Mulher perde companheiro durante expedição em busca de naufrágios, herda o barco dele e decide assumir o comando para continuar o sonho que os dois construíram juntos

Jennifer Sellitti nunca imaginou que a atividade que dividia com o companheiro terminaria levando-o à morte. Ao lado de Joe Mazraani, ela passou anos explorando o fundo do Atlântico Norte em busca de embarcações naufragadas e das histórias das pessoas ligadas a elas. De acordo com informações do The Guardian, depois que ele morreu durante uma expedição, em julho de 2025, Jennifer recebeu uma decisão que mudaria novamente sua vida: ficou com o barco Tenacious, construído e adaptado por Joe, e resolveu assumir a liderança da equipe para manter vivo o sonho que os dois desenvolveram juntos.
Quem era o casal que procurava naufrágios no Atlântico
Jennifer e Joe tinham uma rotina incomum. Durante o dia, os dois trabalhavam como advogados de defesa criminal em Nova Jersey, nos Estados Unidos. Fora do expediente, porém, dedicavam grande parte do tempo à preparação de expedições marítimas.
Joe era mergulhador técnico e capitão licenciado pela Guarda Costeira dos Estados Unidos. Em 2010, comprou uma antiga embarcação de pesca e começou a transformá-la no D/V Tenacious, um barco preparado para apoiar operações de mergulho e pesquisas em áreas de naufrágios.
Jennifer entrou nesse universo depois de conhecer Joe. Ela inicialmente atuava no suporte das expedições e na pesquisa histórica, mas passou a se envolver cada vez mais com os mergulhos. Obteve a certificação de mergulho em águas abertas em 2017, avançou para a certificação técnica dois anos depois e também se tornou capitã licenciada.
O trabalho da equipe não consistia simplesmente em encontrar objetos no fundo do mar. Os mergulhadores procuravam identificar embarcações desaparecidas, recuperar elementos que ajudassem a confirmar a identidade dos naufrágios e reconstruir a história dos navios e de seus ocupantes.
Essa pesquisa acabou aproximando Jennifer de famílias que ainda carregavam dúvidas sobre parentes desaparecidos no mar. Para ela, localizar uma embarcação também significava recuperar uma parte da história que havia permanecido perdida.
O naufrágio que se tornou um dos maiores projetos do casal
Entre os projetos que mais mobilizaram Jennifer estava a busca pelo Le Lyonnais, um navio a vapor que desapareceu no século XIX depois de uma colisão próxima a Nantucket.
O acidente ocorreu quando o navio francês se chocou com a embarcação americana Adriatic. O Le Lyonnais acabou afundando e a localização exata de seus restos permaneceu desconhecida por mais de 160 anos.
Jennifer começou a investigar o caso em 2016. Durante anos, reuniu documentos, comparou registros históricos e trabalhou com outros pesquisadores para determinar onde o navio poderia estar.
O problema era que a região provável ficava em Georges Bank, uma área localizada cerca de 200 milhas náuticas ao largo de Nantucket. O Tenacious não tinha inicialmente autonomia e potência suficientes para realizar a viagem nas condições necessárias.
Joe então modificou a embarcação. O barco recebeu um motor mais potente, maior capacidade de combustível e equipamentos de sonar capazes de auxiliar na identificação de estruturas submersas.
A estratégia funcionou. Em 2024, a equipe conseguiu localizar e identificar o Le Lyonnais depois de analisar anomalias encontradas no fundo do oceano e comparar características da estrutura com os registros históricos do navio.
A descoberta representou o resultado de anos de pesquisa. Mas a expedição seguinte à região acabaria se tornando a última de Joe.
O que aconteceu com Joe durante o mergulho
Em 29 de julho de 2025, Joe participou de uma nova operação em Georges Bank. O objetivo era investigar naufrágios na região, incluindo uma embarcação que a equipe havia localizado anteriormente.
Jennifer permaneceu no Tenacious enquanto quatro mergulhadores desciam. Cerca de 75 minutos depois, ela percebeu que havia algo errado: as nadadeiras de Joe apareceram na superfície muito antes do momento em que ele deveria retornar.
