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Mulher só descobre após a morte do pai que ele deixou toda a herança para um dos quatro filhos; acordo sai, mas irmãos deixam de se falar

Charlotte só descobriu o conteúdo do testamento do pai depois que ele morreu. O documento havia sido alterado para deixar todo o patrimônio para apenas um…


Por Evellyn Nascimento

26/09/2026 às 13h38

Mulher só descobre após a morte do pai que ele deixou toda a herança para um dos quatro filhos; acordo sai, mas irmãos deixam de se falar
Foto: Puwadon Sang-ngern/Pexels

Charlotte só descobriu o conteúdo do testamento do pai depois que ele morreu. O documento havia sido alterado para deixar todo o patrimônio para apenas um dos quatro filhos, enquanto ela e os outros dois irmãos ficaram de fora. O choque levou os três a contestarem a decisão e tentarem resolver a disputa por meio de mediação.

As negociações, porém, não chegaram a um acordo. Posteriormente, os três irmãos excluídos fizeram um acordo fora dos tribunais e passaram a dividir uma parcela minoritária da herança. O conflito teve uma consequência que foi além do patrimônio: desde então, eles não voltaram a falar com o irmão que recebeu a maior parte dos bens.

Descoberta do testamento mudou a relação entre os irmãos

Na época da morte do pai, Charlotte estava no fim dos 50 anos, era divorciada e não tinha imóvel próprio. Além de ficar sem uma parte da herança, ela também não teria condições de transmitir aquele patrimônio aos próprios filhos.

Mais do que a questão financeira, a mulher passou a questionar o significado da decisão tomada pelo pai. A mudança no testamento fez com que ela revisasse lembranças e episódios da relação familiar em busca de uma explicação para a escolha.

Charlotte contou ao Guardian que passou a se perguntar qual era o valor que ela e os irmãos tinham para o pai e qual seria a responsabilidade dele em relação aos filhos. A disputa, portanto, não terminou quando houve um acordo sobre o patrimônio: o rompimento entre os irmãos permaneceu.

O caso é apresentado pelo Guardian como um exemplo de como conflitos sucessórios podem envolver questões familiares antigas, além da divisão de bens.

Número de mediações cresce na Austrália

Os dados dos tribunais de New South Wales mostram que as disputas relacionadas a sucessões e inventários aumentaram nos últimos anos. Em 2021, foram registradas 104 mediações realizadas com participação do tribunal em processos desse tipo. Em 2025, o número chegou a 735.

No mesmo período, a quantidade de novos processos de sucessão e inventário passou de 1.168 para 1.467. Os números não significam que a maioria dos testamentos esteja sendo contestada, mas mostram um aumento na quantidade de conflitos que chegam ao sistema judicial.

A mudança acontece enquanto uma enorme transferência de patrimônio entre gerações se aproxima. Segundo o Guardian, a chamada geração silenciosa e os baby boomers possuem cerca de US$ 5,4 trilhões em ativos que devem passar para seus descendentes nas próximas duas décadas.

Além do envelhecimento da população, o cenário envolve uma grande concentração de patrimônio em imóveis e fundos de aposentadoria. O crescimento das famílias formadas após novos casamentos e de estruturas familiares que fogem do modelo tradicional também pode tornar a divisão dos bens mais complexa.

Herança ganhou peso em meio aos preços dos imóveis

O tamanho das heranças também ajuda a explicar por que as disputas podem assumir proporções maiores. Uma pesquisa da JBWere citada pelo Guardian apontou que os australianos recebem, em média, uma herança de 706.806 dólares australianos, geralmente entre os 55 e 59 anos, com dados da Comissão de Produtividade.

Em um mercado imobiliário de preços elevados, esse dinheiro pode representar uma oportunidade de comprar uma casa ou melhorar a segurança financeira. Por isso, a expectativa de receber uma parcela do patrimônio familiar pode ter um peso diferente para quem já possui imóveis e para quem não tem propriedade.

Prue Vines, professora de Direito da University of New South Wales e pesquisadora da área de sucessões, afirmou que a maioria dos testamentos é executada sem conflitos. Os casos que chegam até ela, porém, mostram disputas familiares que podem ser bastante difíceis.

Segundo Vines, ela percebeu um crescimento nesse tipo de conflito há cerca de três décadas. A diferença atualmente estaria no tamanho dos patrimônios envolvidos: com imóveis muito mais caros e uma desigualdade maior, a quantia em disputa pode ser significativamente superior ao valor de objetos ou bens familiares tradicionais.

Conflitos não envolvem apenas famílias ricas

Adeline Schiralli, advogada especializada em testamentos e sucessões, usa a expressão “impaciência por herança” para descrever uma parte desse fenômeno. Segundo ela, as disputas aparecem em diferentes grupos econômicos e não ficam restritas a grandes fortunas.

A advogada relatou ao Guardian que já acompanhou conflitos envolvendo patrimônios bastante pequenos. Nessas situações, o valor total deixado pelo falecido não necessariamente explica a dimensão da briga. As circunstâncias pessoais dos herdeiros e a história da família também podem pesar na decisão de entrar com uma ação.

O aumento do custo de vida e a dificuldade de acesso à moradia ajudam a dar outra dimensão às expectativas sobre heranças. Para algumas pessoas, receber parte do patrimônio dos pais pode significar a possibilidade de comprar um imóvel ou alcançar uma estabilidade financeira que seria mais difícil de obter apenas com a própria renda.

Disputa pela herança pode ultrapassar o patrimônio

Os conflitos sucessórios também podem começar antes mesmo de uma ação judicial. O Guardian cita Mary-Ann de Mestre, especialista em Direito sucessório da Macquarie University, para explicar que famílias formadas por novos casamentos, filhos adultos, enteados e diferentes relações de dependência têm criado situações mais complexas na hora de definir quem pode reivindicar uma parte da herança.

A advogada também aponta que mensagens de celular, anotações digitais e até testamentos produzidos com ferramentas de inteligência artificial já aparecem entre os elementos que podem ser apresentados em disputas sobre as últimas vontades de uma pessoa.

Para Charlotte, o conflito familiar acabou revelando uma dimensão que não estava restrita ao dinheiro. Depois do acordo, ela e os dois irmãos que também haviam sido excluídos continuaram afastados do irmão beneficiado pelo testamento.