul, nos Estados Unidos, chega a uma proporção próxima, de cerca de 20% dos adultos em todo o mundo enquadrados nesse perfil.

Ferrari destaca a importância de diferenciar o adiamento ocasional de uma tarefa do padrão persistente que compromete a carreira e o bem-estar.

Homem profissional de terno checando seu relógio de pulso do lado de fora de um prédio moderno.
Foto: Ketut Subiyanto/Pexels

A diferença entre adiar ocasionalmente e procrastinar

Nem todo adiamento constitui procrastinação no sentido que interessa aos pesquisadores. Todos postergam uma tarefa de vez em quando, é natural escolher conscientemente fazer algo amanhã. O que distingue o padrão clínico é a persistência: quando o adiamento compromete sistematicamente a carreira e o bem-estar, deixando de ser um episódio isolado.

Pesquisadores da Universidade DePaul, nos Estados Unidos, diferenciam entre o adiamento ocasional de uma tarefa específica e um padrão recorrente que prejudica a vida da pessoa. Essa distinção importa porque nem toda procrastinação tem a mesma origem ou exige a mesma abordagem terapêutica.

Uma mulher em uma camisa rosa se apoia em uma mesa ao lado de um grande relógio despertador rosa, com um fundo rosa.
Foto: KoolShooters/Pexels

Por que o cérebro escolhe o alívio imediato

É nessa chave que a procrastinação aparece nos trabalhos da psicóloga Fuschia Sirois, que atua como professora de psicologia social e da saúde na Universidade de Durham, no Reino Unido: antes de tudo, um problema ligado à forma como as pessoas regulam suas emoções. Quando alguém adia uma tarefa que gera ansiedade, tédio, insegurança ou medo de ser julgado, o cérebro experimenta alívio imediato.

Essa recompensa de curto prazo, a sensação de escapar do desconforto, reforça o comportamento, mesmo quando a tarefa continua pendente e passa a ser acompanhada de culpa e vergonha.

Exames de neuroimagem também trazem evidências nessa direção: quanto mais grave a procrastinação, menor costuma ser o volume de matéria cinzenta identificado no córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo, área do cérebro ligada ao controle de impulsos e à tomada de decisões. O achado sugere uma base neurobiológica para explicar por que algumas pessoas têm mais dificuldade com o adiamento crônico.

Um modelo de cérebro humano colocado em um prato azul, visto de cima contra um fundo pastel.
Foto: Amel Uzunovic/Pexels

Por que técnicas tradicionais de produtividade falham

Agendas e aplicativos de tarefas raramente resolvem a procrastinação crônica porque tratam apenas o sintoma, a organização do tempo, e não a causa: a dificuldade de lidar com emoções desconfortáveis. A psicoterapeuta Julia Baum, licenciada em Nova York, relata que a dificuldade de organizar o tempo costuma ser apenas a superfície de um problema emocional mais profundo.

Pesquisas confirmam que treinamentos voltados especificamente para habilidades de regulação emocional, em vez de apenas para a organização da agenda, reduzem os índices de procrastinação entre estudantes e adultos no ambiente profissional.

Estudos mostram que a autocrítica excessiva alimenta um ciclo: a pessoa adia a tarefa, sente culpa pelo atraso e aumenta o desconforto emocional ligado a ela, o que torna ainda mais difícil começar.

Intervenções baseadas em autocompaixão, que ensinam a lidar com o fracasso sem se punir, apresentam resultados melhores do que abordagens centradas apenas em disciplina e controle.

Jovem mostrando estresse com laptop e celular na mesa, incorporando exaustão digital.
Foto: Anna Tarazevich/Pexels

Como a resposta ao estresse se torna procrastinação

Quando uma pessoa enfrenta um prazo ou teme ser julgada, o cérebro ativa a mesma resposta de luta ou fuga usada por nossos ancestrais para escapar de perigos físicos. Essa reação automática acontece na amígdala, região do cérebro que regula emoções e memórias.

O problema é que ameaças modernas, como críticas ou prazos, não são fisicamente perigosas, mas o cérebro as trata como se fossem.

Quando essa resposta é disparada, a pessoa busca comportamentos que tragam alívio imediato do desconforto, como adiar a tarefa. Esse alívio momentâneo funciona como um mecanismo de autoproteção: ao não terminar o trabalho naquele momento, ela evita um possível fracasso maior mais tarde.

O problema é que o alívio de curto prazo acaba se voltando contra ela, deixa a tarefa pendente e aumenta a ansiedade.