O mergulhador havia subido rapidamente de uma grande profundidade. Em situações como essa, a diferença de pressão pode provocar alterações graves no organismo, especialmente quando os gases dissolvidos no corpo não conseguem ser eliminados adequadamente durante a subida.
Um dos integrantes da equipe encontrou Joe durante a ascensão e tentou prestar assistência. Ele chegou à superfície, mas não resistiu.
A autópsia apontou barotrauma relacionado à doença descompressiva como causa da morte. A investigação da Guarda Costeira continuou posteriormente, e, segundo a equipe, não foi identificada uma falha no equipamento que explicasse o acidente. Joe tinha 47 anos.
Jennifer recebeu o barco e decidiu não abandonar o projeto
A morte de Joe deixou um problema que ia além da perda pessoal. Ele era responsável por grande parte do conhecimento técnico relacionado ao Tenacious e ocupava a posição central na condução das expedições.
A embarcação havia sido modificada por ele praticamente peça por peça. Com sua morte, parte da equipe se dispersou e surgiu a possibilidade de que o barco fosse vendido.
Jennifer, porém, tinha outra alternativa. Joe havia deixado o Tenacious para ela em seu testamento. Além disso, ela possuía licença para comandar a embarcação e já conhecia profundamente a operação das expedições. Em vez de encerrar a atividade, decidiu reorganizar a equipe e assumir o comando.
A mudança não significava simplesmente substituir Joe. Jennifer passou a estruturar uma nova forma de funcionamento, mantendo o conhecimento acumulado pelo grupo, mas dando maior espaço para a participação dos demais integrantes nas decisões. Em janeiro de 2026, a equipe se reuniu e a escolheu oficialmente como capitã do Tenacious.
O objetivo agora é continuar procurando navios perdidos
Depois da morte de Joe, Jennifer voltou ao mar para realizar novas expedições. Uma das primeiras operações resultou na recuperação da âncora do Maurice Tracy, demonstrando que a equipe continuaria trabalhando mesmo sem o antigo capitão.
A continuidade também tem uma dimensão histórica. Jennifer entende que localizar um naufrágio não representa apenas encontrar uma estrutura no fundo do oceano. Cada embarcação pode estar relacionada a pessoas, famílias e acontecimentos que permaneceram sem respostas durante décadas.
Essa perspectiva ganhou ainda mais peso depois que a equipe identificou o Seiner, um navio que desapareceu em Georges Bank em 1929. Após a divulgação da descoberta, Jennifer recebeu o contato de uma descendente de um homem que havia morrido a bordo. Para a família, saber onde o navio estava ajudou a responder uma pergunta que permanecia aberta havia gerações. É esse tipo de resultado que passou a orientar a nova fase do trabalho.
O próximo desafio da equipe de Jennifer Sellitti
Com Jennifer no comando, o Tenacious continua sendo utilizado em expedições de pesquisa e mergulho no litoral nordeste dos Estados Unidos. A equipe mantém uma lista de naufrágios de interesse e segue utilizando pesquisa documental, sonar e mergulho técnico para tentar identificar embarcações ainda não localizadas.
Um dos objetivos atuais envolve o Carolina, um naufrágio que era particularmente importante para Joe e cuja localização já faz parte dos planos da equipe. O grupo ainda procura o sino da embarcação.
A história de Jennifer, portanto, não termina com a perda de Joe. O barco que ele construiu passou para as mãos da companheira, que agora precisa conduzir a embarcação, administrar a equipe e tomar decisões sobre expedições que antes eram comandadas pelos dois.
O projeto mudou de liderança, mas mantém a mesma finalidade: procurar no fundo do oceano embarcações esquecidas e reconstruir as histórias que ficaram associadas a elas. Para Jennifer, continuar navegando também se tornou uma maneira de dar sequência ao futuro que ela e Joe haviam planejado antes de sua morte.









